Crítica | O Médico Alemão

estrelas 3,5

O Médico Alemão é o terceiro longa-metragem da cineasta argentina Lucía Puenzo, cuja estreia no cinema em 2007, com XXY, já denotava um interessante olhar sobre o corpo, as condições físicas, emotivas, de gênero e genéticas dos indivíduos, algo que também podemos ver presente de alguma forma em O Menino Peixe (2009) e agora nesse drama histórico sobre o famoso médico alemão Josef Mengele, o chamado “anjo da morte”.

Para um espectador que não saiba o que está vendo, o início de O Médico Alemão pode parecer um thriller qualquer, uma boa adaptação do cenário argentino dos anos 60 com um curioso personagem alemão, cuja personalidade e identidade vão se revelando aos poucos, num ritmo que acompanha perfeitamente o andamento dramático da família com a qual ele se relaciona. Aos poucos, indicações visuais e verbais de uma proximidade nazista com o tal médico aparecem na tela e o enredo se torna cada vez mais intricado e interessante.

Lucía Puenzo faz uma crônica história com caráter biográfico e fictício ao mesmo tempo. Ela não se preocupa em escancarar a identidade do médico como uma espécie de condenação prévia, num tipo de maniqueísmo que normalmente estraga os filmes com caráter político ou histórico porque tomam o espectador por estúpido e teima em lhe vender como verdadeira uma versão de qualquer fato. Em O Médico Alemão, a cineasta nos poupa desse sintoma e centra-se na permanência de Mengele na Argentina por um tempo, focando a sua forma cuidadosa de fazer experimentos e ao mesmo tempo deixando transparecer a sombra do monstro que havia nele.

Ao passo que o filme avança vemos acontecimentos históricos de peso como a captura de Adolf Otto Eichmann na Argentina pelos agendas da Mossad e o cerco cada vez mais forte em torno dos remanescentes do III Reich na América do Sul.

Através de um escurecimento constante da fotografia (conectado de forma muito bonita pela chegada do inverno), um peso maior da trilha sonora na reta final do filme, uma edição cada vez mais rápida — sem desviar-se de um ritmo aceitável em relação ao todo da obra — e um número cada vez maior de sequências de suspense, Lucía Puezo consegue segurar o público sem grandes problemas, mantendo alto o nível de interesse mesmo quando o mistério da identidade nos é entregue.

O que talvez destoe ou se apresente menos impactante no decorrer da obra é a relação entre o médico (que no filme usa o nome falso de Helmut, o mesmo que Mengele usara quando de sua estadia na Argentina) e a garota Lilith “Wakolda”, muito por conta das atitudes pouco tragáveis da garota em determinados momentos da fita e pelo andamento relativamente forçado na relação entre os dois, especialmente a partir do início do tratamento hormonal.

Dirigido com bastante cuidado e escrito o menos livre de manipulações ideológicas possível, O Médico Alemão nos mostra uma faísca da História do século vinte na pessoa de um médico cujas ações criminosas e sadistas (para dizer o mínimo) em nome de uma suposta ciência, mataram ou traumatizaram centenas de milhares de pessoas. Como se vê, não é um tema fácil de abordar em um filme de 1h30, mas é algo que Lucía Puenzo faz de maneira muito interessante. Ao final, um ponto de interrogação histórico nos é lançado. A partir daí, a responsabilidade de tudo o que foi visto fica a cargo do espectador, muito mais do que em qualquer outro filme.

O Médico Alemão (Wakolda) – Argentina, Espanha, Noruega, França, 2013
Direção: Lucía Puenzo
Roteiro: Lucía Puenzo
Elenco: Natalia Oreiro, Àlex Brendemühl, Diego Peretti, Elena Roger, Florencia Bado, Guillermo Pfening, Alan Daicz, Ana Pauls, Abril Braunstein, Juan I. Martínez
Duração: 93 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.