Crítica | O Matador (2017)

Primeiro longa brasileiro de ficção produzido pelo Netflix, O Matador circulou por festivais ao longo de 2017 antes de debutar na plataforma de streaming, tentando reviver o faroeste sertanejo, ou o nordestern, como o gênero carinhosamente chegou a ser chamado em sua época áurea que teve O Cangaceiro, de Vitor Lima Barreto, como um de seus representantes máximos. Mas a obra, escrita e dirigida por Marcelo Galvão, responsável por Colegas e A Despedida, oscila entre o tom tarantinesco que tenta emular e a novela global que acaba se transformando em algumas partes, em um resultado esforçado, mas, em última análise, falho.

A promessa de um faroeste com cangaceiros parte de uma narração que lembra a estrutura de As Mil e Uma Noites: como Sherazade, um homem (Allan Lima) tem que contar uma história para dois bandidos para salvar a sua vida e a de seus dois filhos pequenos. Usando essa narrativa como enquadramento e também como instrumento para criar uma narração em off constante, além de um mistério sobre a identidade do contador de histórias, aprendemos sobre a biografia de Cabeleira (o português Diogo Morgado, pois deve haver falta de atores brasileiros para viver um brasileiro em uma produção brasileira…) desde que é adotado por Sete Orelhas, um cangaceiro que o salva quando bebê e ensina a ser quem é, até sua transformação no maior pistoleiro de Pernambuco.

Com os primeiros 10 ou 15 minutos contando com uma montagem não linear para estabelecer o mistério e prender a atenção do espectador, a narrativa foca no começo da vida de Cabeleira, antes mesmo de ter esse nome, até que Sete Orelhas desaparece, colocando-o em movimento hesitante em direção ao seu destino. De certa forma, acompanhamos uma versão interessante da Jornada do Herói enquanto a fita, em seu terço inicial, permanece seguindo Cabeleira. No entanto, a eficiente montagem inicial de Jon Kadocsa não demora a abrir espaço para uma narrativa episódica, fruto de um roteiro de Galvão que não para de introduzir novos personagens com o objetivo de amarrar tudo ao final.

Ainda que ele consiga seu objetivo – não deixar pontas soltas – o caminho até a convergência das histórias dos diversos personagens que passam a popular o filme parece uma estrada cheia de quebra-molas, com o espectador sentindo muito claramente cada solavanco. Personagens como Quatro Olhos (Marat Descartes) e seu núcleo formado por Renata (Thaila Ayala), Fernanda (Daniela Galli) e Doidinho (Aldemir José de Freitas “Mimi”) são mal construídos, depois de uma introdução mal planejada e brusca. O mesmo vale para o vingativo Tenente Sobral (Paulo Gorgulho) e até mesmo para o alegórico vilão jamesbondiano Monsieur Blanchard (o francês Etiene Chicot).

Com isso, a grande verdade é que não nos importamos muito com nenhum deles além do próprio Cabeleira que, porém, é extraído da história por um bom tempo para estabelecer uma elipse temporal que, infelizmente, não convence de forma alguma e que só existe para permitir aquele momento “arrá” que é sonolento de tão óbvio. Sem Cabeleira, a decupagem de Galvão permite uma barriga no filme, mesmo considerando que o longa tem duração modesta de pouco mais de 90 minutos.

No entanto, a direção de arte de Zenor Ribas merece comenda pelo cuidado na criação de cenários internos, especialmente as casas da população local e a mansão de Blanchard. Cada detalhe é vívido e ajuda a ancorar a narrativa fabulesca a uma realidade relacionável, considerando a época em que se passa a história, entre 1910 e 1950. Os figurinos de David Loreti caminham na mesma direção e convencem desde os trapos de Cabeleira ao deixar a casa onde viveu anos com Sete Orelhas, passando pela opulência brega do francês, até Cabeleira já fardado com pistoleiro e o estilo cowboy de Gringo (Will Roberts), o “matador de matadores”. O que não funciona é quando a computação gráfica é usada para complementar ambientes ou para materializar um trem, já que o resultado é gritantemente artificial. Pelo menos o CGI é usado de forma bem econômica aqui e ali.

A direção de fotografia de Fabricio Tadeu é, assim como a direção de Galvão, bastante oscilante. Enquanto suas tomadas exteriores em plano geral capturam bem a imensidão, solidão e beleza espartana do sertão nordestino, por diversas vezes lembrando filmes de Sergio Leone (que, aliás, foram homenageados em vários momentos, notadamente nas cenas da mosca no copo e da tentativa de assassinato na banheira) suas sequências interiores ganham um desagradável tom novelesco que quebra a imersão do espectador. É quase como ver dois filmes diferentes, um majestoso que se passa ao ar livre e outro mais canhestro que se passa nos diversos interiores. E não ajuda quando Tadeu se aventura com a câmera subjetiva, empregando movimentação que parece natural, mas que só dificulta a compreensão fluida de algumas cenas, especialmente a da fuga de Fernanda.

Mas O Matador tem a grande vantagem de tentar suprir um vazio em produções nacionais, algo tão bem explorado em outras décadas. Mesmo sendo um filme problemático, ele aguça a curiosidade do espectador pelo potencial que obras desse naipe podem ter. Tomara que venham outros faroestes brasileiros por aí.

O Matador (Brasil, 10 de novembro de 2017)
Direção: Marcelo Galvão
Roteiro: Marcelo Galvão
Elenco: Diogo Morgado, Etienne Chicot, Maria de Medeiros, Deto Montenegro, Jonas Antônio Leite, Paulo Gorgulho, Will Roberts, Allan Lima, Igor Galvão, Eduardo Galvão, Thaila Ayala, Marat Descartes, Thais Cabral, Sergio Bezerra, Julio Silvério, Daniela Galli, Edinho Santos, Igor Cotrim, Ana Carolina Godoy, Vitor Giudici, Aldemir José de Freitas “Mimi”
Duração: 99 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.