Crítica | O Nascimento de Uma Nação (2016)

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estrelas 3

Nat Turner liderou uma revolta de escravos e de negros livres na Virgínia, em agosto de 1831, que, no melhor estilo Spartacus, pagava na mesma moeda os horrores cometidos contra esta comunidade na região sul do país. Ele pretendia chegar à cidade de Jerusalém (parece ironia, mas não é — hoje, contudo, a cidade chama-se Courtland), onde conseguiriam armas o suficiente para levar adiante a revolta, chamar os negros de outras fazendas, colocar fim ao “julgo branco” e dar início ao nascimento de uma [nova] nação.

É claro que a repressão do Estado contra esta revolta foi intensa e violenta. Centenas de escravos e negros livres foram mortos em represália (contra cerca de 60 brancos) e mais algumas dezenas enforcados para servirem de exemplo e evitar que existissem novas insurreições pela Virgínia ou por toda a região sul, já que a notícia do levante correu rápido, ganhou os jornais e chocou os donos de escravos. Para solidificar ainda mais o controle e a repressão, novas leis foram criadas, restringindo reuniões, inclusive as religiosas (que precisavam ser feitas com a presença de um homem branco a partir de então) e impondo novas regras até para os negros libertos.

Baseado nesse evento e com uma inteligente provocação ao polêmico clássico O Nascimento de Uma Nação (D.W. Griffith, 1915), Nate Parker passou anos preparando a sua própria versão do “nascimento”, mostrando muito, sem sutileza alguma — escolha corretíssima, apenas usada de forma desregrada no filme — os horrores da escravidão e o ambiente em que Nat cresceu. Aqui, porém, há algo mais. Nat é representado como um escolhido pelos deuses do Continente-Mãe, um chamado que fará dele um grande homem, a voz dos oprimidos. Dessa forma, o filme já começa marcado pelo frequente heroísmo social e histórico à la Amistad, só que realizado de forma menos escrupulosa e com o dobro de ambições, o que faz o resultado final deste O Nascimento de Uma Nação estar bastante aquém de sua própria promessa.

A profecia inicial não foi a melhor porta de entrada para o drama que, depois do prólogo, nos traz o cotidiano da fazenda e da plantação de algodão, sendo a direção de Parker neste início bastante correta, mas sem nada de novo. O roteiro, assinado por ele e por Jean McGianni Celestin, consegue nos dar um pouco de tempo para respirar antes de nos expor às muitas formas de atrocidades cometidas contra os negros nas plantations. Para efeito de comparação dessa dimensão do horror, imaginem que estamos vendo a situação de um condado em um Estado do país. Tentem pensar isso no grande cenário nacional ou mesmo nos outros países que utilizavam a mão de obra escrava em sua base econômica. É aterrador.

Um dos primeiros sentimentos do público durante a projeção é de raiva. E isso se mistura a algo mais polêmico e que abrirá espaço para grandes discussões, que é o fato de Nat, então sagrado “pastor dos negros”, ser usado como manobra pelos proprietários das fazendas para validar, segundo a Bíblia, a escravidão através de sua pregação. O conforto mudo, projetado para o Paraíso e pregado por Nat para os que eram massacrados no cotidiano das fazendas nos enraivece muitíssimo. Mas o personagem mantém sua fé e a defende até o fim, inclusive utilizando-a para guiar a sangrenta revolta contra os brancos, algo que traz certa semelhança ao ato dele e de seus companheiros como uma espécie de Jihad, conforme algumas análises históricas para o evento.

