Crítica | O Mistério de Oberwald

O Mistério de Oberwald é um filme menor de Michelangelo Antonioni. Após apresentar obras magníficas ao mundo, como a Trilogia da Incomunicabilidade, e até garantir uma nomeação ao Oscar de Melhor Diretor, com Blow-Up, o diretor italiano certamente já tinha provado o seu talento. Neste seu antepenúltimo momento no cinema, o cineasta adentra caminhos mais explorativos e se permite brincar com diversos elementos da técnica cinematográfica, apresentando uma adaptação da peça francesa A Águia de Duas Cabeças, escrita por Jean Cocteau. A história de uma viúva em luto por 10 anos que encontra em seu possível assassino uma figura amorosa pode não ter ganhado uma versão espetacular, mas Antonioni não deixa que a oportunidade de inovar seja deixada para trás.

A começar, o roteiro, que também tem participação de Tonino Guerra, é uma adaptação da peça citada, algo que, curiosamente, já havia sido feito antes, no filme homônimo ao título da obra, lançado em 1948 e dirigido pelo próprio Cocteau. Aqui, as coisas não são muito diferentes. No século XIX, um poeta radical invade os aposentos da Rainha (Monica Vitti) com o intuito de assassiná-la. Nessa história surpreendentemente de amor, a reviravolta está no fato da Rainha acabar se apaixonando pelo homem, devido a sua semelhança com seu antigo marido, uma morte que fez ela se refugiar longe de atenção das pessoas. Isso, no entanto, não fez a Rainha deixar de participar efetivamente do mundo político, o que, como dito, resultaria na criação de inimigos e no anseio por sua morte.

A narrativa é estendida com grandes diálogos, os quais, embora possam ser estafantes, ajudam a contar a história de forma exímia. Apesar deste ser um enredo diferente, os caminhos tomados são tradicionais se comparados com outros trabalhos do diretor. Na segunda metade da obra, aliás, o ritmo é bastante afetado, mas tudo se recupera na medida que o filme vai evidenciando seu pano de fundo trágico. Na pele da Rainha, Monica Vitti é uma deusa, transparecendo diversas camadas de uma mulher destruída por acontecimentos passados. A conversa dela com seu marido, na mesa de jantar, antes da introdução de Sebastian (Franco Branciaroli), traduz um peso enorme no que se refere a dor que a personagem está sentindo, mesmo depois de tanto tempo. A história, apesar do esticamento, é bem contada, e o senso que se tira é de um diálogo dos realizadores com o público sobre a morte e outras peças temáticas.

O Mistério de Oberwald, na realidade, foi feito para a televisão italiana, e não para o cinema, algo que certamente ganha identificações na obra que assistimos. Para alguns espectadores até, o estranhamento é algo notável, e que pode complicar o aprecio do longa-metragem em toda a sua conjuntura. O visual relembra muito as produções diretamente em vídeo, sendo este, aliás, um dos primeiros filmes gravados em vídeo. Isso não impediu Antonioni, contudo, de fazer um uso extremamente caprichoso das cores, com o verde invadindo a tela quando, ainda nos primeiros minutos, as janelas se encontram abertas. Em um mesmo plano, o diretor dispõe de diferentes tonalidades, que vão graduando na medida do interesse proposto.

A obra, enfim, dispõe de muito embasamento no seu argumento, trazendo diversas pontuações para dentro de sua narrativa. É interessante vermos a relação entre a Rainha e seu prenunciado assassino nos mais diferentes âmbitos. O jogo entre os personagens de Paolo Bonacelli e Elisabetta Pozzi consegue ser menos superficial que aparenta, evidenciando os interesses de diferentes lados de forma eficaz. No final, em comparação com seus outros projetos, este filme pode não ser o melhor trabalho de Antonioni, mas certamente o italiano conseguiu trazer alguma coisa à tona com essa obra além de sua história sustentada em tradições antigas de storytelling.

O Mistério de Oberwald (Il Mistero Di Oberwald) – Itália, 1981
Direção: Michelangelo Antonioni
Roteiro: Michelangelo Antonioni, Tonino Guerra (baseado na peça de Jean Cocteau)
Elenco: Monica Vitti, Paolo Bonacelli, Franco Branciaroli, Elisabetta Pozzi, Luigi Diberti, Amad Saha Alan
Duração: 129 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.