Crítica | O Massacre da Serra Elétrica (2003)

O Massacre da Serra Elétrica (2003)

estrelas 4

Refilmagens é um termo cinematográfico que faz muitos fãs se revoltarem. A maioria é uma reciclagem banal de todos os elementos que deram certo no filme “original”, somados aos tópicos comuns ao contemporâneo, tendo em vista trazer os clássicos para as plateias de hoje. Poucos casos funcionam. Os mais afeiçoados ao aterrorizante filme de 1974 que me perdoem, mas acredito que a sua releitura, lançada em 2003, consegue alcançar o patamar de melhor produção da era das refilmagens de terror, período histórico compreendido entre os primeiros idos dos anos 2000 e os dias atuais.

A nova embalagem de A Hora do Pesadelo é bem interessante, a repaginada no perfil do psicopata da franquia Sexta-Feira 13 também é pura adrenalina e diversão, a histeria da final girl e a perseguição final da reimaginação do clássico Halloween, realizada por Rob Zombie, também não me chatearam, mas o que O Massacre da Serra Elétrica se diferencia deles é o estabelecimento do clima, graças aos ótimos trabalhos da direção de fotografia de Daniel Pearl, enferrujada graças ao uso do sépia, juntamente com a montagem de Glen Scantlebury. Somados a isso, temos o design de produção de Greg Blair, responsável por imergir o espectador num clima asqueroso e claustrofóbico, carregado de elementos que denotam abandono, degeneração e angústia. Se a ideia é fazer um filme de horror, os elementos ideais são estes. No entanto, a cartilha está bem empregada aqui.

Se todos estes pontos citados fossem parte de um roteiro espetacular, teríamos um clássico contemporâneo, mas infelizmente Scott Kosar não consegue elevar os seus personagens e tira-los das amarras dos estereótipos. Não vejo como um problema, pois desde o começo da narrativa, sabemos que Michael Bay está na produção e o cineasta Marcus Nispel, oriundo da Publicidade e do sagaz terreno dos videoclipes, comanda a direção. O que esperar disso? Muita correria, “invencionismos” com a câmera e bastante tensão. A história pouco importa, afinal, basta bons sustos, altas doses de adrenalina e violência.

Por ser uma refilmagem, o filme já perde nas comparações. Refazer um clássico requer coragem e posso afirmar que o desafio foi cumprido nesta versão turbinada. Os elementos psicológicos não estão trabalhados com profundidade e a história nos mostra basicamente um grupo de jovens que ao atravessar o Texas rumo a um espetáculo musical da banda Lynyrd Skynyrd, precisam interromper a viagem por conta de obstáculos, culminando nos terríveis acontecimentos mais uma vez narrados pela ótima introdução gutural de John Larroquette.

Na versão de 1974 tínhamos a falta de combustível. Desta vez, uma moça catatônica é encontrada na estrada e comete suicídio dentro da van, o que faz o grupo de jovens parar a sua jornada em busca de ajuda. O problema, como na versão original, é que o local é praticamente abandonado e o que parecia ajuda na verdade se torna o maior pesadelo de suas vidas. Os tipos, como já sabemos, são os mesmos: a moça comportada que não curte drogas e possui perfil de liderança, há a moça que pensa constantemente em sexo, o maconheiro de plantão, dentre outros arquétipos exauridos no subgênero desde 1980.

Leatherface, diferente do gordinho desajeitado dos anos 1970, ganhou uma versão selvagem e troncuda. Interpretado por Andrew Bryniarski, o antagonista não perde tempo e elimina qualquer pessoa que esteja em seu caminho, no lugar e horas errados. Mais uma vez, o óbvio: precisaria ser igual ao “original”? Estamos diante de uma refilmagem, ponto para os envolvidos, responsáveis por modificarem a mitologia e fornecerem novos olhares, concorda?

Preocupados com a ação, os realizadores não nos apresenta detidamente cada membro da família canibal, colocando-os lá para trucidar os jovens incautos e traçarem o extenso painel de tortura física e psicológica pelo qual as vítimas são submetidas. Um dos membros, o xerife Hoyt (R. Lee Ermey) surge como uma variação de outro personagem icônico da sua carreira, o Sargento Hartman de Nascido para Matar, de Stanley Kubrick.

A ausência da clássica cena do jantar e da abertura com créditos narrados foram modificadas. Vale lembrar que praticamente todas as sequências da franquia investiram no mesmo padrão, o que as fez parecer uma corrente de refilmagens. Desta vez, o filme abre com um relato em preto e branco, supostamente registrado pela polícia, tendo em vista revelar os terríveis acontecimentos daquele paradisíaco dia em agosto de 1973.

Ao longo de seus 98 minutos, O Massacre da Serra Elétrica traz Jessica Biel como uma scream queen que não fica devendo nada ao passado do subgênero slasher. A trama ainda flerta rapidamente com o tráfico de pessoas, tema delicado na contemporaneidade, mas não aprofunda, pois a abordagem aparece em meio aos conflitos que encerram a narrativa, uma história cheia de gritos, sustos e sensação de perigo iminente.

O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre) – Estados Unidos/2003
Direção: Marcus Nispel
Roteiro: Scott Kosar
Elenco: Eric Balfour, Jessica Biel, Jonathan Tucker, Mike Vogel, Stephen Lee
Duração: 100 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.