Crítica | O Massacre da Serra Elétrica – Arquivos Sangrentos, de Stefan Jaworzyn

Leatherface é o irmão mais velho da família de psicopatas que se formou entre os anos 1970 e 1980. Antes de Michael Myers atacar na noite de Halloween, Jason vingar-se da sua mãe na Sexta-Feira 13 e Freddy Krueger adentrar os pesadelos dos jovens da rua Elm Street, o degenerado munido de uma motosserra já havia feito as suas vítimas num dos mais controversos e impactantes filmes de terror da época.

Na esteira dos livros que fazem uma elucidativa crítica genética de clássicos do horror, Arquivos Sangrentos – O Massacre da Serra Elétrica traz em sua abertura um prefácio mais que “autorizado”: ninguém menos que Gunnar Hansen, o Leatherface de 1974, destacando alguns detalhes da sua experiência no filme, bem como a importância da produção na memória do cinema. Para os que não sabem o ponto de partida da franquia, dirigido por Tobe Hooper, está no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Para alguns pode não ser grande coisa, mas para uma produção que circula dentro do circuito das artes, é uma instância de legitimação bem relevante.

O esquema da crítica genética está presente, tal como Sexta-Feira 13 – Arquivos de Crystal Lake: há análise das “pegadas dos realizadores”, análise de planilhas de produção, críticas especializadas da época, os impactos nas sessões de lançamento, a interação com o público, a sobrevivência para a posteridade e os relatos de alguns envolvidos na realização. Interessante não apenas para as pessoas que curtem filmes de terror, o livro é uma completa travessia pelo processo de produção de uma obra de baixo orçamento, tendo em vista interpretar os mecanismos que engendraram o filme, tornando-o um sucesso industrial e, por tabela, uma franquia que recentemente lançou o seu oitavo exemplar.

Com capítulos organizados cronologicamente, o livro traz depoimentos de Tobe Hooper (diretor), Kim Henkel (roteirista), Paul Kartmon, Jim Siedow, Marilyn Burns (a final girl), etc. Através de fotos de álbuns de registros, Stefan Jaworzyn traz detalhes de O Massacre da Serra Elétrica 2 (considerado um equívoco pelos depoentes), o agonizante desenvolvimento do quarto filme, a problemática relação com os produtores, bem como a “benção paterna e materna” dos envolvidos no primeiro filme para a sétima produção da franquia, o razoável e vacilante O Massacre da Serra Elétrica 3D – A Lenda Continua.

Ao longo de suas 320 páginas, o livro traduzido por Antônio Tibau e Dalton Caldas erra alguns nomes de títulos, mas as duas edições, Classic e Limited (capa dura) são tão primorosas que até damos algum crédito para as falhas. Lançado originalmente em 2003, a primeira versão abordava todos os filmes da franquia até então e os primeiros passos da carreira dos envolvidos. Para atualizar os leitores, a Darkside Books levantou alguns dados do remake de 2003, das “origens” de 2006 e da produção em 3D de 2013.

Para o autor, o espaço fílmico foi um dos motivos para a produção ter sido um sucesso. Os estereótipos comuns ao Texas nos remetem aos ambientes áridos, desérticos, imaginário do “local ideal para morrer”, pois dizem que até Van Gogh via no sol amarelo a eminência da morte.

As notas de rodapé são detalhes que merecem destaque. O título brasileiro equivocado é ridicularizado e o nosso contexto ditatorial nos anos 1970 é deflagrado, o que explica o atraso para a chegada do filme por aqui. O livro ainda trata de um problema que nos remete ao que Nina Rodrigues refletiu sobre os nordestinos brasileiros: “a questão do sol na cabeça”, uma espécie de análise para a região com base em suas condições climáticas, o que seria responsável pela condição animalesca ou primitiva dos habitantes locais.

Para alguns o Texas seria a região ideal para a manifestação desta família de psicopatas, degenerados por questões sociais e ambientais. Cabe ressaltar que o Texas era mal visto por causa do assassinato de Kennedy. Os quadros de Norman Rockwell que representavam o país na ótica da beleza e perfeição não correspondiam ao que acontecia naquele momento histórico. Na época, George Romero, John Carpenter, Wes Craven, David Cronenberg e Tobe Hooper despontaram como os cineastas responsáveis pelas inquietações representadas pelo cinema, numa espécie de explosão da receita que envolvia a revolta de subclasses, os hippies, o escândalo Watergate e os conflitos no Vietnã. Os hippies, por sinal, são considerados um dos acertos do filme no que diz respeito ao massacre do enredo, pois como aponta o autor, “estavam todos de saco cheio deles”.

Com linguagem bem humorada e nível de pesquisa altíssimo, Arquivos Sangrentos – O Massacre da Serra Elétrica é um livro valioso em termos memorialísticos e uma análise social dos anos 1970. Entre as questões interessantes que merecem destaque temos a opinião do diretor sobre o seu filme não ser uma crítica ao Vietnã, além de um envolvido na produção contar que Leatherface se tornou uma lenda viva no imaginário coletivo.

Segundo os relatos, um “contador de histórias”, em suas fabulações, alegava ter sido carcereiro na Penitenciária Estadual do Texas. Nesta versão narrativa, Leatherface teria trabalhado na cozinha da penitenciária. Outro rumor afirmava que tudo que tinha acontecido era “muito medonho”. Em outro local, alguém dizia que “lembrava quando tudo tinha acontecido” e que “havia conhecido Leatherface”. Histórias fantásticas contadas com ironia e humor por parte dos depoentes, numa prova cabal da força do personagem fora do contexto fílmico.

A cada capítulo, somos informados de detalhes preciosos: Kim Henkel escrevia diálogos em guardanapos, o filme foi filmado em 16 mm por conta do orçamento e da necessidade de clima documental, a narrativa se aproxima do “cinema verdade” francês e o filme se chamaria Leatherface à Espreita (Stalking Leatherface). Sendo assim, já que um novo filme foi lançado e estamos diante de uma obra repleta de minúcias históricas, o que acha de resgatar toda esta trajetória, caro leitor?

O Massacre da Serra Elétrica – Arquivos Sangrentos (The Texas Chainsaw Massacre Companion) — EUA, 2004
Autor: Stefan Jaworzyn
Tradução: Antônio Tibau, Dalton Caldas
Data original de publicação: 1º de março de 2004
Editora no Brasil: Darkside Books (Coleção Dissecando)
Data de publicação no Brasil: 20 de março de 2013
Páginas: 320 (edição nacional atual)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.