Crítica | O Número 73304-23-4153-6-96-8

estrelas 5

Ler uma história em quadrinhos sem falas ou narração pode ser algo de outro mundo para muitos leitores de HQ por aí.

Há quem pense que quadrinho precisa ter texto para ser quadrinho. Do mesmo mesmo modo que devem pensar que cinema precisa ter falas para ser cinema, algo que de cara descartaria obras maravilhosas como A Antena (2007) e O Artista (2011), isso para citar apenas dois exemplos do nosso século.

Pensar quadrinhos também como uma narrativa visual é algo que pode enriquecer ainda mais a visão geral de qualquer leitor. É possível acompanhar tranquilamente uma sequência de imagens que contam uma história sem precisar de texto algum para isso. É claro que a cobrança para o artista é maior, já que mesmo não havendo texto, existe um roteiro, uma história sendo contada. E para “piorar” a situação, a arte precisa ser notável, capaz de dar conta de si mesma e de sustentar uma estrutura que caberia à palavra. Narrativas plenamente visuais são uma espécie de prova de fogo e raros são os artistas que se dispõem a passar por elas.

Em Os Olhos do Gato (1987), Jodorowsky e Moebius embarcaram numa aventura metafórica quase silenciosa, com um tantinho de texto apenas. Em A Chegada (2011), Shaun Tan não usou textos, apenas um código que ele mesmo criou para o álbum, ou seja, nada para ser entendível pelo leitor. A experiência deve ser puramente visual, sem interferência de palavras com significado capaz de influenciar o julgamento sobre a história. Bem, essa mesma trilha é usada pelo suíço Thomas Ott em seus trabalhos, que constituem narrativas visuais sombrias (em todos os sentidos) sobre temas pouco usuais.

Em O Número 73304-23-4153-6-96-8 (2008), Thomas Ott expõe a obsessão de um certo guarda de um presídio sobre o referido número do título. As circunstâncias em que ele entra em contato com a tal sequência parecem perfeitamente normais à primeira vista, mas por sua peculiaridade, cria a pergunta inevitável na cabeça do leitor: o que isso significa? No decorrer da história, percebemos que há uma mística indecifrável nesse número, e entendemos a ideia de ciclo que ele protagoniza, modificando para sempre a vida de quem o encontra. Entre o surrealismo e o expressionismo, o número encarna o papel da Roda da Fortuna na vida de quem o encontra, elevando o indivíduo ao máximo do que ele considera prazeroso e trazendo-o, por fim, para um lugar de onde não sairá vivo.

A diagramação da obra traz poucos quadros por página e a arte de Ott é visualmente sombria e suja, deixando bem evidentes os traços e explorando o escurecimento dos objetos enquadrados. Tudo é muito simples, reto, com um número pequeno de detalhes que surgem apenas quando é  extremamente necessário, e nesses momentos, o leitor se espanta e se encanta com o significado geral daquela aparição. A história ou a caminhada de uma sequência numérica pode ser a porta de entrada para uma paranoia e um pesadelo fatal.

O Número 73304-23-4153-6-96-8 é uma obra muito diferente dos quadrinhos a que estamos acostumados a ler, mas é capaz de se destacar com facilidade frente a alguns verborrágicos e mega coloridos que formam parte das produções da nona arte ocidental americana. E tudo isso sem dizer uma única palavra.

O Número 73304-23-4153-6-96-8 (Suíça, 2008) 

Roteiro e Arte: Thomas Ott

147 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.