Crítica | O Novo Mundo

estrelas 4

Os misteriosos vinte anos de reclusão entre seu último projeto dos anos 70, Cinzas do Paraíso, e seu retorno surpreendente no fim dos anos 90 com Além da Linha Vermelha, parecem ter feito muito bem para Terrence Malick, aliado a sua negação em fazer uso da própria imagem para promover seus filmes, concedendo raras fotos entrevista à mídia. O diretor, ex-estudante de filosofia e extremamente apegado ao existencialismo metafísico de seus filmes, sempre parece pensar o tempo entre seus filmes para fazer seu próprio mergulho em suas abordagens para, em seguida, transformá-las em celulóide, aproveitando também para transitar entre gêneros tais como o road movie, o melodrama romântico, a guerra e seus horrores e, com este O Novo Mundo, o épico histórico.

Tal qual Stanley Kubrick em grande parte de sua filmografia, Malick parece decidido a dar sua máxima em cada projeto para alçá-lo para além de seu gênero, transcender a narrativa convencional e desfragmentar expectativas. Kubrick fez isso com 2001: Uma Odisseia no Espaço, seu principal exemplo desta máxima, e Malick igualmente exercita esse cinema de desafios desde seus primórdios.

Disto isto, a clássica e romanticamente banalizada história romântica entre Pocahontas e o explorador John Smith, popularizada pela famosa animação da Disney, casa como a abordagem ideal para o diretor novamente ambientar sua metafísica em meio a relação do homem e natureza, as relações humanas (mais especificamente, o amor) e o existencialismo através de suas imagens evocativas sobre o divino. A identidade de um cineasta como Malick é o que o torna tão singular.

Desmistificando por completo os mitos populares da história de Pocahontas (Q’orianka Kilcher, com apenas 15 anos na época das gravações, mas surpreendente em sua caracterização mergulhada) e o colonizador John Smith (um contido Colin Farrell), Malick mantém seus personagens mergulhados num constante estado de melancolia, algo ressaltado pela trilha sonora cada vez mais presente de James Horner, praticamente uma personagem à parte e elemento essencial na tradução sentimental sobre os personagens, uma vez que o ritmo cadenciado, lento e tão imagético certamente deverá manter muitos com uma aproximação distante da história. Mas Malick quer falar para além de seus personagens, de seus sentimentos e de sua constante narração em off (aqui certamente em excesso), e nisso novamente abusa de sua visão peculiar sobre como acompanhar seus parcos diálogos com imagens que simbolizem o que há para além das imagens. E em meio aos closes entre homem e natureza, Malick não dispensa seus eternos questionamentos sobre espiritualidade, a existência divina e o papel do homem enquanto sociedade (aqui representada pelo belíssimo choque de culturas), e dá-lhe enquadramentos na luz do sol atravessando as frestas entre árvores e extensos campos com céus iluminados (fotografia exuberante de Emmanuel Lubezki). Tudo isso pode soar redundante em palavras, mas Malick sabe como aliar tudo em sua narrativa poética.

Aliás, O Novo Mundo parece ser o projeto mais adequado para alguém como Terrence Malick, uma vez que a abordagem sobre o início da colonização e civilização americana abre oportunidades para o filme exemplificar em imagens a natureza indócil do ser humano em paralelo a passividade da natureza como cenário da incomunicabilidade entre os homens, e neste meio, a imagem de Pocahontas surge como o ponto da balança entre a preservação da inocência e a transformação padronizada para uma nova realidade regada por deveres e obrigações sociais. Malick fala da natureza do homem e da natureza em si, como presença fundamental na ambientação dos conflitos humanos.

Com grandes nomes do cinema contemporâneo que variam na narrativa entre grandes e pequenas participações (Christian Bale, Christopher Plummer, David Thewlis, Jonathan Pryce e Ben Chaplin), O Novo Mundo mantém a força épica das propostas discursivas de Terrence Malick sobre relações, sentimentos, existencialismo e natureza, lapidando a história de Pocahontas para um filme com sua identidade, ao mesmo tempo em que preserva o apelo extremamente humano da história original.

O Novo Mundo (The New World) — EUA/ Reino Unido, 2005
Direção:
 Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Elenco: Colin Farrell, Q’orianka Kilcher, Christopher Plummer, Christian Bale, August Schellenberg, Wes Studi, David Thewlis, Yorick van Wageningen, Raoul Max Trujillo, Michael Greyeyes, Kalani Queypo, Ben Mendelsohn
Duração: 135 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.