Crítica | O Mau Exemplo de Cameron Post

“Não sei o que responder.”

Os questionamentos intra-pessoais permeiam as nossas adolescências. Quando eu comecei a me sentir assim? Por que eu comecei a me sentir assim? A juventude da estudante Cameron (Chloë Grace Moretz) não seria diferente, especialmente complicada pela sua inserção no cenário extremamente preconceituoso do século passado – ainda mais que o atual -, em vista da atração da garota por pessoas do mesmo sexo que ela, uma das muitas características de sua identidade única. A sexualidade, porém, é inexorável às descobertas da adolescência. A garota acaba sendo diminuída por determinadas pessoas, especialmente as mais religiosas, as mesmas que, no final das contas, devem acabar considerando a adolescência um pecado a ser repreendido por si mesmo. Quando uma parente da protagonista descobre seu caso com uma amiga de escola, acaba colocando-a em uma instituição cristã, destinada à “recuperação” dessa “espécie” de pessoa. Uma “cura gay”, por assim dizer, possibilidade de qualificação do processo que Cameron passa a enfrentar – outras inúmeras pessoas a acompanha nessa árdua trajetória. O Mau Exemplo de Cameron Post renega o didatismo sobre a homossexualidade, perseguindo um mundo de não-respostas muito mais libertador, querendo conversar justamente com o outro lado da moeda – os que observam o pecado nesses casos.

O jeito afeminado. O cabelo nos olhos. Os esportes praticados. O que define o ser humano como completamente aleatório identitariamente torna-se, de acordo com as noções equivocadas dos responsáveis pelo funcionamento do God’s Promise, exatamente o que deveria ser mais odiado por eles, como se uma construção de personalidade fosse uma escada de causas negativas e consequências negativas. Justamente para os religiosos, não tem nada no ser humano que possa ser causa primeira – por exemplo, a sexualidade de uma pessoa? “Deus não comete erros, homens cometem”, comenta uma das personagens, nessa busca insaciável pela comprovação de ideias completamente falidas. A histeria por uma definição do que é certo e do que é errado acaba se voltando contra os estudantes da instituição, pessoas sendo obrigadas a rejeitar uma parte delas mesmas, uma parte que não machucaria ninguém, a não ser os costumes patéticos de pessoas patéticas que se veem na obrigação de criticar qualquer coisa que questione o quão patéticos são certos purismos. Como aponta uma das personagens, a adolescência é sobre sentir nojo de si mesmo, não é mesmo? Já a protagonista sentir ódio de si mesma é uma coisa completamente diferente. Ao impossibilitar uma visão aprisionada da homossexualidade, a permissividade, a tolerância, torna-se a única resposta.

“Como confiar em pessoas que nos ensinam a nos odiar”? Os antagonistas são personagens ingênuos, desconhecendo o perigo atrelado as suas atitudes, mas também personagens consideravelmente cruéis, como é o caso da diretora do God’s Promise, uma espécie de Enfermeira Ratched, do icônico Um Estranho no Ninho. O Mau Exemplo de Cameron Post, nessa rivalidade entre o que são boas maneiras e o que não são boas maneiras, certeiramente acerta no ridículo da questão, sobre pessoas que, na realidade, estão perdidas sobre o que fazer com essas crianças, encaminhando-as a pensamentos ainda mais trágicos, que resultarão em acontecimentos possivelmente irreversíveis. O descontrole é perceptível e o cerne explorado por Desiree Akhavan é justamente o do desfuncionamento da instituição, que recebe uma atenção em especial, em detrimento da exploração individual dos personagens. Uma atmosfera é criada, enxergando-se, pelo roteiro, um ótimo sentimento de resistência, seja uma resistência interna, seja uma resistência externa. Os coadjuvantes, ainda mais aqueles teoricamente relevantes, são pontuados brevemente em um segmento revelando pedaços de passados – John Gallagher Jr. é o grande destaque. O que sobra são os ótimos diálogos, imergindo o público em interesse, e personalidades particulares a cada um desses seres únicos.

A redescoberta da sexualidade é uma questão importante dentro do contexto dessa instituição religiosa, buscando a repressão de certas características dos adolescentes, que, na verdade, são impossíveis de serem suprimidas sem o ocasionamento de consequências assombrosas. O Mau Exemplo de Cameron Post não é uma obra receosa em colocar duas garotas se beijando, logo em seus primeiros minutos, incorporando uma malícia inerente à idade na cena, porém, interessantemente, não continua a abordar o sexo da mesma maneira, após a entrada da garota no God’s Promise. A estrada percorrida pela protagonista passa a ser de retorno ao seu verdadeiro interesse romântico – as garotas -, até mesmo passando por uma possibilidade de auto-enxergar-se como bissexual, através de sonhos, usados muito bem pela cineasta como uma amostra da essência, não uma redundância da máscara puritana que buscam associar à juventude. O Mau Exemplo, nessa sua vertente menos responsiva, acaba sendo passível de um entendimento de incompletude – o clímax inexistente -, entretanto, trata-se de uma produção verdadeiramente libertadora, que também garante os melhores momentos da carreira artística de Chloe Grace Moretz, absorvendo o excepcional exemplo de resistência que sua personagem, um símbolo de péssimas maneiras para uma dama tradicional, carrega.

O Mau Exemplo de Cameron Post (The Miseducation of Cameron Post) – EUA/Reino Unido, 2018
Direção: Desiree Akhavan
Roteiro: Emily M. Danforth, Desiree Akhavan, Cecilia Frugiuele
Elenco: Chloë Grace Moretz, John Gallagher Jr., Sasha Lane, Forrest Goodluck, Jennifer Ehle, Quinn Shephard, Marin Ireland, Owen Campbell, Kerry Butler, Emily Skeggs, Melanie Ehrlich, Christopher Dylan White, Isaac Jin Solstein, Dalton Harrod, McCabe Slye, Steven Hauck

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.