Crítica | O Mundo Assombrado Pelos Demônios, de Carl Sagan

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Eu não sou um ateu. Um ateu é alguém que tem evidências atraentes de que não há um Deus judeu-cristão-islâmico. Eu não sou tão sábio, mas tampouco considero haver qualquer coisa próxima de uma evidência adequada para tal deus. Por que vocês têm tanta pressa em se decidir? Por que não simplesmente esperar até que haja evidências atraentes?

A sentença dita por Carl Sagan poucos meses antes de sua morte, em dezembro de 1996, diz muito não apenas sobre O Mundo Assombrado Pelos Demônios, mas também sobre toda sua vida e carreira. Cientista, astrônomo, astrofísico, cosmólogo, escritor e divulgador científico norte-americano, o homem que provavelmente mudou a trajetória de vida de tantas pessoas ao redor do mundo entrega em seu livro um derradeiro manifesto de amor à ciência e ao método científico.

A narrativa é iniciada com relatos de momentos cruciais da infância de Sagan, que serviram de estímulo para sua curiosidade e iniciação científica, intercalados com um desabafo honesto e angustiante sobre a nossa tendência de criar explicações fáceis e sem qualquer evidência para tudo aquilo que ainda não conseguimos explicar cientificamente.

Sagan pondera enfaticamente que, como espécie, o método científico é a nossa melhor chance de um futuro próspero, pois crendices populares, pseudociência, religiões detentoras de verdades absolutas, entre outras, não nos levarão a outros planetas, não nos salvarão de superbactérias, não ajudarão a lidar com a superpopulação ou com otimização da produção de alimentos, não descobrirão a cura de doenças, dentre tantas outras preocupações sérias que, cedo ou tarde, teremos que enfrentar. Estamos cada vez mais imediatistas, preocupando-nos mais com questões superficiais e banais e menos com a evolução moral e tecnológica de nossa espécie. O autor insiste então no antídoto contra a pseudociência: o ceticismo, o raciocínio lógico e o conhecimento do método científico, todas ferramentas fundamentais para nossa evolução; ferramentas das quais estamos cada vez mais carentes em nossa sociedade e principalmente em nossas escolas, tão defasadas no ensino de ciências. Sagan suplica atenção para o homicídio que cometemos à curiosidade das crianças, sempre as desencorajando a serem curiosas, quase que de forma sistemática e natural.

O Mundo Assombrado Pelos Demônios não é apenas mais um livro de não-ficção. Sagan é um narrador-mestre e seu carisma e genialidade com as palavras são o que tornam essa obra algo único. Lidar com inúmeros tabus de tantas culturas, crendices e religiões, sem que nos sintamos ofendidos, é algo que merece destaque. Tomemos como exemplo o fato de que o escritor dedica muitas páginas de seu livro criticando as crenças em UFOs (ou OVNIs, em português), em crop circles (desenhos em plantações), em histórias de abdução, em ocultamento de informações por parte de governos e em estatísticas que mostram porque é improvável que qualquer destas histórias seja verdadeira. Um leitor desatento pode interpretar precocemente que Sagan não acredita em extraterrestres ou que ele está zombando da ufologia. Mas Sagan é um dos idealizadores do projeto S.E.T.I. (Search for Extra-Terrestrial Intelligence) que busca sinais de rádio emitidos do espaço por qualquer sinal de inteligência usando um radiotelescópio. O que talvez pareça um paradoxo é, na verdade, um exemplo prático de Sagan que reafirma a citação que introduz este texto. A busca por evidências é que deveria nos apaixonar e nos motivar. Escolher um lado, qualquer que seja, sem nenhum embasamento, demonstra falta de humildade em aceitar que somos bebês engatinhando numa arena cósmica.

O texto pode soar prolixo às vezes, pois de fato alguns assuntos são repetidos à exaustão, por exemplo, quando o autor destrincha detalhes da Inquisição, tribunal eclesiástico instituído pela Igreja Católica no começo do século XIII que visava investigar e julgar sumariamente pretensos hereges e feiticeiros, acusados de crimes contra a fé. Porém, entendo ter sido proposital, uma vez que a própria humanidade contribuiu dando muitos exemplos de sua ignorância ao longo das eras, queimando “bruxas”, investindo verbas públicas em charlatães, dando ibope a tabloides que exaltam atividades paranormais, descobrindo “coisas incríveis” sem nenhuma evidência ou cortando verbas de áreas importantes como ciência e tecnologia, esta última, sendo muito criticada nos capítulos finais do livro.

Apesar de uma escrita muito acessível, dado o teor científico dos temas abordados, o texto não é superficial. Pelo contrário, Sagan nos dá uma verdadeira aula sobre a história humana com exemplos claros e concisos. Este é um dos pontos altos da leitura, inclusive. A quantidade de temas, ideias e exemplos contidos na obra é impressionante e causa ao mesmo tempo espanto e admiração no leitor. Me senti lendo um resumo da enciclopédia galáctica, e tive vontade imediata de reiniciar a leitura, assim que virei a última página, ávido que estava por sedimentar o aprendizado de tudo que ele se dispôs a ensinar. A forma apaixonada com que o autor apresenta suas argumentações, somada com a sensação que o texto provoca de que estamos dialogando com o próprio Sagan numa sala de estar tornam a leitura prazerosamente singular.

O Mundo Assombrado Pelos Demônios nos faz refletir sobre nossa existência, sobre a pequenez humana e sobre a imensidão de possibilidades esperando serem descobertas Universo (ou Multiversos) afora. Nos faz refletir sobre os perigos de empoderarmos líderes políticos, religiosos ou sociais que só se preocupam com seus momentos atuais e não tratam nosso planeta como um recurso finito. Não pensam sequer na próxima geração, muito menos no futuro que ainda está muito distante, mas que certamente um dia chegará. É um livro escrito para seres humanos. Os de hoje, que têm o dever de despertar o senso crítico e a busca por conhecimento em seus descendentes. E os de amanhã, que têm a responsabilidade de tomar decisões que afetarão o caminho que seguiremos enquanto espécie neste pálido ponto azul que chamamos de lar. Carl Sagan fez sua parte de forma brilhante e atemporal. Nós estamos fazendo a nossa?

O Mundo Assombrado Pelos Demônios (The Demon-Haunted World, EUA)
Autor: Carl Sagan
Editoras originais: Random House, Ballantine Books
Data de publicação: 1995
Data de publicação no Brasil: 2006 (Companhia das Letras)
Tradução (edição da Companhia das Letras): Rosaura Eichenberg
Páginas (edição de bolso da Companhia das Letras): 512

BRUNO CAVALCANTI . . . [Ao som de Top Gear....] Localização: Terra - Via Láctea - Universo Observável. Sou um terráqueo padrão, que se entretém sabe-se lá do quê com livros, filmes, quadrinhos e games. Falante excessivo a 30 anos, só dispenso um bom papo se o assunto for pagode ou Big Brother. Adepto da paz, não gosto de polêmicas. Mas a DC é claramente melhor que a Marvel. Se for me dar um livro, abra-o antes e escreva uma dedicatória. Não dou muito valor ao plástico do lacre, já que ele sempre vai pro lixo. Agora, se o presente for pro meu filho de 2 anos, ele me disse aqui que prefere um carrinho. De preferência um Jipe. E de preferência azul.