Crítica | O Melhor Lance

estrelas 5,0

Um leiloeiro desonesto. A trama toda gira em torno da falsidade. Na arte nem os melhores falsificadores resistem à tentação de deixar um traço pessoal, o que entrega a autoria deles. A vida copia a arte nessa trama muito bem trabalhada e desenvolvida para instigar o espectador a espiar os movimentos resolutos do martelo de um leiloeiro, som que assegura que o lote foi arrematado pelo comprador.

A capacidade de articular uma trama de suspense em torno da performance de um homem – Virgil Oldman, interpretado por Geoffrey Rush –  que incorpora a figura central em um ritual altamente estruturado, em que cada comprador acaba exibindo características claras da personalidade, demonstra uma habilidade de roteiro cativante. Os atores conseguem envolver o espectador como se cada cena fosse um novo lance até que possa ouvir o martelo marcar o maior lance.

A personagem do leiloeiro se baseia em parte por alguns símbolos de fetichismo, tais como a coleção de luvas e os retratos de mulheres. O que pode muito bem ser interpretado como uma maneira de se manter protegido contra o toque real de uma mulher. Nesse sentido, o temor é também veículo de excitação e torna-se também a razão da aproximação entre este homem, recluso e discreto, com uma mulher que sofre de agorafobia – medo de estar em espaços abertos – Claire Ibbetson.

Conforme a trama se desenvolve, o filme vai se interiorizando. A necessidade de permanecer no âmago dos acontecimentos traduz o discurso alinhado entre o que está exposto para os olhos verem e o que o espectador tem que distinguir como a linguagem do falsificador. Ou seja, o leilão se expande para todas as cenas do filme, que se torna palco de intrigas, especulação e demonstração de poder e persuasão.

O que nos leva a questão do nome do filme. O melhor lance funciona como um código para alertar um comprador sobre o fato de que chegou a hora de comprar o item do lote ofertado. O silêncio intensifica a tensão no salão do leilão a cada novo lance. Os menores movimentos e gestos são notados, uma linguagem particular de cada comprador. O ritmo adotado por Virgil em suas performances é acelerado, o que encoraja os lances e encadeia as reações esperadas como se ensaiasse uma peça teatral devidamente arquitetada, com um resultado premeditado.

São detalhes que vão ajudando o espectador a querer participar do percurso de Virgil entre as obras de arte e a mulher misteriosa, que se esconde atrás de uma parede falsa de uma casa antiga e cheia de itens valiosos e sedutores. Virgil é acima de tudo um consultor de arte, e um adorador. Isso justifica a desonestidade dele. E nele fica gravada a máxima de que há sempre algo autêntico escondido em cada falsificação.

O Melhor Lance (La Migliore Offerta, Itália – 2013)
Diretor: Giuseppe Tornatore
Roteiro: Giuseppe Tornatore
Elenco: Geoffrey Rush, Jim Sturgess, Sylvia Hoeks, Donald Sutherland, Philip Jackson, Dermont Crowley, Liya Kebede
Duração: 131 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.