Crítica | O Mundo de Krypton (1987-1988)

O Mundo de Krypton é a primeira minissérie de um projeto de três (O Mundo de Smallville e O Mundo de Metrópolis são as outras duas) capitaneado pelo grande John Byrne como parte das comemorações dos 50 anos do Superman. O objetivo foi recontar a história de Krypton pela primeira vez depois de Crise nas Infinitas Terras, alterando e expandido radicalmente a mitologia do planeta natal do Superman.

A minissérie, que não deve ser confundida com a quase homônima – só que pré-CriseMundo de Krypton, é composta por quatro edições que, apesar de resultar em um todo razoavelmente coeso, lidam com momentos temporais diferentes e bem específicos. O primeiro deles coloca a ação em algo como 100 mil anos antes do momento em que Jor-El envia seu filho para a Terra, em vista da iminente destruição do planeta. Mesmo nesse tempo remoto, vemos Krypton como um planeta extremamente desenvolvido, lidando com um conflito interno: o uso de clones sem consciência como fonte de “partes sobressalentes” para dar vida quase eterna aos kryptonianos. Nesse contexto, somos apresentados a Van-L, antepassado longínquo do Superman, como um jovem no dia da cerimônia formal em que seria reconhecido como adulto e, portanto, merecedor de ser endereçado por seu próprio nome e não pelo honorifico preso ao pai “filho de Ran-L”. É justamente nesse dia, porém, que a grande guerra clônica (será que Byrne se inspirou em Star Wars?), devastando o planeta.

Quando a segunda edição começa, Byrne cria uma elipse que leva o leitor mil anos para frente, com Van-L, usando uma poderosa armadura de guerra que o mantém em seu interior como se fosse um útero – um fantástico conceito muito bem executado por Byrne e Mike Mignola – tentando reunir voluntários para enfrentar o grupo dissidente pró-clones Zero Negro e evitar a destruição completa do planeta. A terceira edição pula novamente no tempo, desta vez já para Krypton reconstruída e extremamente tecnológica em que a população novamente conseguiu a vida quase eterna por intermédio não de clones, mas sim de uma versão muito modificada dos trajes de guerra que são vestidos pelos kryptonianos desde o nascimento. No entanto, a sociedade resultante é fria e distante, sem demonstração de sentimentos ou mesmo contato físico. Nessa era, vemos um Jor-El jovem, filho de Seyg-El, enfurnado em sua biblioteca estudando profundamente a história de seu planeta, o que conecta esse momento com o que vimos nas duas edições anteriores.

Os trágicos meses finais de Krypton são contados, então, em um grande flashback na quarta edição em que o próprio Superman relata essa história – com base em uma fita encontrada na nave que o trouxe para a Terra – para uma Lois Lane sedenta de um artigo novo para escrever para o Planeta Diário. Byrne, então, fecha sua narrativa referindo-se à história remota do planeta e como as ações de Van-L e do Zero Negro foram as sementes para a destruição de tudo milhares de anos depois. Fazendo um parênteses, é interessante notar o quanto especialmente a segunda metade da minissérie parece ter influenciado o roteiro e a estética de O Homem de Aço em todo o prelúdio alongado em Krypton.

Em seu conjunto, a minissérie funciona para fazer um apanhado da história de Krypton como o título propõe, mas a velocidade como as coisas são contadas e as conveniências narrativas que Byrne usa parece equalizar essa HQ como uma espécie de “resumo da Wikipedia” dessa ambiciosa narrativa. No lugar de desenvolve Seg-L apropriada e organicamente, no lugar de explorar a relação – ou a ausência de relação – de Jor-El com Lara, no lugar de fazer o leitor efetivamente preocupar-se ou de construir empatia pelos personagens mesmo diante da tragédia anunciada, Byrne toma atalhos que os transformam em meros meios descartáveis para chegar a um fim, deixando uma sensação de vazio quando finalmente a última página é virada. A emoção que Superman e Lois Lane sentem com o sacrifício de Jor-El por seu filho não é nem de longe transferida ao leitor diante da correria enlouquecida que acaba espremendo os momentos finais de Krypton em uma meia-dúzia de páginas espremidas.

Em termos de arte, Byrne e Mignola (o segundo ainda não conseguindo imprimir seu famoso estilo, algo que faria não muito tempo depois em Odisseia Cósmica) apresentam belos conceitos visuais que funcionam melhor em suas partes do que no todo. Vê-se muito claramente uma grande dificuldade dos artistas em lidar com a extremamente sofisticada tecnologia kryptoniana nos dois principais momentos temporais da minissérie, separados por nada menos do que 100 mil anos. Parece que não houve mudança alguma depois de todo esse tempo, mesmo levando-se em consideração os eventos quase apocalípticos gerados pela guerra. Aliás, minto. Há uma mudança muito saliente nos figurinos. Enquanto que na primeira edição só há corpos desnudos como se estivéssemos lendo uma HQ de Conan, o Bárbaro passada em um futuro distante ou, talvez, Barbarella, nas demais vê-se exatamente o contrário, com corpos quase que integralmente cobertos. Mas é só. Além disso, há poucos detalhes nas fisionomias de cada personagem, com rostos que se confundem e que somente são diferenciados pelos trajes, afastando ainda mais o leitor. No entanto, há, por outro lado, um enorme detalhamentos dos planos de fundo e do design em si de prédios e de elementos tecnológicos como as já mencionadas armaduras de guerra que fazem as vezes de úteros e, também, os robôs assistentes de Jor-El, além das câmaras de gestação tanto de clones quanto de efetivos filhos dos kryptonianos.

O Mundo de Krypton cumpre sua função de reinventar Krypton para a era pós-Crise. Ganha-se mais profundidade, com certeza, mas é uma profundidade enganosa, quase falsa pela velocidade com que tudo é narrado, impedindo um efetivo mergulho nos personagens e em suas intenções e, com isso, distanciando o leitor do que poderia ser uma leitura muito mais engajante e fascinante.

O Mundo de Krypton (The World of Krypton, EUA – 1987/88)
Contendo: O Mundo de Krypton #1 a 4
Roteiro: John Byrne
Arte: John Byrne, Mike Mignola
Arte-final: Rick Bryant, Carlos Garzón
Cores: Petra Scotese
Letras: John Workman
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: dezembro de 1987 a março de 1988
Editora no Brasil: Editora Abril (Super-Homem Especial #1)
Data de publicação no Brasil: agosto de 1988
Páginas: 100

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.