Crítica | O Nevoeiro (Versão em Preto e Branco)

estrelas 5,0

Stephen King, no processo de concepção de seu conto The Mist, utilizou como fonte de inspiração os filmes de monstros que assistia em sua juventude, especificamente na segunda metade dos anos 1950 e 1960. Obras, algumas das quais, já eram colorizadas, mas que, assistidas hoje em dia, naturalmente, evocam sentimentos ligados à essa era cinematográfica. Ao adaptar o conto, a intenção inicial de Frank Darabont era a de resgatar tais sensações, captando o espírito de filmes como A Noite dos Mortos-Vivos ou daqueles de Ray Harryhausen e, para isso, queria filmar O Nevoeiro em preto e branco.

Vender tal ideia para os estúdios, porém, não é algo tão fácil, considerando que o público mais novo não se sente atraído por longa-metragens nesse estilo, os considerando datados e não-realistas – uma bobagem completa, afinal, como o próprio Darabont diz em sua entrevista que precede essa versão de seu filme, lançada como extra do DVD/ Blu-ray, o cinema é uma realidade aumentada, a manipulação da luz através de lentes. Felizmente, graças às tecnologias atuais, podemos contemplar o que fora imaginado originalmente pelo realizador.

Não irei entrar em detalhes sobre os aspectos do filme não ligados à fotografia em si, já que tudo já fora abordado na crítica da versão de cinema. Além da cor, a única diferença são duas cenas levemente mais curtas na edição em P&B e algumas telas pretas que se estendem por meros segundos a mais. Isso, porém, não deve afastar aquele que já assistiu O Nevoeiro em cores dessa versão do diretor – são dois filmes essencialmente diferentes, demonstrando claramente o poder da cor no cinema. Vale lembrar que transformar um longa-metragem em preto e branco ou revertê-lo, dependendo de como fora filmado, não consiste apenas em colocar um “filtro de Instagram”. O processo envolve um minucioso trabalho de contraste, ênfase em determinados espectros, isso sem falar na própria iluminação da obra, que deve se adequar ao formato.

A sensação passada por essa edição P&B já começa a aparecer nos créditos inciais, que nos remetem imediatamente aos já citados filmes cinquentistas/ sessentistas, denotando a visão antecipada de Darabont durante as filmagens. Por estarmos falando de um filme o qual um dos personagens é a própria névoa, um elemento de mistério, que ofusca o quadro quando o preenche, a ausência de cor, que já pode ser sentida mesmo no filme original, quando nos vemos no meio da neblina, perfeitamente combina com a atmosfera criada pelo roteiro. Sentimo-nos em um ambiente de completa desolação, de tal forma que o desânimo, o terror e desespero dos personagens estende-se de maneira mais impactante no espectador, que se vê ainda mais envolvido, por mais que a obra, como fora lançada originalmente, já seja excelente.

Vale notar como a ausência de cor contribui para a claustrofobia que sentimos dentro daquele supermercado e, se pensarmos no roteiro, a escolha faz todo o sentido, afinal, é iniciado um culto dentro desse ambiente que divide aquele microcosmo em pecadores e aqueles que acreditam, isso sem falar nas ocasionais divisões em grupos, que chamam os outros de mentirosos – a visão em preto e branco de determinados personagens, portanto, se estende para a imagem em si. Darabont nos mostra, então, que tanto quanto os monstros do lado de fora, devemos temer os próprios seres humanos, que são levados à loucura em situações de extrema crise.

Outro ponto que é visivelmente beneficiado pela ausência de cor é a computação gráfica. Sendo um filme de 2007, é natural que os efeitos especiais já pareçam datados nos dias atuais, especialmente pelas criaturas aparecerem de maneira bastante expositiva. De fato, o diretor não esconde isso ou o gore em determinados trechos, elementos que são, sim, utilizados a fim de impactar, sendo perfeitamente justificados dentro da proposta da obra. O preto e branco, contudo, ajuda a esconder a artificialidade desses seres, por mais que saibamos que são elementos de fantasia. Uma grande ironia, se levarmos em conta a já mencionada posição de jovens que não assistem filmes em P&B em razão de parecerem artificiais.

Dito isso, O Nevoeiro, que na sua edição de cinema já era um dos melhores filmes de terror desde a virada do milênio, se torna ainda melhor nessa visão mais aproximada do que Frank Darabont queria fazer desde o início. Produzindo uma atmosfera mais claustrofóbica, que dialoga com o posicionamento dos personagens, além de mascarar o CGI, a versão em preto e branco certamente pode ser considerada como aquilo que o filme deveria ser, uma prova de como a cor pode alterar significativamente nossa percepção de um filme, independente do quanto já o apreciávamos originalmente.

O Nevoeiro (The Mist) — Estados Unidos, 2007
Direção: Frank Darabont
Roteiro: Frank Darabont (baseado no conto The Mist, de Stephen King)
Elenco: Thomas Jane, Laurie Holden, Toby Jones, Marcia Gay Harden, Andre Braugher, William Sadler, Alexa Davalos, Jeffrey Deyum, Chris Owen
Duração: 126 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.