Crítica | O Mundo Por Um Fio

estrelas 4,5

Penso, logo existo.

Descartes
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Três trabalhos literários se encadeiam em semelhança com o tema do longa O Mundo Por Um Fio (1973), obra de R.W. Fassbinder realizada como uma minissérie em duas partes para a TV alemã e exibida no Festival de Berlim de 2010, após uma completa restauração realizada pela Rainer Werner Fassbinder Foundation.

A cadeia de referências literárias começa em 1955, com um conto de Frederik Pohl chamado The Tunnel under the World. O conceito de realidade virtual exposta a partir de temas filosóficos é a essência do conto, um modelo que podemos ver de forma mais técnica ou objetiva em Time Out of Joint (1959) de Philip K. Dick, nossa segunda referência. Por fim, chegamos a Simulacron-3 (também conhecido como Counterfeit World), obra de Daniel F. Galouye lançada em 1964, que mostra a realidade virtual dentro da perspectiva do “abismo dentro do abismo”. Foi neste livro que Fassbinder e Fritz Müller-Scherz se basearam para escrever o roteiro de O Mundo Por Um Fio.

A história se passa em um futuro onde o governo (seguido imediatamente pelas grandes empresas) possuem grande receio de tomar atitudes que gerem gastos ou que – ao menos isso é deixado subtendido na minissérie, mas posto de forma aberta no livro – desagradem a população. Embora manipulada, a massa tem grande poder de manobra sobre o Estado, de modo que, para evitar colapsos políticos, foi desenvolvido um programa de realidade virtual chamado Simulacron-1. A proposta é bem simples: absolutamente tudo o que existe no mundo real foi igualmente programado no Simulacron-1. Ele é uma cópia da realidade, com pessoas que pensam, amam, morrem.

Em seu primeiro e único filme de ficção científica, Fassbinder consegue capturar de maneira densa e crítica os aspectos centrais da obra de Galouye trazendo à tona a questão da existência sob um outro prisma: e se tudo o que estiver à nossa volta, ou no nosso mundo, não for real? A simulação virtual, como apontado anteriormente, já havia sido trabalhada em algumas obras literárias, mas Fassbinder dá voz, cor e corpo à ideia, deixando para o público não só o conceito de ideologia, alienação, filosofia (com direito a exploração das ideias de Platão, Zenão – com o seu paradoxo de Aquiles e a tartaruga – e Aristóteles) como também às emoções à flor da pele dos personagens e ao caráter disfarçado de filme de gângster ou crime, uma espécie de retorno metamorfoseado do diretor a exercícios anteriores como O Amor é Mais Frio Que a Morte (1969), Os Deuses da Peste (1970) e principalmente O Soldado Americano (1970).

Caminhando para uma nova fase de mudanças em sua carreira, Fassbinder apresentou em O Mundo Por Um Fio um resultado plural em termos estéticos e técnicos, dialogando com estilos diferentes de direção entre a primeira parte da minissérie (a mais vanguardista ou semi-godardeana) e a segunda, mais clássica (ou semi-sirkiana), momento em que o diretor investe pesado na montagem interna e externa para nos despistar e nos dar a sensação de que em um momento sabemos de alguma coisa, e em outro, não sabemos de mais nada. Ainda temos indicações do mundo simulado II e III com distintas cores predominantes para a fotografia (difusas ou azuladas) e um figuração estéril do mundo real (I), visto de forma claustrofóbica.

Com os objetos incomuns e os muitos espelhos utilizados pela direção de arte, é possível criarmos uma identidade futurística sem precisar de amplos detalhes tecnológicos na tela. O roteiro e a forma de organização desse mundo deixam isso claro para o espectador já na primeira cena, da mesma forma que a sensação de semelhança com o nosso próprio mundo torna tudo ainda mais intrigante e causa um bom impacto na análise comparativa no espectador, exatamente como previra o cineasta.

As referências aos filmes Desonrada (1931), O 3º Homem (1949) e 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), entrelaçadas a músicas como Trouble (na voz de Elvis Presley) e Lili Marleen (na voz de Solange Pradel) são os prêmios adicionais de O Mundo Por Um Fio, que, embora termine de uma maneira pouco honrosa ao peso crítico geral da minissérie, transmite-nos exatamente o patetismo, dubiedade e “sentido real das coisas” que resultou a jornada para saber qual mundo é o verdadeiro e qual mundo é uma simulação.

Em 1990, Godard citaria esta obra de Fassbinder em seu longa Nouvelle Vague e, nove anos depois, os filmes Matrix e O 13º Andar nos trariam exatamente a mesma temática, cada um a seu modo, ambos fortemente influenciados por Simulacron-3 e, especialmente no caso de Matrix, marcados pelo simbolismo rico e tratamento técnico que Fassbinder deu à obra de Galouye neste O Mundo Por Um Fio.

O Mundo Por Um Fio (Welt am Draht) — Alemanha Ocidental, 1973
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder, Fritz Müller-Scherz (baseado na obra de Daniel F. Galouye).
Elenco: Klaus Löwitsch, Barbara Valentin, Mascha Rabben, Karl Heinz Vosgerau, Wolfgang Schenck, Günter Lamprecht, Ulli Lommel, Adrian Hoven, Ivan Desny, Joachim Hansen, Kurt Raab, Margit Carstensen, Ingrid Caven, Gottfried John, Rudolf Lenz
Duração: 212 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.