Crítica | O Menino e o Mundo

estrelas 4

É possível fazer cinema competitivo com um orçamento centenas de vezes menor que o dos grandes estúdios? O último filme do animador e diretor brasileiro Alê Abreu – O Menino e o Mundo – dá uma resposta bastante clara a essa pergunta. Mais do que os tantos prêmios que conquistou mundo afora e do fato de ter figurado entre os cinco prestigiados indicados ao Oscar de Melhor Animação em 2016, a animação de Abreu é a vitória das boas ideias sobre a sobeja de recursos. Para sermos bem claros quanto aos números, enquanto Divertida Mente teve a seu dispor um orçamento de 150 milhões de dólares, O Menino e O Mundo, que concorreu contra ele na almejada categoria, não teve nada além da bagatela de 500 mil dólares. Simplesmente 300 vezes menos. Ainda mais curioso é o fato de o filme ter ganhado visibilidade tanto no circuito artístico (o que é natural) como também aos olhos da grande indústria.

A história do menino que se separou do pai, quando este deixou a vida no campo para conseguir um emprego melhor na cidade grande, não é exatamente um enredo original. Alê Abreu escolhe um tema bastante caro ao cinema e à literatura brasileiros, mas a roupagem que ele dá a O Menino e O Mundo é certamente de uma inventividade incomum. Seus traços minimalistas, feitos a giz e lápis de cor multicoloridos e preenchendo um fundo branco, dão um caráter completamente artesanal à animação. Sente-se a presença do desenhista a todo momento, em oposição à estética industrializada que nos acostumamos a ver por tantos anos nas animações norte-americanas, sobretudo. Não digo, com isso, que os grandes estúdios de animação não produzam nada de interessante. Divertida Mente é um bom exemplo, é claro. Mas em O Menino e O Mundo, estamos diante de outra concepção. Outra linguagem.

O filme de Alê Abreu é um ponto fora da curva tanto dentro do cinema de animação em geral, como dentro do próprio cinema nacional, habituado a não economizar na mão pesada na hora de tratar de temas de cunho social. Em O Menino e o Mundo, tudo é leve e sinestésico. As cores explodem em um caleidoscópio em movimento nas passagens mais alegres e musicais, inseridas como um breve carnaval em meio à realidade triste e dolorida do menino saudoso do pai. A trilha sonora e todos os efeitos sonoros merecem também um enorme destaque, já que contribuem para todo o espetáculo sensorial que constitui o filme. As participações do grupo Barbatuques e do grande percussionista brasileiro Naná Vasconcelos não poderiam deixar de ser mencionadas aqui. A faixa Aos Olhos de Uma Criança, composta pelo rapper Emicida, é surpreendentemente interessante, trazendo ainda ecos da excelente Airgela.

A obra parece, na verdade, um grande presente que Alê Abreu deu a si mesmo como artista. O animador não impõe nenhuma barreira para sua liberdade de criar e experimentar. Com sua técnica simples e ao mesmo tempo sofisticada, Abreu conseguiu criar passagens em que o real e o mágico se misturam sem grandes preocupações, como em uma autêntica brincadeira de criança. A terra converte-se em mar quando o menino e seu cãozinho enfrentam uma perigosa enchente. Mais à frente, ele voará livremente sobre uma nuvem de algodão ao chegar à cidade grande, em busca do pai. A música, que desempenha um papel fundamental na obra, também não escapa à criatividade do brasileiro. As notas musicais surgem como bolinhas coloridas que flutuam delicadamente no ar. Uma grande fênix surge nesses momentos, completando a grande celebração de vida e esperança, que renasce a todo instante.

Toda a animação funciona muitíssimo bem. Irretocável e cativante até para aqueles que não gostam do gênero. A tônica de O Menino e o Mundo é, sem sombra de dúvidas, a metáfora e a sugestão, dando uma margem suficientemente larga para a liberdade interpretativa. É exatamente por isso que me incomoda tanto uma única passagem em que a animação é deixada de lado, substituída por imagens reais, em que se mostra o desmatamento e a natureza sendo destruída pelo fogo e por imensas chaminés. A opção de Alê Abreu por inserir esse trecho é incompreensivelmente explícita e de um didatismo muito desnecessário. Além de nada acrescentar ao que já fora mostrado, o trecho é um grande anacoluto dentro da obra, completamente fora de seu tom. Felizmente, ainda havia tempo para a obra se recuperar. Seu final é extraordinariamente belo e criativo. Os traçados vão se minimizando até chegar à forma geométrica fundamental – o ponto, tal como cortinas que se fecham pouco a pouco ao final do espetáculo.

Miséria, desigualdade social, desemprego e mecanização do trabalho. O Menino e o Mundo é uma animação que traz todos esses temas em seu bojo, mas que trata, acima de qualquer coisa, das tantas marcas que carregamos secretamente até o fim de nossa breve existência. As lembranças do menino, guardadas por toda a vida, cresceram tal como a árvore de seu quintal e frutificaram como a saudade doída que nunca mais o abandonaria.

O Menino e O Mundo – Brasil, 2013
Direção: Alê Abreu
Roteiro: Alê Abreu
Elenco: Vinícius Garcia, Alê Abreu, Alfredo Rolo, Cassius Romero, Felipe Zilse, Lu Horta, Marco Aurélio Campos, Melissa Garcia, Nestor Chiesse, Patrícia Pichamone
Duração: 79 min.

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.