Crítica | O Mundo de Jack e Rose

Após um início promissor como diretora, com os bons O Tempo de Cada Um e Angela: Nas Asas da Imaginação, Rebecca Miller fez de O Mundo de Jack e Rose seu projeto mais ousado. Em seu terceiro trabalho como realizadora, Miller reúne no filme um elenco de peso, com nomes como Camilla Belle, Catherine Kenner, Paul Dano e Jena Malone, mas tendo em Daniel Day-Lewis seu grande nome. Aliás, o início da película indica que a obra será tão boa quanto seu elenco. Porém, a partir da metade, o longa se perde e, mesmo que não seja ruim, parece que nunca atinge o nível que poderia.

O filme apresenta a rotina de Jack Slavin (Daniel Day-Lewis) e sua filha Rose (Camilla Belle), de 16 anos, vivendo em uma ilha. Extremamente contrário ao sistema atual, Jack impediu ao máximo que Rose tivesse qualquer influência do mundo exterior. Porém, com medo de que a filha fique sozinha quando ele morrer, o pai leva para a casa em que moram Kathleen (Catherine Keener), sua amante, juntamente com os dois filhos dela, Rodney (Ryan McDonald) e Thaddius (Paul Dano), resultando em problemas na relação entre eles.

Para um longa-metragem cujos protagonistas são remanescentes da cultura hippie, com direito a um discurso eloquente de Jack enquanto pichava uma construção no primeiro ato, O Mundo de Jack e Rose é demasiadamente morno. Aliás, a sensação é que o roteiro, escrito pela diretora Rebecca Miller, possui um punhado de boas ideias, mas mal exploradas.

No entanto, o início é promissor. Logo de cara, público é jogado na relação entre Jack e Rose e, graças a uma ótima sequência inicial, entendemos a filosofia de vida e o carinho entre os protagonistas. Na cena, Miller intercala o uso de uma Steadicam e de uma grua para ressaltar a vestidão e natureza do local, inserindo um senso de liberdade e respeito ao ecossistema enquanto a câmera viaja pela propriedade de Jack.

Falando no trabalho de Miller, a diretora mostra-se bastante ativa na cadeira de direção, utilizando uma câmera inquieta, seguindo os personagens, sendo uma boa estratégia para transmitir espontaneidade e liberdade. Para completar, Miller também cria belas composições que ressaltam a natureza da ilha, abusando de cores e luz. Outro destaque é a ótima trilha sonora, utilizando canções de Bob Dylan e Nina Simone para transmitir o estado dos personagens e dar mais profundidade a eles. Para completar, a montagem dá um ritmo dinâmico ao longa e faz com que a duração jamais seja sentida.

Além disso, o roteiro é inteligente ao inserir dualidade na relação entre Jack e Rose, sugerindo um carinho que vai além da relação entre pai e filha, ressaltando como os dois vivem algo único e, inclusive, inexplicável. Feitos esses elogios, quando um novo núcleo de personagens entre no dia a dia dos dois, a expectativa é que o enfrentamento comece e, com isso, o longa traga suas mensagens. No entanto, é decepcionante atestar que o filme jamais consegue ser envolvente e é aí que os problemas começam.

Com o acréscimo de personagens, o filme não parece saber qual caminho seguir. A abordagem sobre natureza e liberdade é substituída por uma espécie de desconstrução da família tradicional que soa desnecessária e clichê. O protagonista Jack desaparece em alguns momentos, os filhos de Kathleen ganham espaço demasiado e a história torna-se boba, principalmente pela insistência da mulher em ver o filho magro, algo que não se encaixa com o que vinha sendo construído.

Ademais, a obra perde envolvimento e os protagonistas tornam-se desinteressantes devido à omissão de Jack e a absurda ingenuidade de Rose diante de pessoas com hábitos diferentes. Ao testemunharem situações que vão contra suas ideologias, Jack e Rose são assustadoramente passivos, ou seja, não há enfrentamento, não há mensagem, como foi dito no início, a história torna-se morna, resultando em um afastamento do público. Sendo justo, no terceiro ato os protagonistas tomam atitudes, mas são tão extremas que destoam do restante da história.

Porém, a pouca profundidade não ocorre devido à falta de oportunidades dramáticas. Quando surge a personagem Red Berry, interpretada por Jena Malone, há a sensação de que o longa irá aprofundar-se na sexualidade dos personagens, mantendo a já elogiada dualidade da trama, mas o único fator explorado é a perda da virgindade de Rose e como isso incomoda Jack. Ou seja, a obra, que prometia tanto, cai na velha abordagem de ciúmes paternal e descoberta do sexo.

Para piorar, algumas das críticas mais contundentes da película, como a falta de respeito com a natureza, são desenvolvidas de maneira rasa. Jack resume-se a ser contra a construção de um condomínio na ilha em que vive e debate com o dono para destruir uma casa, mas não há nada além disso. Como foi dito anteriormente, no primeiro ato, o protagonista faz um belo discurso sobre a exploração do capitalismo, mas o roteiro não traz outra fala de mesmo nível e cai em obviedades.

Felizmente, o protagonista da película é Daniel Day-Lewis e o ator insere mais profundidade em Jack do que o roteiro pede. Day-Lewis transmite cansaço, perda da ideologia, saudade do passado e um sentimento pela filha que, aparentemente, é a única coisa que lembra sua melhor fase da vida. Já Camilla Belle não consegue transformar Rose na personagem interessante que ela é. Belle transmite bem a ingenuidade da protagonista, mas falta malícia em algumas cenas; a atriz em nenhum momento consegue ser cativante.

No início do longa, Jack e Rose viviam felizes em sua ilha, contemplando a natureza e aproveitando sua liberdade, até que a chegada de personagens em seu ambiente ocasiona problemas na relação. Portanto, é curioso constatar que o problema no longa é justamente o mesmo dos protagonistas, uma vez que os novos personagens só servem para que o roteiro não saiba qual caminho seguir. O Mundo de Jack e Rose cativa no início, mas perde o encanto a partir da metade, prometendo muito, mas entregando pouco no final.

O Mundo de Jack e Rose (The Ballad of Jack and Rose) – EUA, 2005
Direção: Rebecca Miller
Roteiro: Rebecca Miller
Elenco: Daniel Day-Lewis, Camilla Belle, Catherine Kenner, Paul Dano, Jena Malone, Beau Bridges, Jason Lee, Ryan McDonald, Susanna Thompson
Duração: 112 min

 

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.