Crítica | O Mundo Sombrio de Sabrina – 1ª Temporada

Os quadrinhos da turma do Archie são alguns dos mais influentes na cultura norte-americana, trazendo personagens icônicos que renderam algumas adaptações para a TV e o cinema, como o filme de Josie e as Gatinhas em 2001, que não é a melhor coisa do mundo e não parece ter agradado tanto os críticos quando os fãs. Em 2016 tivemos a estréia de Riverdale, uma série ambientada no universo dos quadrinhos, com direito a Betty, Veronica, Jughead e uma versão mais tolerável do trio das Gatinhas. Riverdale foi bem recebida como uma produção adolescente leve e despretensiosa, mesmo que carregue um tom mais dramático. Mas nenhuma adaptação do universo Archie foi tão bem sucedida quanto a série cômica Sabrina, a Aprendiz de Feiticeira, de 1996, que durou sete temporadas. Mas seguindo a tendência de transformar uma parte de nossa infância em uma versão “realista e sombria” (Obrigado, Snyder e Nolan), O Mundo Sombrio de Sabrina é uma adaptação da HQ de mesmo nome que também tinha a intenção de representar o universo da personagem de uma maneira mais suja e sangrenta.

Ao contrário de Riverdale, onde o enredo não tem muito a ver com o material original e os personagens tem apenas algumas características básicas para distingui-los (Jughead e seu chapéu, Archie e seu cabelo), Sabrina entra de cabeça no absurdo das revistas em quadrinhos. A série é comandada por Roberto Aguirre-Sacasa, ele também é responsável por Riverdale e provavelmente recebeu carta branca para desenvolver Sabrina depois de ter escrito a mesma HQ que inspirou a atmosfera de horror da adaptação. Com bastante humor negro e mais sangue e terror do que uma série adolescente costuma ter, a adaptação não se acanha na hora de apelar para a violência, fora arrumar espaço para algumas aparições do Capiroto, um desmembramento ou outro, um pouquinho de gore e, como se já não bastasse, blasfêmia para chocar a família brasileira (tem um “Louvado Seja Satã” em quase todo episódio).

É esperado que uma releitura como essa passe por mudanças na tradução. Além de irmos do tom leve e cândido da série original para o lúgubre e dramático, alguns personagens tiveram papéis novos enquanto outros foram talvez negligenciados por problemas inerentes à produção. O principal exemplo é Salem, o gato negro de Sabrina e queridinho do público. Por conta das alergias de Kiernan Shipka, que interpreta a bruxa adolescente, tivemos pouquíssimo Salem, que já não tinha planos para ser um animal falante como na comédia da década de 1990. Compreendo a intenção de deixá-lo sem falas por conta da abordagem mais séria, mas ele acabou sendo um enorme desperdício se considerarmos seu papel de alívio cômico. Na nova série, esse papel acabou indo para Ambrose (Chance Perdomo), outro jovem Spellman com seus próprios problemas. E por falar nos Spellman, a família é de longe o melhor núcleo da temporada. Miranda Otto e Lucy Davis estão hilárias como as tias Zelda e Rita, respectivamente. A dupla tem uma relação complicada que lembra um pouco os moldes de Cain e Abel, mas não a versão bíblica e sim a dos quadrinhos feita pelo selo Vertigo, onde os personagens fazem algumas pontas em Sandman ou Casa dos Mistérios. Além de fazer ligações com os quadrinhos, temos algumas referências visuais a filmes clássicos de terror, como A Morte do Demônio, A Noite dos Mortos-Vivos e O Exorcista.

Há espaço para desenvolver o mundo bruxo, com episódios focados em seus eventos e tradições. Todo o lado macabro e demoníaco é bem aproveitado e divertido de assistir; o problema está no núcleo “humano”, que afeta negativamente o equilíbrio da série. Por conta do dilema de Sabrina, que precisa decidir entre o mundo dos mortais e o das bruxas, e a necessidade em conectar o universo dessa produção com o de Riverdale, temos um enredo que cai no clichê e previsível quase toda vez que retorna para o drama escolar da protagonista. É pertinente no começo mas depois começa a incomodar o jeito que a série tenta inserir tramas paralelas desnecessárias, o que piora quando temos o princípio de um triângulo amoroso – isso somado ao problema do romance entre Sabrina e seu namorado, Harvey (Ross Lynch), já ser piegas e pouco convincente.

Não é como se isso estragasse a experiência por completo. Se olharmos pelo lado positivo, esse drama raso pelo menos tira a atenção de uma decisão estética desconfortável envolvendo um segundo plano desfocado e agitado. Se a intenção foi deixar o público desconfortável, conseguiu, mas não garanto que foi do jeito que imaginaram. Felizmente, o resto da temporada tem um apelo visual competente e traz alguns momentos interessantes, como as visões de Sabrina de um futuro infernal.

A série entrega apenas metade do que promete. De um lado é uma nova abordagem divertida e envolvente do cotidiano mágico, com ótimos personagens e um humor negro certeiro (há uma piada sobre Black Friday que ainda me faz rir); mas por outro lado, é um drama escolar sem graça e genérico que não sabe exatamente onde quer chegar. No fim, O Mundo Sombrio de Sabrina até agrada, mas deixa aquela sensação de algo que poderia ser bem melhor.

O Mundo Sombrio de Sabrina (Chilling Adventures of Sabrina) — 1º Temporada (EUA, 2018)
Criadores: Roberto Aguire-Sacasa
Direção: Rob Seidenglanz, Maggie Kiley, Lee Toland Krieger, Craig William Macneill, Viet Nguyen
Roteiristas principais: Roberto Aguirre-Sacasa, Donna Thorland, Matthew Barry, Lindsay Calhoon
Elenco: Kiernan Shipka, Ross Lynch, Lucy Davis, Chance Perdomo, Michelle Gomez, Miranda Otto, Richard Coyle
Duração: 10 episódios de aprox. 60 min.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie