Crítica | O Mágico (2010)

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A melancolia, as cores, a beleza, a feiura, os cheiros, os barulhos, os adventos e grandes felicidades do mundo são todos captados pelo ser humano por meio seus múltiplos sentidos — os elementos ficam guardados na memória, em suas diversas imagens, atribuídas a cada um, mesmo o que não é imagens, como cheiros, prontas para voltar sempre que for preciso. O artista entende à sua maneira cada elemento e os transforma em arte. Interessante sobre a arte visual é que tudo se trata dessas imagens nas memórias.

Sylvain Chomet constrói um mundo em O Mágico baseado em seus sentidos e seu entendimento visual do mundo, ao mesmo tempo em que conta a história de um artista em decadência no final da década de 1950. O visual do filme, bastante autoral quanto às escolhas de planos e cores, é trabalhado em estilo arcaico e com simplicidade — o que só contribui para que sejam evocadas a melancolia e a simpatia característica de Chomet e de Jacques Tati (autor do roteiro original do filme), que nos conquistam no primeiro minuto do longa.

O mágico do título do filme é um personagem que ainda quer achar a magia no mundo, que aparentemente só os bêbados e os mais inocentes parecem ainda ver. Ele luta contra a falência iminente do seu trabalho, viaja o mundo, acha uma menina com quem cria uma bonita relação de pai e filha, e a ela tenta convencer enquanto ainda consegue, e enquanto ela ainda é inocente, sobre a existência da magia encarnada nele. Usando essa animação mais arcaica ele cria um paralelo interessante com sua história. O que acontece é que, às vezes, Chormet parece desistir de fazer algo além, como se estivesse satisfeito, tomando as decisões mais fáceis de resolução visual das situações em certos momentos – que não são muitos, porém, em um filme que quase não tem diálogos, com possibilidades quase infinitas, fica bastante perceptível.

Mas, nos momentos mais inspirados do filme, Chomet calibra bem o senso artístico e cria um mundo onde a arte não morre, se transforma, onde os artistas têm que se adaptar aos novos movimentos do grande público, ou achar e se contentar com seu público de nicho. Um mundo onde nem as artes nem os artistas morrem, mas um em que artistas tem que lutar para serem o que são, e que, enquanto seres humanos com suas limitações, sofrem com essa luta, chegam a um limite mental — em uma cena clichê, porém mostrada de uma forma única nesta obra, um palhaço tenta se matar, e é salvo por um prato de refeição que o é servido pela inocente e carinhosa Alice. Melhor, o mundo sem artistas não é melancólico – não tem a capacidade nem de tal –, o mundo sem artistas é monótono, é composto pelas mesmas cores, em planos gerais em que nada tem foco, nada merece ser notado – melancólico mesmo é o mundo daqueles que fizeram tanto pelo público e chegaram a uma falência que não conseguiram evitar

O Mágico (L’illusionniste) – França, Reino Unido, 2010
Direção: Sylvain Chomet
Roteiro: Sylvain Chomet
Elenco: Jean-Claude Donda, Eilidh Rankin, Duncan McNiel, Raymond Mearns, James T. Muir, Tom Urie, Paul Bandey,
Duração: 80 minutos.

GABRIEL FERREIRA VIEIRA . . . Vivi em Recife por um longo tempo... até que eu fiz uma viagem para a Inglaterra dos anos 1990. Passei tanto tempo lá, ouvindo Radiohead em um apartamento melancólico, que nem lembro mais quanto foi. Depois voltei mais duas décadas no tempo e fui para o condado de Enfield (descobri que a casa lá era mal-assombrada mesmo). Quando já não dava mais de tanta depressão eu fui pra a Itália torcer para o Juventus e aproveitar o verão. Com essa turnê pelo mundo eu me senti preparado para começar a escrever...