À medida em que o filme avança, lampejos de 12 Anos de Escravidão vem à mente do público, com a diferença de que aqui, as resoluções do roteiro e as escolhas da direção criam o mito do grande herói, choca através de imagens, mas perde a oportunidade de construir algo mais encorpado em relação ao momento histórico e aos próprios atores sociais, quase contentando-se com uma simples gangorra de ação e reação. Há momentos em que isso acaba funcionando por estar atrelado a coisas maiores (o ponto orgânico do texto), como a questão do estupro e o uso de Nat como pastor cuja função era validar a condição miserável de seus irmãos através da Bíblia. Mais adiante, isto será retomado como mola para a revolta, quando a Bíblia não é mais utilizada para admoestar os que se revoltam conta seus senhores, mas para punir “os inimigos dos justos”. A boa e velha interpretação ao bel prazer do pregador.

O primeiro bloco após a eclosão da revolta é muito bom. A montagem adota o ritmo correto no encadeamento das mortes e do caminho do grupo entre uma fazenda e outra, além de mostrar, por uma parcela de tempo acertada, cada uma das ações — a fotografia noturna também merece destaque nesse momento. No bloco seguinte, com a chegada do grupo a Jerusalém e no enfrentamento com os outros fazendeiros, além do Exército, o tratamento muda.

Como boa parte dos clichês do herói e sua luta na defesa de uma causa foram a base para a construção do enredo, é inegável que há muita emoção envolvida nessa batalha, mas ela é dirigida de forma tão displicente que passamos de grande empolgação para anticlímax em questão de minutos. Entre este ponto e o final da fita, salva-se apenas uma das melhores sequências (apesar de ser aterradora) que é a captura dos “cúmplices”, sob a canção Strange Fruit, na voz de Nina Simone (a escolha foi nada menos que perfeita), e os enforcados nas árvores, como “estranhos frutos” na paisagem, lembrando aos outros negros o preço a ser pago por se revoltarem contra aqueles que os possuía. É enraivecedor, triste e muito bem filmado.

O Nascimento de Uma Nação (2016) recebeu uma ovação estrondosa quando estreou no Sundance Film Festival, em janeiro de 2016, tendo recebido dois prêmios no festival e se tornado uma das grandes apostas do Oscar 2017. Com o passar dos meses, polêmicas relacionadas à violência racial e contra a mulher ou mesmo do Cristianismo como validador da escravidão levantaram os ânimos, até que a grande avalanche veio para Nate Parker em agosto de 2016, quando trouxeram à tona um processo em que ele esteve envolvido, juntamente com o co-roteirista Jean McGianni Celestin, por terem estuprado uma garota no período em que estavam na faculdade, em 1999 (Parker foi inocentado e Celestin considerado culpado, mas recorreu — a vítima cometeu suicídio em 2012). Desse momento em diante, o filme passou a ser alvo de boicote e foi retirado de inúmeros Festivais que participaria ao redor do mundo, tendo também uma clara resistência dos membros da Academia para uma possível indicação à famosa estatueta do cinema.

De promessa do Oscar a filme maldito, O Nascimento de Uma Nação (2016) é uma obra que ressignifica o título que usa e mostra uma realidade que precisava sim ganhar as telas do cinema. Por ser o primeiro longa-metragem de Nate Parker, ele traz muitos tropeços comuns em estreias na direção — e desperdiça cartas importantes no final, especialmente em relação ao protagonista –. Mesmo assim, a obra consegue contar o que tem para contar, chocando e emocionando a plateia ao mesmo tempo. O Nascimento de Uma Nação é um filme heroico, com um número grande de clichês do gênero, típicos de Hollywood, mas no todo, agrada por usar uma lente e uma proposta diferente para olhar a escravidão nos Estados Unidos e uma pouco conhecida resistência contra ela.

O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation) — EUA, 2016
Direção: Nate Parker
Roteiro: Nate Parker, Jean McGianni Celestin
Elenco: Nate Parker, Armie Hammer, Penelope Ann Miller, Jackie Earle Haley, Mark Boone Junior, Colman Domingo, Aunjanue Ellis, Dwight Henry, Aja Naomi King, Esther Scott, Roger Guenveur Smith, Gabrielle Union, Tony Espinosa, Jayson Warner Smith
Duração: 120 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.