Crítica | O Nascimento de Uma Nação (1915)

o nascimento de uma nacao

estrelas 3,5

Classificado como “o filme mais polêmico de todos os tempos” por um montão de listas e espectadores, O Nascimento de Uma Nação (1915), épico de um dos diretores mais importantes da história do cinema, é um filme difícil de se apreciar. Primeiro, pelo conteúdo racista. Segundo, pela longa duração (a versão que eu assisti para fazer essa crítica é a do lançamento em Blu-ray do filme restaurado, com 193 min.*). E terceiro, pela forma ainda nascente de uma linguagem organizada de cinema, com montagem paralela (realizada com primor), panorâmicas, fotografia noturna, efeito de íris, closes, flashbacks e fades, muitos deles, porém, aplicados de maneira tortuosa, incoerente e pouco ou nada atrativa.

A história é dividida em duas partes: antes e depois da morte do presidente Abraham Lincoln. No primeiro bloco, temos a história de duas famílias, os Stoneman (abolicionistas do norte) e os Cameron (sulistas donos de propriedades e escravos), que são afetadas pela eclosão da Guerra Civil Americana ou Guerra da Secessão (1961 – 1965). A guerra é retratada com alguma acuidade histórica, mas qualquer desvio, drama ou invenções — e existem muitas! — dos fatos são “perdoáveis” porque o roteiro do filme, co-escrito por Griffith, é, na verdade, a adaptação de dois livros e uma peça de Thomas Dixon Jr.: The Clansman: An Historical Romance of the Ku Klux Klan (primeiro livro), The Leopard’s Spots (segundo livro) e The Clansman (peça).

Essa livre retratação de um momento histórico tremendamente importante para os EUA ganha na Reconstrução, a segunda parte do filme, sua maior dose de racismo. Se em alguns momentos da primeira parte isso aparecia mais diluído no roteiro (quase limitando-se à representação caricata dos negros — que eram, em sua maioria, atores brancos pintados), aqui elas se tornam abertas e propagam a ideia de que a abolição da escravidão foi uma insanidade, de que os negros jamais deveriam ser integrados à sociedade americana e que a Ku Klux Klan era o bastião salvador de uma nação prestes a cair em uma “anarquia de negros”. O grupo, que nesse seu primeiro Klan (1865 – c.1871) tinha como base a supremacia branca, o terrorismo cristão e o motor ideológico de “justiceiros”, são mostrados como heróis, tanto na forma como o filme trata as suas ideias quanto nas atitudes sempre “justificadas” e “necessárias”.

Diante dessa exploração odiosa da História que levou o filme a ser banido de cidades como Los Angeles e Chicago, fica a pergunta: por que ele é tão importante e “cultuado” por quem estuda cinema? E a resposta é simples: porque é um filme tecnicamente fascinante (para sua época) e a linha divisória entre o Primeiro Cinema e o Cinema Moderno.
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O Nascimento de um Novo Cinema

O Nascimento de Uma Nação é tido como referência pelos mais distintos diretores-teóricos, do soviético Sergei Eisenstein ao alemão F.W. Murnau e ao brasileiro Glauber Rocha, todos eles ressaltando os avanços técnicos dessa obra de Griffith, que, ao contrário do que se pensa, não estreou o épico cinematográfico (quem fez isso foi o italiano Enrico Guazzoni, com Quo Vadis, em 1912), mas foi o primeiro diretor a aliar os esforços técnicos e narrativos obtidos desde Viagem à Lua (1902) e O Grande Roubo do Trem (1903) à grandeza estética e de produção de Quo Vadis (1912) e Cabíria (1914), criando uma legítima sintaxe cinematográfica.

Mas além de narrar com uma elegância e lógica impressionantes (embora não o filme inteiro, como comentei no parágrafo de abertura) ações que acontecem ao mesmo tempo em espaços diferentes, o diretor foi capaz de contar uma saga fugindo das armadilhas teatrais e literárias, seja no encadeamento mais rígido dos fatos, seja na representação afetada que tanto marcou o Primeiro Cinema, já que isso era parte da “atração” apresentada. Não é que não existam caricaturas, mas qualquer um que assiste ao filme percebe o esforço do cineasta em guiar os atores para uma interpretação com menos maneirismos, quase realista.

