Crítica | O Medo Consome a Alma

estrelas 4,5

A felicidade nem sempre é divertida.

Fassbinder
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Também conhecido como O Medo Devora a Alma, este poderoso longa de Fassbinder presta uma direta homenagem a Tudo o Que o Céu Permite (Sirk, 1955) e aborda questões complexamente enraizadas na história do Ocidente europeu como o trato ao indivíduo estrangeiro (especialmente árabes e negros), problematizando o racismo e a xenofobia do povo alemão bem como a convivência humana, a maldade e o utilitarismo social.

Vencedor de dois prêmios no Festival de Cannes (do Júri e Ecumênico) e indicado à Palma de Ouro, O Medo Consome a Alma é (pasme!) uma história de amor. Emmi (Brigitte Mira em uma delicada e tocante atuação) e Ali (El Hedi ben Salem em um personagem difícil — por ter muitas facetas — e maravilhosamente interpretado) são duas pessoas solitárias em Munique que se conhecem por acaso e, para surpresa deles mesmos, acabam se apaixonando. Ele é um mecânico marroquino que se resignou a ser “tratado como lixo” pelo patrão. Ela é uma viúva que trabalha de faxineira e foi praticamente esquecida pelos filhos. Cruzadas, essas duas realidades irão gerar uma terceira ainda mais cruel e doce, como qualquer amor-tabu em qualquer momento da história.

A origem O Medo Consome a Alma data de 1970, cuja história central foi colocada no roteiro de O Soldado Americano (ela é narrada pela personagem de Margarethe von Trotta) e posteriormente lapidada e modificada para compor a realidade desse longa. Os quatro anos que separam um filme do outro fizeram o diretor adicionar doses de esperança e, ao mesmo tempo, de tragédia melodramática, ingredientes que fizeram o roteiro tratar com igual importância as questões do coração e as questões político-sociais referentes ao preconceito, às lembranças de um passado onde a ideologia “atual” teve origem (Hitler é citado com certa admiração pela personagem principal, mas dentro de uma perspectiva alienada) e a filosófica questão sobre a felicidade humana, vista sob amplos aspectos : é possível ser feliz? A felicidade sempre traz o seu oposto no rastro e, em pouco tempo, se ausenta para dar lugar ao outro sentimento? O que é a felicidade?

Essas questões são incitadas pelo texto de Fassbinder, mas jamais são respondidas. E nem deveriam. Há um conjunto de sentimentos na relação entre Emmi e Ali que fazem o espectador refletir, inclusive moralmente, sobre as ações de cada um deles ao longo da projeção. E esse é um dos maiores acertos do diretor. Ele faz os personagens evoluírem quase imperceptivelmente, sem grandes explosões sentimentais, gritos e agressões físicas. Se considerarmos os outros dois longas em que o cineasta traz exatamente o mesmo tema, mas com outras abordagens — O Machão (1969) e O Desespero de Veronika Voss (1982) — veremos que O Medo Consome a Alma é extremamente simples em sua concepção geral e sentimental e esperançoso em relação ao seu objeto de discussão.

Brutal, de certa forma profético e dirigido com uma precisão quase irritante — a composição dos quadros são como pequenos palcos para cada “ato” do longa, com destaque para o apartamento de Emmi e o bar Asphalt –, O Medo Consome a Alma é um notável filme sobre a humanidade e os sentimentos humanos dentro de uma comunidade e sob influências históricas sobre as quais não tem controle. Seu enredo é cada vez mais atual e seu final, um dos mais tocantes da história do cinema. Fassbinder realiza aqui uma obra-prima simples e ao mesmo tempo poderosa e atemporal. Uma película difícil de ser esquecida.

O Medo Consome a Alma (Angst essen Seele auf) – Alemanha Ocidental, 1974
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder
Elenco: Brigitte Mira, El Hedi ben Salem, Irm Hermann, Elma Karlowa, Anita Bucher, Gusti Kreissl, Doris Mattes, Margit Symo, Katharina Herberg, Lilo Pempeit
Duração: 94 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.