Crítica | O Olhar da Vítima – A História Real de Um Ataque de Tubarão, de Carlos Fred Martins

As tragédias transformam a vida de todas as pessoas, das vítimas ao grupo de familiares e amigos que gravitam em torno dos acometidos por alguma desgraça. Pode ser um acidente de carro, um assalto com violência, um atropelamento ou um ataque de tubarão. No caso de Carlos Frederico Martins, a última opção citada no período anterior mudou completamente a sua vida, mas ao contrário do que acontece com muitos que não superam os danos, o jovem que teve o pé esquerdo arrancado por um tubarão na praia de Boa Viagem, em Recife, conseguiu superar os problemas e seguir adiante, o que lhe permitiu a publicação de O Olhar da Vítima, livro que mescla elementos biográficos e traços do jornalismo investigativo, tendo em vista contar para os leitores a sua vida depois de um incidente tão trágico e inesperado.

Martins, antes de tudo, é um sortudo. Poucos tiveram a mesma possibilidade de recomeçar e arrumar humor para contar o antes, o durante o depois do encontro com a criatura que até então era apenas parte do imaginário construído pelo clássico filme de Spielberg. Com prefácio de Lawrence Wahba, renomado mergulhador de fama mundial, autor de Dez Anos em Busca dos Grandes Tubarões e idealizador, juntamente com a produção da Discovery Channel, do documentário Rebelião de Tubarões, o livro segue a trajetória de Martins, delineando a sua luta como um herói. A divisão dos capítulos é bem didática: A vítima e sua paixão, O Contexto, O Encontro, A Onda Continua a Quebrar, Eu e a Mídia, O Dia a Dia na Era dos Ataques na Praia de Boa Viagem e A Vida: Um Oceano de Desafios.

Ao tratar da sua história de superação, Martins conta que teve Rodney Fox como fonte de inspiração, o famoso consultor do filme Tubarão, homem que em 1963, foi atacado e teve o pulmão perfurado, o abdômen exposto, todas as costelas do lado esquerdo do corpo quebradas e quase morreu por conta da hemorragia, mas depois de assistido, recuperou-se e passou a investir grande parte da sua trajetória de vida no entendimento da espécie de tubarão que lhe atacou. Cabe ressaltar que antes da superação, Rodney Fox seguiu num projeto de caça e extermínio dos tubarões-brancos, conscientizando-se apenas depois de algum tempo do trauma. A história de Fox lembra inclusive a ideia de uma vítima que visitou Martins durante a sua recuperação, um jovem que tinha em mente um plano audacioso de capturar o tubarão responsável pelos ataques: jogar galinhas ensanguentadas no mar como isca. A postura da vítima nos remete muito ao imaginário literário de Moby Dick, de Melville. Como saber o tubarão responsável pelo ataque?

A descrição do incidente é bem cinematográfica, por sinal, uma característica das pessoas fazem relatos de incidentes trágicos, tudo muito próximo ao texto de abertura de Benchley no romance Tubarão. Martins conta que o impacto é tão forte que inicialmente ele sequer percebeu que estava sem um pé. Ele surfava quando de repente sentiu um puxão na perna esquerda, algo que o puxava para baixo e fincava em sua pele como se fossem unhas. A força descomunal era tão impressionante que depois de alguns segundos, serrou o seu pé esquerdo. Por conta do “choque”, ele não sentiu dor alguma, pois segundo seu relato, a descarga de adrenalina é tão forte que anula qualquer sensação dolorosa diante do grave ferimento.

Levado ao hospital depois de uma saga frenética no trânsito de Recife, o jovem foi hospitalizado e teve os cuidados médicos necessários para não morrer por infecção. Ele informa que há muita probabilidade de morrer por conta da quantidade de bactérias que há na boca e nos dentes dos tubarões, animais que comem de tudo que encontram pelo mar. Sobre a espécie que o atacou, as investigações se dividiram entre o tubarão-tigre e o cabeça-chata. Para entender a sua história, Martins estudou as espécies e oferta ao leitor algumas características pontuais sobre os animais, além de explicar as possíveis causas de tantos incidentes, dentre elas, as obras no Porto de Suape, a pesca de arrasto de camarões e seus detritos no mar, a topografia marinha da região, algo que os pesquisadores acreditam propiciar a presença dos tubarões no local.

Quando comenta a mídia, Martins condena as reportagens sensacionalistas que se alimentam da miséria alheia sem preocupação social. É um trecho interessante de recortes, com a coleção de reportagens que cobriram a sua tragédia. Ao falar dos desafios, o jovem conta como tudo mudou, bem como as adequações no ambiente doméstico, a reinserção nas práticas sociais já praticadas anteriormente e o uso das muletas e de prótese. O autor aproveita para fazer alguns rápidos comentários sociais sobre a assistência recebida pelas pessoas que passam por situação semelhante.

No que tange aos elementos editoriais, O Olhar da Vítima é um livro bem sucedido. A arte da capa de Alexandre Santiago é simples, mas traz uma “aura” enigmática. A diagramação simples de Tabata Santiago oferta algumas imagens que ilustram determinadas informações, complemento para a escrita simples e sem enrolação de Carlos Frederico Martins. Ao longo das 152 páginas da publicação, o autor narra a sua trajetória, dialoga com o leitor e torna a leitura fluente, sem precisar recorrer ao sensacionalismo típico de história deste tipo. A abordagem é carismática, repleta de itens didáticos que compõem o seu ponto de vista acerca dos incidentes com tubarões em Recife, sem necessariamente tornar o livro um compêndio ou manual de ensino, erro recorrente em Mar de Sangue, ficção de Arnaud Mattoso, autor mais bem sucedido em Mitos e Verdades Sobre os Ataques de Tubarões no Recife.

O Olhar da Vítima – A História Real de Um Ataque de Tubarão (Brasil, 2013)
Autor: Carlos Frederico Martins
Editora: Matrix
Páginas: 152

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.