Crítica | O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua

estrelas 2,5

Conhecida como 3D, a estereoscopia é a tecnologia que consiste na exibição simultânea de duas imagens, oriundas de pontos diferentes do espaço, tendo em vista simular o comportamento do olhar humano, o que pode tornar a experiência do espectador mais próximo do real, isto é, levar alguém que assiste a um filme para “dentro” da produção. Em 2013, quando O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua estreou, a técnica era tão comum e capitalizava na movimentação do público aos cinemas, haja vista os desafios da era da internet e a sedução dos downloads ilegais.

Mesmo que a experiência seja um tanto divertida para alguns, creio que a “modinha” veio na esteira de uma sociedade cada vez mais obcecada pelo “novo”, pois não basta um bom roteiro, uma edição eficiente e uma direção bem conduzida. O grande público precisa de cadeiras que balançam, simulação de tiros e respingos de chuva, além da sensação de estar dentro da história. Velhos tempos em que a metáfora e a alteridade davam conta do recado.

Enfim, deixadas as lamúrias de um crítico que viveu um pedaço de uma geração cinéfila e o surgimento de outra, O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua buscou trazer o antagonista Leatherface para a atualidade. Para isso, utiliza o 3D como incremento. Apesar de duas cenas relativamente interessantes, a tecnologia é descartável, pois faz pouca/quase nenhuma diferença para o desenvolvimento dramatúrgico.

Sendo assim, esta continuação segue o protocolo de Halloween H20 – Vinte Anos Depois, sétimo episódio da franquia Halloween, pois ao abandonar os filmes de 1982, 1990, 1994, 2003 e 2006, os roteiristas Adam Marcus e Debra Sullivan injetaram novo ânimo ao personagem, angariando vantagens e desvantagens que serão descritas ao longo desta análise.

O filme tem várias falhas de direção, mas John Luessenhop não é um cineasta medíocre. Ele faz o possível dentro do que lhe é oferecido. A eficiente abertura nos leva ao clímax do filme de 1974. Há trechos das principais mortes, da perseguição que envolve a fuga de Sally e a criação de novos personagens, isto é, os habitantes da cidade que ao serem notificados acerca das aberrações que acontecem na casa da família canibal, decidem acabar com o local. O que inicialmente seria uma situação resolvida pacificamente acaba em tragédia, com a casa sendo derrubada e incendiada, algo tipicamente estadunidense. Após a aparente destruição do espaço, um dos envolvidos descobre que o bebê que morava na casa está vivo, nos braços de sua mãe, uma mulher que se encontra muito machucada nos escombros. Numa postura maniqueísta, ele salva a criança (bonzinho) e mata a mãe (malvado).

Conforme aponta o roteiro, 20 anos depois, a jovem Heather (Alexandra Daddario) descobre que é herdeira de uma casa no Texas, pois a sua avó, pessoa que ela acreditava nem existir mais, morreu há três semanas. Primeiro ela entra em conflito com os pais, pessoas que não tinham lhe contando a verdade. Engraçado é observar que o lar que eles vivem atualmente lembra muito a casa obscura que derrubaram há duas décadas. Cheia de dúvidas, Heather parte para o Texas, acompanhada do namorado, de dois amigos e no caminho, oferece carona para outro personagem, desculpa para aumentar a lista de mortos pelo assustador Leatherface, aqui interpretado por Dan Yeager. Ao chegar na tal mansão, segredos serão revelados, e, concomitantemente, corpos serão retalhados.

Os códigos do slasher são seguidos à risca: o namorado de Heather, interpretado por Trey Songz, é um cafajeste e já a traiu com a sua amiga maconheira (Tania Raymonde). Ambos são mortos logo após uma festinha particular de um celeiro que fica nas imediações da casa. O “caroneiro” (Shawn Spos) tenta roubar a casa num momento de vacilo da turma, o que o torna o primeiro a encontrar a fúria de Leatherface, criatura que habita o porão do local. O cômico da turma (Keram Malick Sanchez) também não demora muito para encontrar a motosserra do antagonista, prenúncio da vingança que será realizada no celeiro da cidade, próximo ao epílogo, num reencontro marcado pela presença do xerife indeciso (Thom Barry) e do prefeito vingativo (Paul Rae).

Num misto de sequência e reboot, O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua ao menos consegue fornecer um novo caminho. Para dar certo, é preciso bom tato dos envolvidos em possíveis continuações. Cabe ressaltar que a abordagem é muito corajosa, pois diferente do que foi realizado em Sexta-Feira 13, o vilão é humanizado quase totalmente. Na refilmagem da saga de Jason, apesar do lado humano nunca antes apresentado ser mostrado ao público, o maníaco das sextas azarentas se mantem fiel à sua “essência” maléfica, pois ninguém é poupado quando o seu facão está em riste. Já no caso de Leatherface e das liberdades do roteiro desta versão 3D, o maníaco mostrou que pode ser domesticado. Alguém consegue imaginar um homem de porte monstruoso, que usa máscara de pele humana e tem como sons apenas grunhidos, se apresentar “belo, recatado e do lar”? Será que tal como na franquia Pânico, ele vai ganhar uma parceria, talvez, da sua prima? A reviravolta no final deixa isso em aberto.

Por falar em reviravolta, o plot twist não é dos piores. Há algo que nos faz gostar, pois ao nos tirar do lugar de conforto, promove a reflexão. Como afirmou o escritor Leon Tolstoi certa vez, “a verdadeira felicidade está na própria casa, entre as alegrias da família”. A opção de manutenção da família Sawyer depende exclusivamente de Heather no final da trama. Uma continuação ainda não apareceu para nos apresentar o que aconteceu depois disto tudo. Talvez uma série, já que a moda é essa, mas o que temos por notícia é um filme que (novamente) pretende contar as origens, pois o cartaz de divulgação faz uma referência a uma criança. Será que Leatherface apontava o lápis com a motosserra na escola? Não custa nada esperar, pois nesta época de tubarões envoltos em tornados e outros absurdos narrativos chamados de “licenças poéticas”, podemos esperar de tudo.

Aos interessados em saber sobre a estereoscopia no filme, admito que tal presença não faz diferença alguma. Tudo bem que O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua não possui um roteiro que nos permita esquecer qualquer aparato extra-diegético, mas se arremessar a motosserra em direção à tela ou nos fazer achar que um pedaço da lâmina está se aproximando das nossas cabeças é emoção, sugiro… bom, assumo que não sei o que fornecer como sugestão politicamente correta. Talvez algumas cápsulas de bom senso. Já é um bom começo. Ademais, dica aos curiosos: Gunnar Hansen, o Leatherface de 1974, faz uma participação na abertura, assim como a final girl Sally, a eterna Marilyn Burns, como a avó de Heather. Nada mais digno que uma boa homenagem, não é mesmo?

O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua (Texas Chainsaw 3D) — Estados Unidos/2013
Direção: John Luessenhop
Roteiro: Kirsten Elms, Stephen Susco
Elenco: Alexandra Daddario, Amanda Dyar, Bill Moseley, Blain Sanchez, Brandon Noack, Carl Bailey, Dan Forest, Dan Yeager, David Born, Dodie Brown, Elena Sanchez, Gunnar Hansen, James MacDonald, James Paul, Joe Guarneri, John Dugan, Johnnie Brannon, Jonathan Darden, Juliet Reeves, Kari J. Kramer, Keram Malicki-Sánchez, Kristen Beevers, Marilyn Burns, Michael Byrnes
Duração: 100 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.