Crítica | O Menino no Espelho

menino no espelho

estrelas 2,5

Assisti O Menino no Espelho nem bem um dia depois que vi Vestido Para Casar e, somente por esse aspecto, a adaptação do famoso romance de ficção autobiográfica de Fernando Sabino já mereceria os mais altos cumprimentos. Mas isso não significa necessariamente um elogio, pois, perto da fita estrelada por Leandro Hassum, até auto-imolação com gasolina e fósforos parece uma opção melhor.

Dito isso, no entanto, O Menino no Espelho é uma agradável obra de Guiherme Fiúza Zenha que, porém, aqueles que procuram uma adaptação fiel, devem saber logo de início que apenas a ideia principal permaneceu intacta: o duplo do espelho. De resto, o roteiro diverge e simplifica sobremaneira a obra base, o que não é algo ruim por si só, mas que pode desapontar os adoradores do romance. Mas, como uma obra cinematográfica tem que sobreviver por si só, sua comparação com o original é injusta.

Fernando (Lino Facioli) é um menino de Belo Horizonte na década de 30 vivendo uma vida de “menino moleque”, se divertindo com os amigos no clubinho secreto batizado de P.E.I.D.O., brincando com seu cachorro Capeto, arrumando confusão com o valentão da escola e se apaixonando pela prima. Seus pais são ícones da perfeição paterna (Mateus Solano faz Domingos e Regiane Alves faz Odete), apenas com a mãe ameaçando Fernando de mandá-lo para o colégio militar caso não pare com suas estripulias.

Um belo dia, sem poder sair de casa e depois de cair dormindo com Alice no País dos Espelhos aberto ao seu lado, Odinanref surge, seu doppelgänger do espelho do quarto que Fernando logo utiliza como seu bode expiatório de broncas, idas à escola e tudo mais, enquanto vive a vida de seu jeito faceiro com direito a casa na árvore e telefone de latinha e barbante. Com isso, Fernando passa a investigar uma casa mal-assombrada e a infernizar a vida do integralista membro dos Camisas Verdes Major Pape Faria (Ricardo Blat).

A atmosfera de cidade pequena é nostalgicamente remontada por meio de um delicado trabalho de design de produção, com cenários, automóveis, bicicletas e figurinos perfeitamente dentro da época, ainda que, por muitos momentos, a artificialidade impere, dando a impressão mesmo de algo novo e não de “cidade vivida”, notadamente nos interiores. Mas esses são apenas alguns breves momentos, especialmente na casa de Fernando, que não detraem do todo.

Facioli acerta o tom tanto de Fernando quanto de Odnanref e também quando Fernando “cresce” e quando Odnanref começa a ter ideias próprias. É um interessante trabalho que passa naturalidade e uma ingenuidade genuína. O mesmo vale para os demais membros do P.E.I.D.O. e para o simpático cachorrinho. Mateus Solano, por sua vez, parece hesitante em seu papel, como se estivesse tendo dificuldade para entrar no personagem, soltando frases robóticas e visivelmente escoradas em um texto que ele decorou perfeitamente, mas que não consegue aplicar coração e sentimento.

Mas o maior problema de O Menino no Espelho não está na atuação ou nos detalhes da decoração e sim em seu roteiro. Simplesmente não há uma história que progrida de maneira coerente. Sim, entendo que, por trás de tudo, exista um evidente subtexto de crescimento e amadurecimento de Fernando, algo que se torna expositivo ao extremo nos momentos finais da obra. Acontece que a trama não fecha. As investigações do clubinho de Fernando parecem algo pensado posteriormente, na mesa de montagem, com o montador descobrindo que, durante a fotografia principal, nem todas as sequências necessárias foram filmadas.

Como exemplo desse problema, ainda que a trama gire em torno da “casa mal-assombrada” no começo, depois ela é esquecida e a investigação passa a focar no desaparecimento do gato Bolinha que inexplicavelmente conta com o envolvimento do Major em um clímax perdido. Ainda que fique claro que ele é o vilão, esse momento é tão evidentemente furado que automaticamente gerará um daqueles pontos de interrogação por sobre a cabeça dos espectadores. Além disso, o contexto político – Vargas, o Estado Novo, a Ação Integralista – não tem propósito a não ser mostrar aos adultos presentes na sala de cinema que a produção não se esqueceu de fixar a obra em uma época específica da história do Brasil, como se isso fosse suficiente para dar ares importantes ao filme.

Esse é um dos raros exemplos de obra cinematográfica que se beneficiaria, e muito, de uma maior duração. Os 78 minutos da projeção são breves demais para que as ideias colocadas no roteiro germinem. E uma acaba atrapalhando a outra, impedindo até mesmo o foco nas agradáveis ações infantis de Fernando e de seus amigos. Os roteiristas tinham que ter escolhido entre fazer uma obra curta focada em Fernando ou uma obra mais longa que trabalhasse de maneira circular as narrativas paralelas. Do jeito que ficou, O Menino no Espelho é um pálido reflexo do que se tentou fazer.

Ainda que o tom nostálgico infantil do filme seja aconchegante e encante no início, o diretor se perde ao tentar abraçar o mundo, esquecendo-se do intimismo da obra original.

O Menino no Espelho (Idem, Brasil – 2014)
Direção: Guilherme Fiúza Zenha
Roteiro: Guilherme Fiúza Zenha, André Guerra (baseado em romance de Fernando Sabino)
Elenco: Lino Facioli, Mateus Solano, Regiane Alves, Ricardo Blat, Gisele Fróes, Laura Neiva, Murilo Grossi
Duração: 78 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.