Crítica | O Monstro da Lagoa Negra (1954)

estrelas 3

Reza a lenda que a ideia para a concepção deste clássico de monstros surgiu durante um bate-papo na casa do cineasta Orson Welles. Aponta-se que um cineasta brasileiro estava no local e contou a história de um amigo que viajou para investigar o suposto caso de uma região amazônica onde vivia um povo-peixe. Fantástico, não?

Pois de acordo com dados históricos sobre O Monstro da Lagoa Negra, esta conversa foi o fermento criativo suficiente para o surgimento do filme. Dirigido por Jack Arnold, o mesmo de outros clássicos, tais como Veio do Espaço e O Incrível Homem que Encolheu, a história se passa na Amazônia e explora os estereótipos que durante muitos anos, e pasmem, até a era da informação global, ainda continuam vivos e atuantes no imaginário popular estrangeiro.

Durante bastante tempo a Amazônia foi uma região repleta de simbolismo. Basta lembrar o hediondo Anaconda, vergonha alheia com Jennifer Lopez ou os clássicos O Mundo Perdido e Delírio de um Sábio. Espaço para ocultismo, civilizações perdidas, animais pré-históricos e outros devaneios ficcionais, numa espécie de repetição das narrativas do descobrimento, no filme o espaço não aparece de maneira diferente, cheio de mistério e obscurantismo.

Filmado em Jacksonville, na Flórida, o filme possui o seguinte argumento: um grupo de cientistas está procurando por fosseis na região amazônica e encontram a pata de uma criatura desconhecida. Com a descoberta surge a ideia de uma expedição, numa busca incessante por mais novidade, típico da humanidade e seu processo de expansão cultural e científica.

Eles seguem rumo a um local chamado de Lagoa Negra, espaço de águas caudalosas e escuras. No processo de pesquisa eles encontram uma criatura estranha, uma espécie de mistura entre características humanas e animais. Consideram a descoberta peculiar e tentam a todo custo capturar a criatura viva, mas as coisas saem do controle e mortes acontecem. Tal como King Kong, o que pode remediar a situação é a afeição da criatura pela única mulher da expedição.

No que tange aos aspectos técnicos, O Monstro da Lagoa Negra é eficiente: a fotografia preto-e-branco imprime o tom de classe típico dos filmes desta era, além das boas sequências aquáticas e da ótima concepção visual do monstro, algo bem realizado para a realidade industrial da época. Assim como Frankenstein, Lobisomem, Drácula, A Múmia e O Fantasma da Ópera, a criatura entrou para o Olimpo dos Monstros da história do cinema.

A sua popularidade foi tão grande que o monstro migrou para outros suportes narrativos. Foi personagem da série The Munsters, do filme The Monster Squad e do musical homônimo, Creature from the Black Lagoon.  O tal monstro possui uma mitologia própria: é um anfíbio vulnerável à retotona, composto químico utilizado como pesticida, tem 35% do seu sangue composto de glóbulos brancos e fotofobia, sensibilidade à luz por conta da sua sobrevivência constante em águas escuras.

O Monstro da Lagoa Negra ganhou duas sequências, algo inevitável diante do sucesso de público e de algumas críticas favoráveis, atentas aos esquemas alegóricos da narrativa. The Revenge of the Creature foi lançado em 1955, seguido de The Creature Walks Among Us, em 1956. Em 1977, o escritor Carl Dreadstone criou uma versão em romance para o filme e modificou a mitologia da criatura, sem muito sucesso. A sua refilmagem, anunciada pelo The New York Times, desde 2007, ainda não aconteceu, mas detalhes apontavam que a criatura da vez teria alcançado esta forma por conta do contato com substâncias químicas oriundas do descuido de uma indústria farmacêutica.

O Monstro da Lagoa  Negra (Creature from the Black Lagoon) – EUA /1954.
Direção: Jack Arnold
Roteiro: Harry Essex, Arthur A. Ross, Maurice Zimm, William Alland
Elenco: Richard Carlson, Julie Adams, Richard Denning, Antonio Moreno, Nestor Paiva, Whit Bissell, Bernie Gozier
Duração: 79 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.