Crítica | Ó Pai, Ó

Baseado na peça de Márcio Meirelles, Ó Pai, Ó funciona como episódio piloto da série de mesmo nome. O que Monique Gardenberg tenta realizar aqui é um musical mergulhado na cultura nordestina, mais especificamente de Pelourinho, em Salvador. O resultado final, no entanto, consiste em uma amálgama de canções desconexas, com personagens não apropriadamente desenvolvidos, mantendo-se no raso e no estereotipado, não fazendo jus à riqueza dessa parcela da cultura Brasileira.

De início a trama nos apresenta uma série de personagens em seus ambientes de trabalho ou expressão artística. A obra não segue uma linha narrativa linear, vai pulando de foco em foco a fim de nos oferecer uma visão mais geral desse local, como se a intenção, de fato, fosse ter o próprio Pelourinho como protagonista e não os personagens que ali vivem. Tal recurso, contudo, vem como tiro pela culatra – falha em nos envolver por não termos alguém com quem possamos, de fato, nos relacionar. Bom exemplo disso é Roque, vivido por Lázaro Ramos. O pintor, de imediato, nos atrai através de seu carisma, mas ficamos sempre ansiando por enxergar mais do personagem, ansiedade essa que jamais é sanada, ao passo que a obra falha em desenvolver o artista, limitando sua atuação a algumas canções e interações com alto teor sexual.

Claramente, Gardenberg, tanto no roteiro, quanto na direção, estabelece a sexualidade como um dos pontos centrais de sua narrativa. Tudo é erótico ao extremo, desde o encostar de um personagem em outro, até os próprios olhares, cheios de desejo. Há uma atmosfera bastante quente que preenche toda a narrativa, mas até mesmo esse fator acaba se perdendo pela falta de foco apresentada pelo longa. Sentimos como se a diretora/roteirista não soubesse muito bem encaixar as melodias de seu longa na trama, fazendo tudo parecer artificial, especialmente quando, além da música, temos a dança dos personagens, que sempre nos pega de surpresa, chegando a provocar algumas inevitáveis risadas aqui e lá.

Ajuda nossa digestão, claro, a força do elenco principal, que conta com nomes como o já mencionado Lázaro Ramos e Wagner Moura, ambos em completo domínio de seus papéis. Os atores conseguem, em certos momentos, nos fazer esquecer que seus personagens carecem de desenvolvimento, especialmente Moura, que vive o estereótipo do marginal. Sem expressão pelo textos, seus personagens vivem através dos esforços dos atores, que, de fato, convencem. Além disso, é preciso notar como todos os indivíduos que acompanhamos em tela relacionam entre si de uma forma ou outra, passando a ideia de coletividade em base constante.

Ó Pai, Ó, portanto, é uma obra repleta de falhas evidentes, mas que conta com alguns pontuais elementos que se salvam. A intenção de Monique Gardenberg em transmitir uma atmosfera sexual em uma sociedade baseada na coletividade soa atrativa, mas a execução peca pela ausência de qualquer profundidade, que mantém os personagens na simplicidade, sem, de fato, terem espaço para nos cativar. Com músicas inseridas de maneira nada orgânica na narrativa, esse é um filme que poderia ter sido muito mais, mas que permanece ao lado de inúmeras outras esquecíveis produções nacionais.

Ó Pai, Ó — Brasil, 2007
Direção:
 Monique Gardenberg
Roteiro: Monique Gardenberg
Elenco: Lázaro Ramos, Dira Paes, Wagner Moura,  Stênio Garcia, Luciana Souza, Emanuelle Araújo,  Jamile Alves
Duração: 96 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.