Crítica | O Mistério de Grace

estrelas 0,5

Em 1968, o ator e cineasta franco-polonês Roman Polanski dirigiu o seu primeiro filme nos Estados Unidos, uma das melhores obras do terror no cinema: O Bebê de Rosemary. O filme conta a história de uma gestação atribulada de um bebê gerado por Satã. A partir de então, a criança, representação do estágio inicial da vida humana, tornou-se também encarnação do medo psicológico e social, muitas vezes possuída por forças do mal.

Antes do parto-Pandora de Rosemary Woodhouse, o mais forte momento da (possível) manifestação do mal na criança está em Os Inocentes. Daí para frente, cada década produziu os seus marcos do terror com crianças e adolescentes, das quais, destaco algumas que melhor exemplificam sintomas seculares da época em que surgiram: Eraserhead (1977), O Iluminado (1980) e O Sexto Sentido (1999).

Dos anos 1960 para hoje, tanto a tecnologia cinematográfica quanto a forma de produzir um filme de terror mudaram. O formato digital e os efeitos especiais tomam conta das produções do gênero pelo mundo todo, porque facilitam (na maior parte das vezes com perda de qualidade) algumas coisas impossíveis aos esfeitos visuais, especialmente as mutilações do subgênero slasher — vide a série Jogos Mortais.

Os medos do novo século possuem grande influência na profusão das obras de horror. Nestes últimos anos, já vimos de quase tudo: nazistas zumbis mutiladores no centro da Terra; zumbi romântico; piranhas assassinas; chuva de tubarões; possessões das mais diversas formas… Vivemos em uma era de medos. Não é de se espantar que refilmagens, continuações e séries inteiras de conteúdo macabro, com violência em grau máximo, abuso sexual e moral venham cada vez mais tomando conta das grandes telas e também das telinhas. As crianças, por sua vez, tornaram-se o melhor motivo dramático para o gênero e, a partir de Os Outros (2001), são presença quase obrigatória.

Ju-On (2003) e O Orfanato (2007) sugeriram a maldade nas crianças; Halloween – O Início (2007), fixou a gênese do mal; mas foi em O Mistério de Grace (2009), que o caminho trilhado desde o parto de Rosemary chegou ao “fim”. Nesta obra que beira o trash-movie, o diretor Paul Solet corrompe a inocência de um bebê e apela para imagens chocantes criando, no mínimo, uma plateia enojada.

Grace é um milagre, uma criança vinda depois de um aborto e que nasce morta, mas revive minutos depois ao ter contato com o seio da mãe. Com o passar dos meses, a bebê passa a exalar um cheiro insuportável, atrair moscas, descontrolar o comportamento do gato de casa e rejeitar o leite materno como alimento, trocando-o por um líquido um pouco mais… vital: sangue humano.

O filme tem como mérito a construção de um ambiente-personagem actante e claustrofóbico por si só, mas a coisa fica por aí. As atuações se perdem entre o maneirismo horrendo e o exagero dramático, que vão da maquiagem aos figurinos, diálogos e trilha sonora, apenas parcialmente interessantes.

A atmosfera em que a trama se desenrola acaba por oprimir também ao espectador, o que talvez explique o episódio dos desmaios ocorridos na exibição do filme no Sundance Film Festival, quando de sua estreia especial. O uso de imagens de animais sendo sacrificados e a “decomposição” do lar da protagonista aumentam a expectativa de futuros acontecimentos tenebrosos, mas isso só acontece em relação à pequena Grace, que deixa a mãe com anemia profunda de tanto mamar seu sangue através de uma ferida que fez no seio da progenitora.

As inconstâncias fotográficas (com poucos bons momentos) e o uso inadvertido de ângulos diagonais aumentam o mal estar de quem assiste. Grace, aos poucos, se torna um filme intragável. A única coisa que segue uma linha entre boa e mediana durante todo o filme é a edição e mixagem de som, inclusive com criativos toques dialéticos.

A cena final carimba a personalidade demoníaca da bebê, digna de ser chamada de “filha de Rosemary”: o seio de uma das mães adotivas (melhor nem comentar como um casal de mulheres adotaram o pequeno bebê-demônio e como isso pode ser lido) está praticamente estraçalhado pelos dentes da menina, que começam a crescer. O fim não é o fim, tem cara de Grace 2, e só Deus sabe aonde chegará os feitos dessa criança “gerada e nascida em 1968“, mas que só veio à luz em 2009. Definitivamente é algo das trevas…

O Mistério de Grace (Grace) – EUA, Canadá, 2009
Direção: Paul Solet
Roteiro: Paul Solet
Elenco: Jordan Ladd, Stephen Park, Gabrielle Rose, Serge Houde, Samantha Ferris, Kate Herriot, Troy Skog, Malcolm Stewart, Jeff Stone, Jamie Stephenson, Tenai Cam Measmer, Chris Cunningham, Mark D. Claxton
Duração: 85 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.