Crítica | O Medo em Si

estrelas 2,5

Charlie Lyne, jovem diretor nascido em 1991, nos traz mais um documentário formado basicamente de imagens de arquivo de outros famosos filmes. A temática agora abordada em O Medo em Si, é o terror e o que gera o medo em cada uma dessas obras. Em uma viagem sensorial, repleta de famosas cenas que marcaram o gênero ao longo dos anos, aprendemos mais sobre nossa própria absorção de uma obra audiovisual e o que torna o horror algo tão instigante, atraindo as massas desde os primórdios do cinema. O documentário, contudo, não é ausente de falhas e, em virtude dessas, pode se provar algo difícil de ser assistido.

Com uma narração em off realizada por Amy E. Watson somos guiados por essa jornada pelo terror. Lyne, através dessa personagem oculta, constrói a história de uma garota que assiste filmes do gênero incessantemente, oferecendo pinceladas de uma trama por traz da narração de pouco em pouco. O foco, porém, se mantém no que nos é apresentado. De Nosferatu, passando por Psicose até obras mais recentes, como A Hora do Pesadelo, vemos diversos momentos que marcaram a história do cinema de horror e não podemos deixar de remeter às nossas próprias sensações de quando vimos tais obras pela primeira vez.

É interessante que o diretor escolheu não trazer as cenas mais icônicas propriamente ditas de cada filme, ele nos oferece minutos ou até segundos antes daquilo que mais se tornara famoso em cada longa-metragem. É criada uma sensação de antecipação que, de fato, nunca se concretiza, deixando o espectador em um constante suspense. É claro que a obra pede que tenhamos assistido muitos dos filmes que retrata para um maior aproveitamento dela, mas são produções tão clássicas as retratadas que, dificilmente, não teremos visto sequer uma delas, tornando o foco desse documentário algo bastante universal.

Lyne, porém, acaba errando na narração que permeia toda a projeção. A voz de Watson não traz o tom dramático necessário para que, de fato, prestemos atenção nela e muitas vezes acabamos esquecendo de sua presença, prestando atenção somente na imagem, como se todo o resto fosse apenas ruído. Quando isso ocorre perdemos a linha de raciocínio da garota completamente, visto que o texto é ditado como se fosse um pensamento que ela está tendo na hora e, como em um diálogo na realidade, ele acaba alterando seu foco de tempos em tempos, como se outro elemento captasse sua atenção de repente.

Felizmente, enquanto a entonação da atriz não soa tão correta quanto deveria, a trilha original de Jeremy Warmsley representa um forte acerto, definindo a atmosfera de forma precisa. Ela não consegue se sobressair a essa voz, mas definitivamente melhora nossa percepção do longa como um todo, que, caso não estivesse ali, se tornaria uma experiência extremamente enfadonha e entediante, que não faria jus aos filmes que busca abordar.

O Medo em Si, no fim, acaba se configurando como uma mistura de erros e acertos, que não é capaz de prender o espectador de forma tão imersiva quanto o material que estuda em seus oitenta e oito minutos de projeção. Fosse realizado um melhor trabalho de narração, certamente teríamos uma obra engajante, capaz de oferecer interessantes conceitos sobre o cinema de terror. Infelizmente, contudo, ficamos perdidos em uma tentativa de misturar o documental com a ficção e o objetivo almejado não chega a ser alcançado em nenhum dos lados.

O Medo em Si (Fear Itself) – Reino Unido, 2015
Direção:
Charlie Lyne
Roteiro: Charlie Lyne
Com: Amy E. Watson
Duração: 88 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.