Crítica | O Mistério do Relógio na Parede

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Foi estranho descobrir alguns meses atrás (2018) que o novo projeto de Eli Roth seria uma fantasia infantil que estaria pra lançar ainda em 2018, ano que o diretor já havia marcado presença com o remake de Desejo de Matar. Um cineasta cínico, cujo interesse é a violência tanto fantasiosa quanto do dia a dia, um sociólogo com olhar apurado que, aparentemente, escolheu um projeto longe das suas raízes? A primeira comparação em mente é Robert Rodriguez, que foi de Um Drink no Inferno até Pequenos Espiões, sem perder seus interesses formalistas e ou temáticos, mesmo transitando entre a indicação livre e +18. Mas é difícil entender o caso de Eli Roth, que dessa vez enfrenta um material completamente novo em relação à sua filmografia.

Então o que há de autoral nesse último filme de Eli Roth? Demora até que a questão seja respondida, mas fica bem óbvio durante a metade final do filme que o Eli procura conciliar algo entre o primeiro filme de terror de uma nova geração e um filme de bruxaria sem freio algum. Características do diretor não são abandonadas, apenas remodeladas para serem apresentadas para um público mais ingênuo, e onde haveria sangue e gore, há abóboras esmagadas e arremessadas, cenas de tortura se tornam truques de mágica, mas tudo de maneira mais bem-humorada que a habitual pieguice da franquia Harry Potter, que sempre agiu de ego inflado ao apresentar o mundo mágico de forma pouco elegante mas sempre enchendo-se de orgulho de um material muito mais derivativo que impressionante.

A casa de Mistério do Relógio na Parede pouco tem de original, é mais um casarão mágico na história do cinema, mas há um ar de descontração tão grande na encenação que ficam claras as intenções em fazer algo mais tátil que fantástico. A magia no filme é tratada mais como uma ilusão ou um truque que qualquer um pudesse aprender, Jack Black e Cate Blanchett fazem bom trabalho ao assumir os papéis de tutores irresponsáveis que destratam a feitiçaria e a reduzem às trivialidades do dia a dia. Até então o que Lewis, jovem protagonista, pretende ao estudar bruxaria, é impressionar e fazer amigos em seu novo colégio, enquanto os adultos da casa se preocupam com um tique-taque que os aborrecem na hora de dormir. Entra em jogo o cinismo de Eli Roth, que consegue trazer um material fantástico para o mundo material.

Chegando ao fim do filme, o diretor deixa-se pirar um pouco mais em cima das características que o marcam, como mencionado antes. A casa adquire um aspecto sombrio e o espaço antes desorganizado e lúdico encarna uma vácuo tenebroso, uma estranheza longe do clima habitual e que invoca uma perturbação até em relação à carreira do diretor, que sempre foi mais marcada por momentos de ironia e cinismo que terror propriamente dito. Ainda assim, por tratar-se de um filme infantil há os momentos de descontração, mas que tem bem menos poder que as imagens demoníacas que o filme traz. Não há como negar, é um filme de Eli Roth.

O Mistério do Relógio na Parede (The House with a Clock in Its Walls) EUA, 2018
Direção: Eli Roth
Roteiro: Eric Kripke, John Bellairs
Elenco: Owen Vaccaro, Jack Black, Cate Blanchett, Kyle MacLachlan, Collen Camp, Sunny Suljic, Lorenza Izzo, Braxton Bjerken, Vanessa Anne Williams, Charles Green, De’Jon Watts, Aaron Beelner, Joshua Phillips, Christian Calloway
Duração: 105 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.