Crítica | O Massacre da Serra Elétrica: O Início

estrelas 3

Um filme feito para os fãs. E claro, para os produtores faturarem horrores na bilheteria. Depois da realização da refilmagem de 2003, um filme esteticamente interessante e ágil enquanto narrativa, o público ficou à espera de mais uma produção. Continuar a história não era o foco dos envolvidos, mas alguém teve a ideia de reconstituir as origens de Leatherface e da sua monstruosa família. Assim, surgiu O Massacre da Serra Elétrica – O Início, um filme pesado, violento, barulhento e atordoante.

Como Monty perdeu as pernas? Como o xerife perdeu os dentes? Como Leatherface nasceu? Estas e outras perguntas foram programadas para serem respondidas, juntamente com litros de sangue, gritos em excesso e mortes brutalmente gráficas. Visceral como outros “colegas de gênero” de sua época (Jogos Mortais e O Albergue), as origens de Leatherface, aqui, interpretado pelo fisiculturista Andrew Bryniarski, foi obrigada a cortar 17 cenas para ganhar a classificação R do MPAA. No Brasil, a produção sequer foi aos cinemas, sendo lançada diretamente em DVD.

Com roteiro de Sheldon Turner, a trama recria várias cenas dos filmes anteriores para nos mostrar um grupo de jovens que atravessa o estado do Texas em 1969, rumo ao cadastramento seguido de viagem para combate no Vietnã, guerra conhecida como uma das maiores feridas da história dos Estados Unidos. Depois de uma parada num estabelecimento local, são perseguidos por uma ladra numa moto, acabam envolvidos num acidente e ao chamar a atenção do terrível xerife Hoyt, adentram nos piores de seus pesadelos.

O cineasta Liebesman, responsável pelo péssimo No Cair da Noite, consegue entregar um trabalho melhor, pois se há algo que de bom para destacar, não podemos deixar de apontar as cenas de tensão. O suspense é calculado milimetricamente durante o filme, somado aos elementos da direção de fotografia, design de produção e sonoplastia, esta última, item básico para o filme alcançar os efeitos desejados: asco e pavor.

Cabe ressaltar que os reclamantes do roteiro precisam dar o ponto merecido para a ótima contextualização histórica, mesmo que os personagens não sejam bons “arautos” da época em que vivem. O canibalismo superficialmente apresentado nos filmes anteriores ganhou maiores contornos nesta versão e a verossímil explicação para a “retirada do local da rota” (o fechamento do matadouro, maior empreendimento econômico da região) e do “mapa”, relegando-o ao esquecimento, graças a autuação do Departamento de Saúde do Texas explica muita coisa.

O problema é que para alguns, explicações demais tendem a estragar coisas que poderiam ficar subentendidas. Em O Massacre da Serra Elétrica – O Início tudo é milimetricamente explicado, numa espécie de justificativa do subtítulo “The Beginning”.  Com um final pouco convencional para o gênero, o filme não é ruim como parece ser. É sujo e sangrento, mas possui uma boa estrutura enquanto narrativa. Os personagens são frágeis, mas nada que já não tenha sido visto em outros filmes do gênero, inferiores a este, por sinal. Marcus Nispel e Scott Kosar criaram um estilo com a refilmagem de 2003 e esta versão parece uma refilmagem da refilmagem. Digamos que Jordana Brewster seja a Jessica Biel da vez e as cenas de perseguição se repitam, tal como o epílogo no matadouro, quase idêntico em ambas as produções.  Se você não for destes que se incomodam com tais detalhes, a sua relação com o filme será de pura tensão.

Lembro que na época do lançamento de O Massacre da Serra Elétrica – O Início nas videolocadoras do Brasil, muitos críticos profissionais escreveram em seus textos que a produção era descartável e que o espectador não deveria gastar o seu dinheiro ou tempo, etc. Outro apontava que o filme serve apenas para os fãs de terror, haja vista que este público não tem muita sensibilidade estética. Um grande “oi” se estabeleceu diante de mim, juntamente com uma linha extensa de interrogações. Desde quando uma crítica é um guia de consumo?

O Massacre da Serra Elétrica – O Início é um filme repleto de problemas narrativos, a sua abordagem estética tem alguns exageros, mas a produção tem o seu valor enquanto arte e não cabe a crítico nenhum dizer que ela deva ou não ser assistida. Nosso papel é mediar, obra e público, não classifica-las numa peneira presunçosa, como se o espectador não fosse capaz de fazer as suas escolhas. Dito isso, farei o percurso contrário, caro leitor: se ainda não viu, assista. Tire as suas próprias conclusões.

Se você curte o gênero, vale o investimento. Só não indico mesmo para pessoas com estômago fraco ou que se impressionam demais, isto, no entanto, é apenas uma ressalva, pois estas pessoas sequer poderão ficar com os olhos vendados, afinal, em muitos trechos do filme, a violência se alastra pela sonoplastia, haja vista as cenas que envolvem ossos quebrados, facadas, perfurações e retalhamentos com a motosserra de um dos psicopatas mais icônicos da história dos filmes de horror.

O Massacre da Serra Elétrica: O Início (The Texas Chainsaw Massacre: The Beginning) — Estados Unidos, 2006
Direção: Jonathan Liebesman
Roteiro: David J. Schow, Sheldon Turner
Elenco: Diora Baird, Jordana Brewster, Matthew Bomer, R. Lee Ermey, Taylor Handley
Duração: 91 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.