Crítica | O Mestre

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estrelas 4

Quando tomei para mim a tarefa de criticar os filmes de Paul Thomas Anderson, meu colega de site, Ritter Fan, apenas me disse que gostaria de ver o que eu iria dizer sobre O Mestre, alegando que fora um dos poucos filmes que efetivamente o fizera sair da sala do cinema antes de seu término. Estamos, portanto, diante de uma das raras situações quando nossas opiniões acerca de filmes diferem. O Mestre definitivamente não é um filme fácil de ser assistido, ele conta com uma narrativa lenta e que toma como foco o emocional de seus personagens, enquanto evidencia a crítica do diretor/ roteirista a cultos e religiões que exploram a volatilidade das pessoas – algo iniciado alguns anos atrás em Sangue Negro, através da Igreja da Terceira Revelação.

Do princípio do século XX partimos para sua segunda metade. É o pós-guerra e o veterano Freddie Quell (Joaquin Phoenix) retorna para os Estados Unidos evidentemente abalado pelo que presenciara no combate. É um homem repleto de tiques nervosos, com um dos lados de seu rosto praticamente travado e uma nítida falta de desenvoltura social. Em sua busca por um novo emprego, visto que não consegue se manter em um, graças aos abalos sofridos pela sua personalidade, Quell conhece Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), também conhecido como Mestre, o líder de um estranho culto que busca resgatar as memórias de vidas passadas a fim de resolver problemas atuais do indivíduo. Prontamente Freddie se envolve com o grupo e sua vida passa a ser dependente disso.

Inspirando-se na cientologia e seu criador,  L. Ron Hubbard, Anderson procura construir três diferentes linhas narrativas que delineiam toda a projeção. A primeira é a relação entre Quell e o Mestre, e o interessante é como a necessidade entre eles aqui é mútua, como se um fosse viciado no outro. Mesmo diante dos conselhos da excêntrica família de Dodd, ele se recusa a abandonar o veterano. Dessa forma o roteiro nos mostra o quão frágil é a disposição do próprio homem que chamam de Mestre, ao ponto de que ele necessita se apoiar em outro homem e constantemente requisita dele um estranho coquetel alcoólico, transformando, portanto, Freddie em uma nítida forma de escapismo. A construção dessa relação culmina no clímax, um verdadeiro tour de force de ambos os atores, que demonstram toda a angústia presente na separação dos dois, fazendo de Phoenix e Hoffman certamente merecedores de suas indicações. A sequência apenas ganha mais impacto pela decupagem de Anderson, que utiliza o plano e o contra-plano para trazer um dinamismo maior – em uma cena onde ambos estão sentados o nervosismo é gigante no espectador -, além de evidenciar a reação, as lágrimas que ambos deixam cair.

A segunda linha narrativa, naturalmente ligada às outras duas, é a construção do culto de Lancaster, o qual é questionado inúmeras vezes ao longo da projeção. Chega a ser assustador a forma como os devotos se entregam para os ensinamentos de Dodd – o ápice sendo a personagem de Laura Dern – e o fato de qualquer questionamento o tira do sério, como Paul procura deixar claro em seu roteiro. Trata-se de uma crença onde não há espaço para diálogo, ou, evidentemente, tudo irá cair por terra. Aqui a atuação de Hoffman é essencial e mesmo diante da fragilidade de seu discurso, ele faz Dodd parecer o detentor da razão, fazendo qualquer outro personagem perder a força. É interessante como em inúmeros momentos quem soa como o protagonista é Lancaster, ao passo que o diretor sabiamente deixa Quell reduzido a um canto em determinadas sequências, não criando, portanto, uma divisão de foco ao colocar os dois atores desempenhando o mesmo papel – defender o culto.

Já a terceira principal linha que o filme segue é a dinâmica da família Dodd, que inúmeras vezes é a problemática dentro desse circuito fechado. Amy Adams, como a esposa do Mestre, nos traz certamente uma de suas melhores atuações e tira o poder de Lancaster simplesmente através de algumas perguntas. Ela é a mão manipuladora por trás do líder do culto, mas ainda assim ela precisa dele. A presença de Quell é emblemática na relação, constituindo um único ponto no qual o Mestre efetivamente demonstra sua independência – ao contrário de todos os desejos e recomendações ele deixa seu amigo ali (e essa amizade, ainda que dotada da necessidade já explorada antes no texto, é evidente para o espectador). O restante dos familiares tem funções narrativas muito bem definidas e introduzem problemáticas pontuais ao longo do desenrolar da obra, mas servem para demonstrar a volatilidade das pessoas ligadas ao culto, que mudam de opinião a cada virada de página, sendo completamente manipuladas e aqui mesmo Dodd se enquadra.

O que ouso dizer ser o único problema da obra é a sua montagem. Ao estabelecer inúmeras elipses ao longo da projeção, muitas vezes ficamos confusos de quando estamos, quanto tempo se passou, algo que efetivamente impacta a relação entre personagens. Tal problema se revela em grande peso no trecho final da obra. A intenção de Anderson é clara, nos colocar na incerta mente de seu personagem principal, mas, com isso, um filme apenas ganha um aspecto de pressa que atua contra si próprio, o que é irônico, considerando a lentidão narrativa vigente na sua maior parte.

O Mestre é, acima de tudo, uma grande advertência, de como não devemos nos deixar ser levados por promessas vindas de uma excepcional oratória. Paul Thomas Anderson, porém, mergulha mais profundamente e nos traz uma verdadeira história de amizade, contada, naturalmente, da forma mais excêntrica possível em virtude de seu problemático protagonista. Mais uma vez, não é um filme fácil de ser assistido, não é o melhor de seu diretor – posto ainda ocupado por Sangue Negro – mas certamente merece nossa atenção, nem que seja para decidirmos interromper a projeção em sua metade.

O Mestre (The Master – EUA, 2012)
Direção:
Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Joaquin Phoenix, Amy Adams, Laura Dern, Jesse Plemons
Duração: 144 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.