Crítica | O Moinho e a Cruz

estrelas 4,5

Pieter Bruegel, O Velho, foi um dos mais talentosos e conhecidos pintores do Cinquecento renascentista flamengo. Vivendo no século 16, na região dos Países Baixos, o pintor presenciou o rígido domínio do Império Espanhol (em seu auge absolutista) sobre a região, domínio esse que ele usou para moldar boa parte dos motivos dramáticos de uma de suas últimas telas, A Procissão Para o Calvário, pintada em 1564, cinco anos antes de sua morte.

Sob forte influência de H. Bosch, Bruegel pintou telas em que o diabo aparecia em sua mais cruel personalidade, atormentando e ferindo os homens. O tema religioso sempre foi muito presente em suas telas, mas a verdadeira característica de sua arte era a apresentação dos costumes da época, dando um forte teor narrativo para elas, como também as cenas alegóricas do campo, as belas paisagens, o lado ridículo, fraco e louco da humanidade, tudo isso aglutinado em quadros geralmente de teor moralista.

Analisando essas características, o cineasta polonês Lech Majewski empreendeu a difícil tarefa de dar vida à icônica Procissão Para o Calvário, pintura enorme e de difícil transposição para a tela do cinema, com grande número de cores, extensão geográfica cênica e diversos acontecimentos em cada ponto do quadro. Filmar essa obra é de imediato uma tarefa complexa, que exige, acima de tudo, uma grande sensibilidade por parte do diretor. Ao vermos O Moinho e a Cruz (2011), percebemos que Lech Majewski não só transpôs de maneira transcendental a tela de Bruegel para o cinema, como também criou pelo menos três grandes realidades e tempos históricos diferentes, trazendo a Jerusalém da antiguidade para a moderna Flandres do século 16 e transformando os romanos que oprimiam os judeus nos espanhóis que cometiam atrocidades contra os flamengos.

Ao dirigir, coescrever, co-fotografar e compor para o filme, Majewski transforma-o em uma obra autoral contemplativa, indo no sentido oposto ao que fizeram Kurosawa, Rohmer, Saura e Greenway em seus filmes ambientados em telas de algum pintor. O Moinho e a Cruz é um filme que se constrói lentamente, exibindo os rituais e a vida cotidiana dos camponeses, a ambientação da Paixão de Cristo contextualizada na realidade história em que ele vivia e o próprio processo de criação da tela, com cenas plenamente didáticas, ressaltando de maneira impressionante cada ponto estrutural do quadro, explicando-o e interagindo com as realidades já citadas. O mais interessante é que ao final do filme, uma rápida sequência nos mostra que toda a representação de Bruegel foi retirada de acontecimentos verdadeiros (para ele), e que ganharam uma representação à parte em sua imaginação (como o jovem pendurado na “árvore da morte” e o enterro da mulher viva – lembremos que na Flandres do século 16, execuções públicas eram muito comuns, especialmente por motivos religiosos).

A paisagem não é captada pelo diretor apenas como uma bela decoração de fundo. Vemos uma integração orgânica entre o ambiente e o homem, entre o animal racional e o irracional, entre o verde e cinza do vale, o vermelho do uniforme da guarda espanhola e as mais diversas cores do figurino dos aldeões. A direção sublime de Lech Majewski prima pelo pormenor, pelos aspectos religiosos da pintura e suas explicações, pelo caráter sociológico da aldeia e pelas investigações sobre o comportamento humano, percebidas na “história pessoal ou paralela” que cruza a narrativa bíblica, a narrativa histórica e a narrativa de manufatura do quadro. No final de tudo, essas histórias serão descaracterizadas diegeticamente, quando saímos de dentro do mundo da tela (o quadro dentro do quadro, a meta-metalinguagem) e nos afastamos pelo corredor do museu. O espectador passa de contemplador de uma obra viva para observador de um quadro estático.

O diretor ainda conseguiu guiar o grande elenco de figurantes e as personagens principais com toques Midas. Charlotte Rampling e Rutger Hauer brilham na tela. A pequena participação da atriz britânica vale cada segundo. Seu olhar profundo para o horizonte, sua dor que é um reflexo da dor de Maria (ao mesmo tempo em que ela é Maria), sua postura austera frente à maior adversidade da vida de uma mãe é sentida pelo espectador com grande força. Essa mesma força dramática se estende para cada grupo de atores que formam a diacronia do quadro. A leitura que fazemos da esquerda para a direita é arquitetada por acontecimentos separados, ligados aos poucos. Nesse ponto, o roteiro apresenta sua falha em construir a história geral, mas nada que interfira no poder da obra ou minimize o impacto causado no espectador.

Lech Majewski consegue transformar noventa minutos de pintura em movimento em uma obra-prima plástica e narrativa, soberbamente fotografada e de ritmo perfeito. Trata-se de uma sessão aonde os sentidos do espectador serão cobrados. O mínimos diálogos e a montagem episódica dos acontecimentos exigem muita atenção do público, e um pequeno conhecimento da história da época servirá para o espectador entender de imediato certas escolhas do diretor, especialmente em relação à música, enquadramentos e o tom geral de festividade, que inclusive fecha a obra. O Moinho e a Cruz é um filme de beleza suprema, denso de conteúdo, formato e narrativa. Em torno de todas as propriedades presentes no cinema e nas artes plásticas, chegamos a uma obra onde o nascimento de um significado é constante, mesmo que ela fale de morte. Então vemos despertada a mais divina função da arte: transformar em vida toda a beleza que de outra forma não poderia sobreviver ao tempo.

O Moinho e a Cruz (The Mill and the Cross) – Polônia, Suécia, 2011
Direção: Lech Majewski
Roteiro: Michael Francis Gibson, Lech Majewski
Elenco: Rutger Hauer, Michael York, Charlotte Rampling, Joanna Litwin, Dorota Lis, Bartosz Capowicz, Mateusz Machnik, Marian Makula, Sylwia Szczerba, Wojciech Mierkulow, Ruta Kubas, Jan Wartak
Duração: 92 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.