Crítica | O Mar ao Amanhecer

estrelas 4

A Segunda Guerra Mundial é o período histórico que mais gera obras de ficção no mundo todo, ganhando da Idade Média e de produções sobre momentos específicos da História de certos países, como a Revolução Francesa, a Independência dos Estados Unidos ou cinebiografias de reis ingleses.

Diante de tanto material já filmado para cinema e TV, e décadas de produções sobre o tema, é de se esperar que os roteiristas de hoje tragam novas luzes ou novos focos além de tudo o que já foi dito e filmado. Mas explorar um momento da Segunda Guerra hoje não é uma tarefa fácil, principalmente porque qualquer coisa que se diga a respeito irá contar com o olhar vigilante e as críticas e elogios de uma sociedade que aprendeu a odiar o nazismo, mesmo que não saiba muito bem o que isso significa.

O cineasta alemão Volker Schlöndorff sabe muito bem a responsabilidade que é fazer um recorte da Segunda Guerra. Ele já dirigiu um dos mais elogiados filmes ambientados no período, O Tambor (1979), e sua filmografia sempre teve um forte apelo político, nunca deixando de lado abordagens culturais e críticas à sociedade alemã do presente e do passado, bem como à sociedade europeia em geral. Seu filme O Mar ao Amanhecer volta ao tema da grande guerra e conta a história de um grupo de 150 reféns da França ocupada que são condenados à morte em retaliação ao assassinato de um oficial nazista por jovens da Resistência.

Quem conhece razoavelmente bem esse período da História e já teve a oportunidade de ver alguns filmes baseados nele sabe o quão difíceis de julgar são as leituras e visões ideológicas realizadas sobre esse período. Isso porque essa fase da História não é fácil de ser analisada. Há quem demonize os colaboracionistas, há quem endeuse a Resistência, há quem mostre a barbárie alemã por todos os lados, como se não tivessem senso ou poder de administração, e por aí vai. Os documentos históricos e livros sobre a Ocupação também são reticentes, o que torna este um dos mais interessantes e amplos recortes das ações nazistas na Europa até o fim do regime, em 1945.

Schlöndorff se valeu de uma meticulosa pesquisa histórica para realizar O Mar ao Amanhecer e conseguiu um resultado impressionante ao mostrar um lado pouco convencional dos oficiais nazistas e os militantes da Ocupação em desorganização e confusão política.

Numa visão mais superficial, pode-se pensar que se trata de um filme cujo foco se alterna constantemente. Mas na verdade trata-se de uma narrativa paralela, cuja montagem bem ritmada linka os dois lados da moeda e mostra a amplitude do caso em questão. A preparação para a execução dos reféns preenche todo o desenvolvimento do filme, e nele podemos ver não só alguns alemães descontentes com as ordens de Berlim como também colaboracionistas que obedecem cegamente às ordens que recebem de seus superiores, algo que aparece escancarado no filme através de uma fala do pároco, já na reta final, o que também levanta uma discussão e tanto sobre dever político/social e consciência.

O filme tem um evidente lado emotivo, mas o diretor não faz disso o seu principal atrativo ou dá grande importância a ele. O que realmente está em jogo é “a coisa em si”, as ações ético-morais de militares e representantes de Estado numa situação delicada, onde o senso de justiça parece mais uma piada de mal gosto.

O filme tem uma produção notável, com destaque para fotografia e figurinos, capturando bem a atmosfera do momento e mostrando com grande realidade alguns espaços pouco vistos da França ocupada, mesmo que seja na ficção. A trilha sonora pode ser vista como guia de blocos cênicos, destacando-se em alguns pontos dramáticos ou servindo para ligar um momento a outro da história. As atuações também merecem um destaque especial, principalmente a de Ulrich Matthes, excelente ator alemão já conhecido por suas atuações notáveis.

O Mar ao Amanhecer reescreve um dos capítulos quase desconhecidos da Segunda Guerra Mundial, e mesmo que não acabe exatamente dentro da proposta geral da obra, pendendo mais para o lado lírico e amoroso das relações humanas, com certeza apresenta em seu desenvolvimento uma história que faz a sessão valer a pena. Mais um acerto de Volker Schlöndorff.

O Mar ao Amanhecer (La mer à l’aube) – França, Alemanha, 2012
Direção: Volker Schlöndorff
Roteiro: Volker Schlöndorff
Elenco: Léo-Paul Salmain, Marc Barbé, Ulrich Matthes, Jean-Marc Roulot, Philippe Résimont, Charlie Nelson, Martin Loizillon, Sébastien Accart, Gilles Arbona, Arnaud Simon, Jean-Pierre Darroussin
Duração: 90 minutos

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.