Crítica | O Menino e seu Cachorro

estrelas 2

A mistura de fetiches estranhos, cinefilia rala e análises amparadas pelo politicamente correto fez de O Menino e seu Cachorro (1975) uma espécie de cult tardio, especialmente quando se põe na mesa a sua inspiração para a criação de Mad Max (1979), com quem tem, ao menos na ambientação de uma Terra pós-apocalíptica, muitas semelhanças, embora em proporções e intenções diferentes.

Baseado na obra de Harlan Ellison, o filme nos mostra um planeta Terra devastada pela guerra nuclear, a IV Guerra Mundial. É o ano de 2024 e o garoto do título, Vic (Don Johnson, em uma competente atuação), percorre a Terra arrasada ao lado de seu cachorro Blood (voz de Tim McIntire), com quem tem contato telepático, sabe-se lá por quê. Com o avanço da história, percebemos que existem dois mundos, um na superfície e outro no subterrâneo, este último, um lugar de preservação da cultura estadunidense entre os anos 40 e 50, e onde as coisas são tão assustadoras quanto a barbárie encontrada no deserto logo acima.

Como os elementos básicos do longa são a comédia absurda com toques de humor negro, algumas realidades sociais vistas de forma ácida e dramas clichês na linha do “viveram felizes para sempre” e “boy meets girl“, é necessário que o espectador desligue um pouco o cérebro e aceite o absurdo. Porque o roteiro não se preocupa em elencar valores morais para ninguém, do cachorro à mocinha aparentemente inocente. O jovem Vic dá vários indícios de que já estuprou mulheres antes e, na primeira parte da obra, toda a sua vida se volta para “conseguir uma garota” porque ele estava a seis semanas sem fazer sexo. Pois é.

Esse fastio sexual parece uma pétrea justificativa para o tratamento dado à mulher do início ao final do filme. Alguns espectadores receberão isso tranquilamente, porque acreditam que tal atitude serve como uma luva dentro do humor negro do filme. Outros condenarão a obra enfaticamente por adotar este tratamento, o que é um tanto exagerado, mas perfeitamente compreensível. E há os que tentarão encontrar coesão entre esse olhar que o texto de L.Q. Jones e Wayne Cruseturner (não creditado) fazem da mulher, da amizade, da sociedade, da ficção científica e os protagonistas. Deste ponto em diante, fica mais fácil observar os furos e a barrigas do roteiro.

O filme é carente de foco e se digladia para encontrar um, mas é constantemente boicotado pela covardia do protagonista (até o cachorro enxerga isso), que jamais assume a responsabilidade de alguma coisa e, quando decide fazer algo, é tarde demais. Para um longa de humor negro, O Menino e Seu Cachorro sofre do pior de todos os males: uma péssima montagem, o que, em linguagem cômica poderia ser traduzido como ‘falta de timing‘. Repare que o andamento se sustenta pela cáustica relação ente Vic e Blood que, para ser objetivo, é chata a maior parte do tempo. Quando muito, pitadas de emoção e uma pequena curiosidade pelo que acontecerá em seguida sustentam o público, mas a linha tênue entre esses mínimos espaços e o abismo nonsense (no sentido negativo da palavra) em que o filme está é rompida a cada par de minutos.

E não bastasse a má construção do protagonista, a colocação vaga de uma terra idílica “além das montanhas” que deveria ter sido o destino de Vic e Blood desde o início e a dissociação entre a primeira e a última parte do filme, temos uma mixagem de som vergonhosa (me lembrou os exatos erros no mesmo setor que encontramos em Westworld – Onde Ninguém tem Alma) com sons invasivos que fazem o longa parecer aqueles programas de TV que juram ser engraçado o uso de “efeitos sonoros circenses” à guisa de humor.

O Menino e Seu Cachorro é um filme que agrada em pequenas coisas. Se esquecermos a narrativa sem sentido que abrange toda a sociedade subterrânea, por exemplo, e focarmos apenas nas entrelinhas do que aquilo quer dizer, é até possível enxergar alfinetadas do diretor aos Estados Unidos de sua época. Isso e outras brincadeiras com hierarquia de governo, classes sociais, matrimônio e sexo, mas vejam, são apenas provocações, não críticas sociais.

O final da fita me fez rir bastante porque foi uma tremenda surpresa. Sem dúvidas, o único momento do filme em que a irreverência do humor fez sentido em todo o contexto e foi coerente com a personalidade de Vic e Blood, com direito a piadinha interna e frase de duplo sentido. O que faz de O Menino e Seu Cachorro um filme ruim — apesar de poucos bons momentos e uma direção de arte, esta sim, elogiável do início ao fim — é exatamente a falta da inteligência, coerência e sagacidade que temos de sobra na cena final.

O Menino e seu Cachorro (A Boy and His Dog) — EUA, 1975
Direção: L.Q. Jones
Roteiro: L.Q. Jones (baseado na obra de Harlan Ellison).
Elenco: Don Johnson, Susanne Benton, Jason Robards, Tim McIntire, Alvy Moore, Helene Winston, Charles McGraw, Hal Baylor, Ron Feinberg, Michael Rupert, Don Carter, Michael Hershman
Duração: 91 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.