Crítica | O Mundo de Andy

Filme

Andy Kaufman
(reencarnado em Jim Carrey)

Confesso que tenho enormes dificuldades de classificar Andy Kaufman. Genial? Louco? Egoísta? Doentio? Um extraterrestre infiltrado na Terra, talvez esquecido aqui por seus pares? Nem mesmo sei se ele seria um comediante no sentido mais estrito da palavra, ou apenas alguém que sentia prazer em ser bizarro, em rasgar as convenções e em desvencilhar-se dos grilhões do meio em que viveu. Talvez ele tenha sido um pouco de tudo isso (inclusive extraterrestre), talvez tenha sido somente um homem que vivia de acordo com suas próprias regras, pouco importando os que os outros achavam dele, não sei. No entanto, uma coisa é certa: Kaufman é digno de um estudo antropológico e O Mundo de Andy, apesar de ser uma obra que naturalmente ficcionaliza sua biografia, é uma boa forma de começar a desvendá-lo ou de apresentar essa peculiar pessoa a quem porventura não a conheça.

Isso, por si só, já justifica assistir a esta obra dirigida pelo grande Milos Forman, que nos trouxe maravilhas como O Baile dos Bombeiros, Um Estranho no Ninho e Amadeus. Não se trata, porém de um dos melhores filmes do diretor, mas O Mundo de Andy é uma daquelas fitas que prendem o espectador primeiro por sua história cativante e somente depois por aspectos externos à trama em si. Essa armadilha benigna que captura a atenção de quem o assiste já fica evidenciada pelo original preâmbulo em que vemos Kaufman “encerrando” seu filme, com direito até mesmo aos créditos rolando em tela, com música de fundo diegética vinda da pequena (e clássica) vitrolinha do excêntrico comediante (chamá-lo-ei assim apenas para facilitar minha vida). Nesses minutos iniciais, notamos duas coisas: a promessa de um filme diferente e que Andy Kaufman, falecido em 1984, ressuscitou ou nunca morreu, conforme os rumores que seguiram sua morte.

Sim, ressuscitou. Jim Carrey é o ator que vive Kaufman e seu alter-ego Tony Clifton, mas talvez o mais correto e justo seja dizer que Carrey é o vetor usado por Kaufman para reencarnar. É raro encontrar uma atuação tão transformativa, que chega ao ponto de fazer o ator desparecer por completo, trazendo à tona somente o personagem. Não foi sem querer que seu trabalho na produção foi objeto de intensos rumores que diziam que Carrey não saía de seu personagem mesmo depois das filmagens, ao ponto surreal de Forman ter que mandar recados via Kaufman ou Clifton para o ator, algo que irritou o diretor e assombrou o restante do elenco nos bastidores e que é objeto do fascinante documentário Jim & Andy: The Great Beyond. A entrega de Carrey, por si só, até mesmo além da história de Andy Kaufman em si, é a enorme pepita de ouro da produção, uma entrega realmente rara de se ver que fascina e assusta no mesmo patamar e isso mesmo considerando que o ator e seu personagem são fisicamente bastante diferentes, algo que PUF! desaparece diante de nossos olhos desde os primeiros segundos em que vemos aquela figura estranha na tela.

O roteiro, escrito por Scott Alexander e Larry Karaszewski, no entanto, não faz jus a Carrey e nem à promessa do citado prêambulo de vermos algo diferente como Kaufman desenrolar-se diante de nossos olhos. Ao contrário, a estrutura é bastante comum, seguindo a descoberta, ascensão, queda e morte deste ícone americano do show business que, quando crianaça, costumava fazer apresentações olhando para a parede de seu quarto e que tem como uma de seus mais famosos momentos a verbalização apenas do refrão da música tema de Super Mouse tocando na tal vitrolinha. Ou seja, não fosse a mesmerizante dedicação de Carrey, estaríamos diante de uma cinebiografia comum, ainda que tenha havido um belíssimo esforço da produção em se criar uma aura de metalinguagem, com a escalação de Danny DeVito e diversos outros atores (em pontas) que contracenaram com Kaufman em sua carreira.

Aliás, menos do que isso, na verdade. A direção de atores de Milos Forman é, como de costume excelente em relação a todo o elenco de apoio, com especial destaque para Danny DeVito, Courtney Love e Paul Giamatti que encantam de imediato, ainda que tenham que lutar para aparecer diante da avassaladora presença de Kaufman… digo, Carrey. No entanto, o diretor tropeça na decupagem, provavelmente em razão de atalhos que o roteiro toma para acelerar o passo sobre a vida de seu principal personagem. Com isso, as elipses são estranhas, com passagens de tempo que acabam interferindo em nossa percepção sobre a importância de Kaufman naquele momento histórico nos EUA, em que o Saturday Night Live surgia e as sitcoms modernas tomavam o cenário televisivo. Da mesma forma, há um desequilíbrio grande entre o foco narrativo da primeira metade (a ascensão) em relação à segunda metade (a queda). Há um ritmo gostoso e lógico para o crescimento de Kaufman, mas não sentimos seu auge ou o que se percebe como sendo seu auge após seu icônico – mas odiado por ele – papel de Latka Gravas na famosa sitcom Taxi, que foi ao ar de 1978 a 1983, em duas emissoras diferentes. O ritmo, a partir desse momento é cambaleante e um tanto quanto episódico.

Mas que fique claro uma coisa: nenhum problema técnico detectável em O Mundo de Andy é capaz de arruinar ou mesmo sequer chegar próximo de diminuir o verdadeiro assombro que é a atuação de Carrey, certamente no ponto alto de sua carreira (ou seria obsessão?) e que lhe valeu o Globo de Ouro de Melhor Ator e absurdamente não lhe valeu nem mesmo uma indicação ao Oscar na mesma categoria. É um filme daqueles que, se fosse apenas com câmera parada focando em Carrey/Kaufman em um palco improvisado, já seria altamente recomendável. Com Forman atrás das câmeras e um elenco coadjuvante do mais alto gabarito, a obra é realmente essencial.

Andy Kaufman, em sua curta carreira como comediante (e lutador de luta livre…), ganhou status de lenda na televisão americana. Se foi merecido ou não, pouco importa. O que realmente interessa é que sua vida foi fascinante e, ao reencarnar em Jim Carrey, podemos entender perfeitamente o porquê de ele ser até hoje lembrado da forma como é, ainda que ele não seja exatamente classificável.

O Mundo de Andy (Man on the Moon, Reino Unido/Alemanha/Japão/EUA – 1999)
Direção: Milos Forman
Roteiro: Scott Alexander, Larry Karaszewski
Elenco: Jim Carrey, Danny DeVito, Courtney Love, Paul Giamatti, Gerry Becker, Leslie Lyles, George Shapiro, Richard Belzer, Melanie Vesey, Michael Kelly, Vincent Schiavelli, Peter Bonerz, Michael Villani, Bob Zmuda
Duração: 118 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.