Crítica | O Nevoeiro

O Nevoeiro

estrelas 5,0

Lembro que em 2008, apesar do surgimento recente de filmes ágeis e eficientes como Pânico na Floresta, Madrugada dos Mortos, dentre outras produções de sucesso, o gênero terror começava a amargar uma fase medíocre, com narrativas focadas na tortura ou cópias dos sucessos de “antigamente”. O Nevoeiro, assim como o irreverente Arraste-me Para o Inferno, de Sam Raimi, chegou em um período muito próximo, dando gás aos amantes das histórias de medo e mistério.

Por falar em categorização, O Nevoeiro é classificado por alguns, como pertencente ao gênero “fantástico”, o que de fato é verdade, mas considero a produção um dos melhores filmes de horror que já vi e uma coisa não anula a outra, em suma, se complementam: o medo pelo desconhecido, o pânico social diante do fanatismo religioso e dos jogos de poder, bem como o velho e sufocante confinamento que faz apodrecer as máscaras sociais de cada individuo presente no espaço em questão deixam claro que estamos diante de um terror de primeira linha.

É com essa premissa que Frank Darabont, responsável por ter adaptado dois excelentes dramas baseados na obra de Stephen King, Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre, pegou pela primeira vez uma história de terror para levar ao cinema. O resultado foi surpreendente e mostrou a habilidade do cineasta em dar conta de um gênero tão versátil. O filme é uma adaptação do conto The Mist, parte integrante da coletânea Tripulação de Esqueletos.

Após uma devastadora tempestade, David (Thomas Jane) e seu filho de oito anos Billy (Nathan Gamble) seguem rumo ao supermercado para adquirir o máximo de suprimentos necessários, mas são surpreendidos, no local, por uma bruma misteriosa que surge, trazendo juntamente com os seus tons nebulosos, alguns monstros e outras criaturas mortíferas. Presos do lado de dentro, não vai demorar para que os conflitos externos sejam apenas pano de fundo para as manifestações de egocentrismo, ódio, extremismo religioso e hierarquia nos jogos de poder tomem conta do espaço, o que torna a situação ainda mais insuportável.

Para os aliados ao mundo do cinema, as referências se tornam mais claras: O Nevoeiro lembra O Anjo Exterminador, Sinais, Os Pássaros e o irregular Fim dos Tempos. Narrativas sobre o perigo do confinamento e da postura que os seres humanos adotam em situações extremas como essa: há o artista, a professora dedicada, o rebelde sem causa, o candidato a líder, a primeira dona e o oráculo, todos com as suas verdades e idealizações, questionando o que pode ser feito diante da ameaça do desconhecido.

Para os que se prendem ao famigerado ideal de “fidelidade” entre o conto e o filme, desista: a versão audiovisual é pessimista, reverte o final do ponto de partida e se torna ainda mais interessante, pois abandona o caminho fácil da adaptação literal, deixando ainda espaço para referências aos clássicos do cinema, como por exemplo, os insetos se chocando contra a fachada de vidro do supermercado, numa clara alusão ao filme Os Pássaros, de Alfred Hitchcock.

A ação é bem guiada pela montagem eficiente de Hunter Via e pela direção e roteiro de Darabont. O trabalho musical de Mark Isham busca ser competente, mas não é o forte do filme, pois a narrativa foge dos clichês que se esforçam em assustar através dos truques sonoros. Ao longo dos seus 126 minutos de duração, O Nevoeiro é tenso e possui altas doses de adrenalina, além de ser um drama por excelência, adornado por uma bela catarse lá no final, bem ao gosto dos manuais clássicos de dramaturgia.

Um filme excepcional que, de certa forma, dialoga bastante com o ótimo Ensaio Sobre a Cegueira, tamanha a falta de habilidade das pessoas em enxergar certas “verdades” que estão expostas bem diante dos próprios olhos. A cegueira branca da adaptação do livro de José Saramago dá espaço para uma “bruma assassina”, envolta de monstros, mistérios e situações desconhecidas, alegorias que fazem do filme algo muito mais assustador que vísceras expostas e decadentes “jogos mortais”.

*Publicado originalmente em 16/10/2015.

O Nevoeiro (The Mist) — Estados Unidos, 2007
Direção: Frank Darabont
Roteiro: Frank Darabont (baseado no conto The Mist, de Stephen King)
Elenco: Thomas Jane, Laurie Holden, Toby Jones, Marcia Gay Harden, Andre Braugher, William Sadler, Alexa Davalos, Jeffrey Deyum, Chris Owen
Duração: 126 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.