Ao conseguir abordar a história de forma mais próxima da realidade e contá-la de maneira alternada, Griffith arranja espaço para tentar uma montagem no interior dos próprios planos, um feito que alguns diretores de nosso século não conseguem fazer com a mesma facilidade. E nós podemos perceber isso tanto em momentos mais pacíficos da trama, como nas cenas dentro da casa dos sulistas no início do filme, nos momentos de guerra, por entre as belíssimas panorâmicas durante as batalhas; e especialmente nos 40 minutos finais, quando a Ku Klux Klan empreende uma jornada territorial para neutralizar o domínio dos negros. Embora ideologicamente odiosa, as cenas são de um ritmo, fluidez, aproveitamento do espaço e dos figurantes que deixam qualquer um espantado. E também espanta o fato de o longa ter sido distribuído com uma enorme partitura (composta por Joseph Carl Breil e pelo próprio Griffith) para ser executada ao piano ou ao órgão durante a reprodução. No período silencioso do cinema, não era comum que os filmes tivessem um compositor próprio, tanto para temas inéditos quanto para arranjos de obras famosas de von Weber, Wagner, Beethoven e Suppé, como é o caso aqui.

Porém, ainda mais notável que todos os avanços formais feitos pelo filme, existe o seu tema. Mesmo após o centenário, o longa levanta discussões sobre direitos humanos, representação de etnia, ideologia nacionalista, reescrita artística da História e movimentações sociais. Não podemos nos esquecer de que a estreia do filme, em fevereiro de 1915, fez ressurgir a KKK, inicialmente como um pequeno foco na Geórgia, mas depois se espalhando por outros Estados, um Klan que durou até 1944 e chegou a ter 6 milhões de membros. Ironicamente, o mesmo filme fortaleceu a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP, em inglês), fundada em 1909 e que mobilizou publicamente diversos protestos contra a exibição da fita em inúmeras cidades.

Primeiro filme a ser exibido na Casa Branca, pelo presidente Woodrow Wilson, O Nascimento de uma Nação foi o filme que colocou o cinema estadunidense acima dos famosos cinemas italiano e francês, abrindo a importância de Hollywood para a indústria; filme que deu o estrelato a Lillian Gish e que tinha, em meio ao seu enorme elenco, dois atores que se tornariam grandes diretores nos anos seguintes, John Ford e Raoul Walsh.

O Nascimento de Uma Nação é um marco histórico do cinema. Controverso, inovador e com temática racial que ainda se repete em nossos dias, o longa serviu de base para a linguagem cinematográfica que grandes cineastas aprimorariam nas décadas seguintes. Ame ou odeie, goste ou desgoste, O Nascimento de Uma Nação é o ancestral em comum para o que hoje conhecemos como CINEMA. E queiramos ou não, isso é um feito monumental.

Em tempo: Griffith ficou tão magoado com a recepção do filme que no ano seguinte, lançaria o excelente Intolerância, onde aprimorou o que houvera conseguido aqui e contou uma história ainda mais complexa, mostrando como o comportamento que dá título ao filme pode ser uma “doença” grave em nossa sociedade.

* Quando cito a longa duração como uma das dificuldades de se apreciar o filme, estou me referindo mais ao tratamento formal, que torna esses 193 minutos relativamente maiores do que são.

O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation) — EUA, 1915
Direção: D.W. Griffith
Roteiro: D.W. Griffith, Frank E. Woods (baseado nos livros The Clansman: An Historical Romance of the Ku Klux Klan e The Leopard’s Spots e na peça The Clansman, de Thomas Dixon Jr.).
Elenco: Lillian Gish, Mae Marsh, Henry B. Walthall, Miriam Cooper, Mary Alden, Ralph Lewis, George Siegmann, Walter Long, Robert Harron, Wallace Reid
Duração: 125 min. (lançamento em VHS, EUA); 165 min. (lançamento em DVD, Argentina); 187 min. (lançamento em DVD, EUA); 190 min. (16 fps) e 193 min. (lançamento internacional em Blu-ray, com o filme restaurado, 2011).

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.