Crítica | O Outro Lado do Vento (2018)

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“Você filma os belos lugares e as pessoas bonitas.
Todas as garotas e garotos. Filme até a morte”

Assim como a cinebiografia de Napoleão por Stanley Kubrick ou a adaptação da obra literária Duna pelas mãos de Alejandro Jodorowsky, O Outro Lado do Vento ficou conhecido por anos como um projeto inacabado, seja por motivos financeiros ou complicações na produção. Esta seria a última grande obra de Orson Welles, que teve a ideia ainda na década de 1960, depois da morte do escritor Ernest Hemingway, sobre um protagonista fanfarrão e difícil de lidar. As filmagens só começaram uma década depois, agora com um conceito mais claro do que o filme deveria ser: uma sátira da indústria cinematográfica. Infelizmente, Welles faleceu antes que pudesse terminar o filme, mas deixou mais de dez horas de gravação e poucas sequências editadas, o que serviu de referência para que mais de quatro décadas depois o longa pudesse finalmente ser lançado de maneira inesperada, pelo serviço de streaming Netflix.

Este não é um filme convencional, além disso é uma proposta ambiciosa de Welles. A narrativa é diferente do que o diretor está acostumado e há uma estrutura complexa que, graças ao sacrifício para tentar lançar a obra, é mais metalinguística do que todos planejavam. O Outro Lado do Vento não é apenas a obra de Welles, é a obra inacabada de Jake Hannaford, o protagonista interpretado por um amargo John Huston. Hannaford deixa todos em polvorosa quando decide quebrar seu silêncio e anunciar que está pronto para terminar e apresentar sua última obra. Jornalistas, críticos, atores e qualquer comunidade que você possa imaginar de Hollywood está representada de alguma forma na residência do diretor. Ele responde todas as perguntas com sinceridade e não parece se importar com o movimento dos convidados ou as câmeras que o seguem. Ele está ali pelo filme, é o que ele quer que acreditemos, pelo menos.

Welles utiliza estilos diferentes para distinguir seu filme do filme de seu protagonista. Assim sendo, nosso tempo na residência de Hannaford é representado por uma edição frenética, com cortes rápidos e uma claustrofobia causada pela atmosfera quente e desconfortável de pessoas discutindo e tentando tirar proveito da situação. No meio de tudo isso temos acesso ao O Outro Lado do Vento pelas lentes de Hannaford, uma obra com tons abstratos,  onírica e um ritmo lento, poucos diálogos e muita expressão, sobre um jovem motoqueiro fascinado pela beleza de uma jovem vagante (Oja Kodar, que também assina como co-roteirista do filme de Welles).

Welles experimenta, é o tipo de filme que ele não faria, o próprio já comentou como esse segmento deveria ser como uma tentativa de Hannaford de fazer parte da contracultura, atingir os jovens, ser relevante outra vez, e isso é evidente em algumas sequências envolvendo elementos do movimento de forma quase estereotipada – uma crítica de Welles ou um escárnio de Hannaford? O Outro Lado do Vento carrega o caráter de um documentário falso em alguns momentos, o que nos deixa mais próximos de um novo Verdades e Mentiras do que imaginávamos.

Não é apenas na estrutura narrativa que temos algo diferente, essa é uma produção com várias decisões criativas que dificultam ainda mais nossa percepção do que é real, o que compõe o diegético ou não em um filme dentro de outro filme (na própria residência de Hannaford acontece a filmagem de um documentário sobre um de seus relacionamentos do passado). A película alterna entre cor e preto e branco, sem contar a razão de aspecto, que é diferente entre o filme de Welles e o de Hannaford. Essa metalinguagem não é surpresa para nós agora, mas Welles foi visionário em um tempo onde brincar com o formato não era uma opção segura.

Além de Huston, o filme tem a presença de outros diretores também no papel de ator, como Norman Foster e Dennis Hopper (esse aparecendo por apenas alguns segundos). Peter Bogdanovich e Susan Strasberg tem uma importância maior para o enredo, ambos com uma abordagem natural, quase realista, de seus personagens. Bodganovich é o diretor prodígio com a benção de Hannaford; Strasberg é uma crítica de cinema. Já o filme dentro do filme conta com Robert Ramson e uma Oja Kodar nua e sem falas (silenciosa também no evento de Hannaford), a “Pocahontas” do diretor, de acordo com o próprio.

O Outro Lado do Vento é apresentado com um certo teor entrópico, você é jogado no meio das pessoas desesperadas por informação, nada está no lugar certo, é um quebra-cabeça com várias peças rasgadas ou perdidas e você não faz ideia de onde está indo. Essa confusão premeditada é mais uma maneira de confundir a realidade da ficção, Welles de Hannaford. E aqui deve ser mencionado o enorme esforço de Bob Murawski para finalizar o filme na ilha de edição. Mais conhecido por seu trabalho nos longas de Sam Raimi, Murawski foi a escolha perfeita para O Outro Lado do Vento, e o resultado é uma montagem incrível. É uma pena que uma experiência como essa não possa ser vista na tela grande e o modelo de negócios da Netflix não seja dos melhores, mas se é o preço que temos que pagar para ter algo tão bom em mãos, que seja.

O Outro Lado do Vento (The Other Side of The Wind) – EUA, 2018
Diretor: Orson Welles
Roteiro: Orson Welles, Oja Kodar
Elenco: John Huston, Cameron Mitchell, Peter Bogdanovich, Susan Strasberg, Edmond O’Brien, Joseph Mcbride, Lilli Palmer, Mercedes McCambridge
Duração: 122 min.

ROBERTO HONORATO . . . Criado pela TV, minha família era o programa dos Muppets e minha segunda casa era a locadora (era fácil de chegar, só precisava atravessar a rua). Não me incomodava rebobinar todas as fitas, e nem podia, já que assistia o mesmo filme várias vezes. E quando não é cinema, o cheiro de quadrinhos me chama de longe e preciso gastar dinheiro que não tenho. E nunca esqueça: #sixseasonsandamovie