Crítica | O Lutador (2008)

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estrelas 4O Lutador pode ser considerado o filme mais “pé no chão” do diretor Darren Aronofsky. Após o intrigante Pi, o avassalador Réquiem para um Sonho e o visualmente rebuscado Fonte da Vida, Aronofsky trouxe uma tocante história de redenção que é também um dos estudos de personagen(s) mais poderosos e sinceros dos últimos anos. Tudo no filme, desde a escolha dos atores até a condução ultra realista e semi-documental de Aronosky, corrobora para uma experiência de grande apelo emocional, sem que o diretor precise recorrer ao melodrama para isso. Além de tudo, o que faz de O Lutador um filme tão impactante para o espectador está no fato de que a trajetória de seus protagonistas, pessoas perdidas e deslocadas em seu tempo, encontrem rimas e semelhanças tão grandes com a trajetória de seus próprios intérpretes – e a autenticidade da obra provém justamente da honestidade com que os atores retratam a complexidade de seus personagens, algo que jamais aconteceria sem dois intérpretes à altura como Mickey Rourke e Marisa Tomei.

Rourke, em especial, pode ser apontado como a alma e o coração do filme. Tal qual nosso protagonista, Randy “The Ram” Robinson, uma estrela nas arenas de luta-livre mas que se encontra num precário estado de vida devido ao excesso de anabolizantes, tinturas para cabelo e álcool, Mickey Rourke, antes uma estrela dos anos 80, sumiu do mundo para se dedicar ao universo das lutas em ringue, rendendo-se a um grande número de cirurgias plásticas que desfiguraram seu rosto, transformando-o numa espécie de versão cartunesca bizarra de si mesmo, levando-o pouco tempo depois a um estado de decadência do qual o ator enfrentou sérias dificuldades para reverter. Com a ajuda de amigos como Sylvester Stallone e Robert Rodriguez, Rourke foi, gradativamente, se reerguendo do fundo poço, chegando ao ponto de Darren Aronofsky e o roteirista Robert D. Siegel criarem, quase que literalmente, uma cinebiografia sobre a queda e ressurgimento do ator. Pois O Lutador é exatamente sobre isto: um filme que fala sobre segundas chances, por mais distantes e inalcançáveis que elas possam estar.

Randy Robinson é obrigado a rever as escolhas feitas em sua vida e as decisões que será obrigado a tomar para o futuro quando é acometido de um ataque cardíaco, ocasionado por sua vida de excessos, que lhe deixa apenas duas saídas: ou Randy abandona os ringues, ou continua a lutar e morre. Entregue a um marasmo deprimente que é marcado, principalmente, por uma moradia vagabunda no interior de um trailer e pela falta de contato com sua filha (Evan Rachel Wood), Randy conta apenas com sua relação afetiva sem muita instabilidade com a striper Cassidy (Tomei), que assim como ele, usa o corpo como instrumento para continuar vivendo. Mas enquanto Randy se deixa levar pelo apego ao trabalho e ignora sua outra vida, Cassidy diz: “Você acha que sou uma striper, mas não sou. Sou mãe. A boate e o mundo real não se misturam.” Ao contrário de Cassidy, Randy encontra sérios problemas em separar os âmbitos profissionais e pessoais de sua vida, o que o condena a um estado de solidão que é preenchido apenas por aquilo que lhe garante o pão de cada dia: a violência e a sanguinolência dos ringues.

Tendo em cena dois interpretes que conferem uma credibilidade surpreendente e invejável aos seus papéis (Rourke, em especial, é capaz de dilacerar emocionalmente o espectador com suas feições duras e marcadas pelos golpes da vida), o roteiro de Siegel é absolutamente feliz em conferir o máximo de realismo à jornada dos personagens, apoiando-se principalmente em diálogos sutis e econômicos, porém completamente reveladores e intimistas, e que aos poucos permitem que o espectador torne-se cada vez mais intimo com as figuras na tela.

Para tanto, Darren Aronofsky deixa de lado seus costumeiros recursos estilísticos, permitindo que os outros fatores, especialmente o desempenho dos atores, façam com que o filme chegue ao objetivo almejado. Mas Aronofsky também faz sua parte, e adotando uma filmagem quase documental, com sua câmera sempre seguindo Randy pelas costas (o que nos transforma numa espécie de vouyers daquelas trágicas vidas), o diretor ressalta o realismo visceral da jornada de Randy rumo à construção de uma existência mais sólida e objetiva.

Neste ponto, talvez o único erro de O Lutador esteja no desenvolvimento da relação de Randy com sua filha, que apesar de ser uma das sequências mais indispensáveis da obra, recebe um tratamento pouco digno por parte do roteiro, que tenta resumir a complexidade daquela relação em míseras três cenas que não aprofundam aquela difícil convivência da maneira apropriada, desperdiçando ainda o talento da bela Evan Rachel Wood, que no fim das contas, recebe poucas oportunidades para demonstrar sua competência como atriz.

Mas diante do retrato duro e sem glamour de Aronofsky sobre a jornada de um homem em decadência, tais erros assuem pouca relevância diante do que a obra oferece em seu restante.  Há um certo pessimismo que certamente incomodará os mais sensíveis, algo que pode ser visto tanto nos cenários, figurinos e fotografia que adotam um quê de brutalidade que entra em perfeita coesão com o universo retratado, como na trilha sonora incidental de Clint Mansell, que pontua de maneira orgânica os momentos mais emocionais da narrativa.

E não há como esquecer a belíssima tomada final, de tom ambíguo e aberto, mas que encerra a projeção com coerência e criatividade.

O Lutador (The Wrestler, EUA, 2008)
Roteiro
: Robert D. Siegel
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis
Duração: 115 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.