Crítica | O Ovo da Serpente

estrelas 5

[…] qualquer um que fizer o mínimo esforço poderá ver o que nos espera no futuro. É como um ovo de serpete. Através das membranas finas pode-se distinguir o réptil já perfeitamente formado.

Hans Vergerus

Produzido pelo badalado Dino De Larentiis (de Noites de CabíriaSerpico e Hannibal), com colaboração germano-americana, O Ovo da Serpente (1977), de Ingmar Bergman, é a melhor reprodução cinematográfica da República de Weimar e do surgimento do nazismo na Alemanha já realizada¹.

O cineasta sueco escreveu o roteiro sob meticulosa pesquisa histórica e nele retratou com muita fidelidade os primeiros passos de uma sociedade que já dividida, desembocaria nas mãos do nacional-socialismo a partir de 1933. Façamos, antes, uma breve passagem pelos eventos que construíram esse tempo histórico.

Com a queda da monarquia na Alemanha após a 1ª Guerra Mundial, a cidade de Weimar (onde morreu Goethe) foi escolhida como sede do novo governo, uma República liberal que precisava guiar em país destruído pela guerra. Os primeiros anos da República de Weimar são de profunda crise interna, da qual destacamos alguns eventos:

  1. Fracasso industrial e monumental inflação;
  2. Impunidade dos assassinos políticos, que agiam em larga escala – segundo o historiador alemão Peter Gay, em seu livro A Cultura de Weimar, o fato de o novo governo não empreender uma reforma judiciária foi um dos seus grandes erros;
  3. Diversas tentativas de derrubar o governo;
  4. A “crise moral” causada pela assinatura do Tratado de Versalhes;
  5. A ocupação de Ruhr pela França;
  6. O crescimento desenfreado do fanatismo político, do anti-semitismo e da xenofobia.

Nesse caos social, a moderna centelha cultural condenada pela monarquia ganhou espaço livre para manifestar-se, e é então que temos a Bauhaus, A ópera dos três vinténsA Montanha MágicaO Gabinete do Dr. CaligariDr. MabuseNosferatuMetropolisO Anjo Azul, etc. O expressionismo nas artes deste período representava artisticamente a insegurança e as diversas crises do país, sendo o medo, o principal fantasma.

Bergman constrói com impecável riqueza de detalhes o mundo sangrento, paranoico e instável que era a Alemanha de 1923, ano em que se passa o seu filme, no período de 3 a 11 de Novembro, semana do Putsch de Munique.

O Ovo da Serpente é a história de Abel Rosenberg (David Carradine, em atuação magnífica), um trapezista judeu que vê o seu mundo desmoronar a partir do suicídio de seu irmão. Sua vida então se resume a lutar pela sobrevivência ao lado da cunhada Manuella (Liv Ullman, como sempre, fenomenal), uma cantora de cabaré.

Bergman insere em suas características autorais o mundo que se dispõe representar e com a inigualável fotografia de Sven Nykvist percorre esses mundos com sua devida aura, captadas de campos muito representativos. Um desses mundos é o do espetáculo, e assistimos as apresentações do cabaré (com Liv Ullman cantando em alemão) e de um bar-jazz em Berlim, com músicos alemães de caras pintadas de preto.

O anti-semitismo é visto desde a segunda cena do filme, quando o delegado de polícia pergunta a Abel se ele é judeu e, mais adiante, o prende como suspeito de uma série de “assassinatos brutais e misteriosos”. Em outra cena, um grupo de jovens alemães obrigam dois judeus a lavarem uma calçada com escovas, atitude ignorada pelo policial que passa e vê a cena mas não intervém. Bergman mostra com muita crueza como o anti-semitismo se espalhou pela cidade e o discurso de justificativa para esse ódio tão grande quanto o destinado aos “bolchevistas”. Através dos jornais e das batidas policiais em “estabelecimentos judeus” (o caso do cabaré onde Manuella trabalha é um exemplo), é possível identificar como o discurso anti-semita tinha força e já nos anos 1920, causava destruição, mesmo em uma Alemanha cuja forma de governo era a República.

O desemprego e a fome estão em toda parte na Berlim dos “loucos anos”. A cidade parece uma carcaça por dentro, encoberta pela arquitetura. Em uma cena chocante, vemos pessoas cortarem a carne de um cavalo morto para alimentar-se. Também acompanhamos a constante desvalorização do marco, até o ponto em que o valor impresso da moeda não importava mais e as vendas eram feitas pelo peso que se tinha em dinheiro.

A luta pela sobrevivência é a ordem a ser cumprida e o medo acompanha as ações vacilantes de uma sociedade que se decompõe. A libido se ajusta à histeria e ao desalento.

O ponto-chave e revelador da obra é quando a história das experiências com seres humanos é esclarecida, em uma das mais supremas cenas do cinema, onde a maestria do corte, do enquadramento e da direção podem ser vistas em grande estilo. Entre pequenos curtas-metragens feitos durante as “observações”, os closes descritivos em um silencioso David Carradine falam mais do que páginas e páginas de roteiro. O profético discurso final do cientista dá conta do caminho perigoso pelo qual seguia a Alemanha, e ressalta a “passividade” do povo judeu que seguia como ovelhas para o matadouro (polêmica também trabalhada por Hannah Arendt no futuro).

O desfecho do filme é a triste revelação de um indivíduo “contaminado” pela virulenta metrópole, que tem a oportunidade de sair daquele espaço mas não consegue e se perde entre pedestres e ruas molhadas pela constante chuva… para nunca mais ser visto. O realismo com que Bergman nos apresenta a Berlim de 1923 é espantoso. Os figurinos de Charlotte Fleming também merecem destaque, pela adequação dramática e imagética perfeitas. Em O Ovo da Serpente, Bergman realiza uma obra dotada de forte senso crítico-social e de uma exposição memorável da história. Com profunda força da imagem, o diretor consegue construir uma sociedade que vivia sob o medo e ainda denuncia os motivos pelos quais o futuro tenebroso falaria por si. Até mesmo a posição de alemães antinazistas é abordada, e a descrença em Hitler, por ocasião do Putsch de Munique, é verbalizada em cena simbólica.

O Ovo da Serpente é um supremo exercício cinematográfico, com atuações irreparáveis – inclusive do elenco de apoio – e com a louvável direção de Bergman, que usou de seu profundo conhecimento da alma humana para transformar em celuloide o sentimento de uma época, fazendo-o de forma única e magnífica. Um filme analítico, em todos os sentidos.

1 – Rainer Werner Fassbinder também nos legou uma gloriosa contribuição sobre o tema, em sua série para a TV, Berlin Alexanderplatz (1980), onde percorre o período com profundidade amarga através de suas personagens não menos atormentadas que o mundo onde viviam.

O Ovo da Serpente (Das Schlangenei) –  EUA/Alemanha Ocidental, 1977
Direção:
 Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman
Elenco: David Carradine, Liv Ullmann, Heinz Bennent, Gert Fröbe, Edith Heerdegen
Duração: 120min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.