Crítica | O Monstro do Pântano

O saudoso Wes Craven teve uma carreira relativamente curta na cadeira de diretor, com apenas 29 obras entre séries de TV, telefilmes e longas para o cinema. No entanto, sem dúvida alguma, o cineasta deixou sua marca na Sétima Arte, com clássicos do horror como Quadrilha de Sádicos, A Hora do Pesadelo e Pânico, dentre outras criações menores, mas divertidas. Em seu começo de carreira, antes de criar seu famoso Freddy Krueger, ele embarcou em uma inusitada adaptação de um dos mais interessantes personagens da DC Comics, o atormentado Monstro do Pântano, criação de Len Wein e Bernie Wrighston, de 1971, que ganharia uma fantástica releitura a partir de 1984, pela mente brilhante de Alan Moore.

O personagem que, em sua encarnação mais simples e objetiva, é um homem que se transforma em uma criatura parte humana, parte vegetal e passa a assombrar os pântanos da Louisiana, sem dúvida é a escolha perfeita para um longa típico de Craven. Afinal, peneirado até que apenas sua base conceitual seja mantida, ele funciona bem como protagonista de um “filme de monstro”, assim como os clássicos monstros da Universal, como a múmia, o monstro da Lagoa Negra e especialmente o monstro de Frankenstein. No entanto, o diretor e roteirista, ao somente lidar com o básico, acabou pecando ao também afastar-se do tom de horror das histórias clássicas do personagem, emprestando uma veia cômica camp ao longa que, se por vezes até diverte, por várias outras impede que a obra realmente decole.

Craven tenta nos convencer da verossimilhança da criatura que aparece no filme em uma origem econômica de forma muito semelhante a que o jovem Jason surge ao final do primeiro Sexta-Feira 13. Mas, enquanto no filme que traria o icônico assassino com máscara de hockey há genuíno susto no momento chave, em O Monstro do Pântano o pavor é substituído por uma sensação cansada de “já vi isso antes”. Pior ainda, depois que Alec Holland (Ray Wise) se transforma no monstro pelas mãos do bondiano vilão Anton Arcane (Louis Jourdan como o icônico arqui-inimigo do Monstro do Pântano nos quadrinhos e que de fato viveria, no ano seguinte, um vilão de James Bond), a fita é uma sucessão de minions de Arcane sendo arremessados na água pelo monstro. São repetições e repetições das mesmas cenas, por ângulos diferentes, intercaladas pela fuga desesperada de Alice Cable (Adrienne Barbeau como a versão masculina de Matt Cable, personagem dos quadrinhos) pelo pântano e seus vários encontros com a criatura até ela descobrir quem ele verdadeiramente é.

O maior problema do filme não é exatamente seu orçamento baixíssimo de 2,5 milhões de dólares, mas sim de um roteiro que não sabe exatamente o que ele quer. Primeiro, vemos um monstro descerebrado e ensandecido rugindo como um leão e enchendo de sopapos os incompetentes capangas de Arcane. Depois, vemos um monstro inteligente, falante, com toda a personalidade do cientista que era antes da transformação e isso sem uma evolução clara ou sem uma fluidez que nos leve do ponto A ao B de maneira lógica. E, de repente, no terço final, como estratégia para derrotar Arcane, o Monstro do Pântano simplesmente se deixa capturar e passa a contar com eventos que não dependem exatamente dele para levar o vilão à derrocada, em um reencenamento de uma luta de monstros banal, com o Monstro do Pântano de um lado e Anton Arcane transformado em um javali bípede de outro. As oscilações de ritmo e as tentativas de inserção de comicidade fazem o espectador tampar os olhos de vergonha alheia. E isso porque nem mesmo abordei a péssima atuação de Ray Wise como Holland (o monstro em que ele se transforma é vivido por Dick Durock), a patética donzela em perigo vivida por Barbeau que, claro, tem que aparecer pelada tomando banho nas águas lamacentas do pântano e, a cereja no bolo, o histrionismo afetado de Jourdan como Arcane.

Evidentemente que não poderia encerrar a presente crítica sem abordar o elefante na sala: a roupa que inventaram para caracterizar o Monstro do Pântano. Apesar do louvável esforço em recriar quase que integralmente o visual dos quadrinhos, a grande verdade é que a natureza de um macacão verde é tão evidente que ela acaba chamando atenção demais para si mesma, impedindo a imersão do espectador na história. É como assistir a um tokusatsu dos anos 70, praticamente, sem que Craven sequer tente esconder os problemas da criatura com um bom jogo de câmera ou uma iluminação mais discreta, que lidasse com sombras. Ao focar a criatura sem medo de ser feliz, abraçando de vez o espírito camp, o diretor acaba sacrificando o monstro do título, algo que, por exemplo, Jack Arnold tratou de forma muito mais eficiente quase 30 anos antes em seu O Monstro da Lagoa Negra.

É, porém, curioso constatar como, mesmo com seus vários problemas, O Monstro do Pântano mantém uma aura charmosa e agradável ao longo de toda a projeção. Sem dúvida uma bobagem trash, mas que tem seu valor, assim como, por exemplo, Flash Gordon teve seu valor quando lançado dois anos antes, ainda que, no caso do filme de Mike Hodges, a presença maciça da trilha sonora do Queen o eleve a outro patamar. Portanto, no final das contas, a adaptação do Monstro do Pântano por Craven cavou um lugarzinho de honra entre aqueles filmes tão ruins que são bons, gerando não só uma continuação e duas séries de TV, como, também, a renovação do interesse pelo monstro que levaria à sua reinvenção por Alan Moore. Nada mal, não é mesmo?

O Monstro do Pântano (Swamp Thing, EUA – 1982)
Direção: Wes Craven
Roteiro: Wes Craven (baseado em criação de Len Wein e Bernie Wrightson)
Elenco: Louis Jourdan, Adrienne Barbeau, Ray Wise, David Hess, Mimi Craven, Dick Durock, Nicholas Worth, Don Knight, Al Ruban
Duração: 91 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.