Crítica | O Palácio Francês

estrelas 4,5

O estilo de comédia satírica pode muito bem remeter à peças de Molière. A ridicularização recai sobretudo na figura do ministro das Relações Exteriores, Alexandre Taillard, mas o desenrolar de acontecimentos que levam às tomadas de decisão e que influem no cenário político são igualmente motivos de ironia.

O ritmo do filme segue frenético diante de situações adversas e potencialmente calamitosas. As personagens interagem de maneira a contribuir para essa sensação contínua de pressão e tensão, com alívios cômicos que servem para enfatizar a característica do gênero em que a história está inserida.

Existe ainda uma dose de devoção workaholic na trama, impulsionada pelo grau de comprometimento da equipe que negligencia a vida pessoal em prol do trabalho em tempo integral. Quem personifica bem isso é a personagem do escritor contratado para redigir os discursos do ministro.

Arthur Vlaminck (Raphaël Personnaz), recém-formado pela escola de administração enfrenta as dificuldades naturais de quem não está inserido no contexto em que atua. Isso abre espaço para inúmeros rascunhos jogados no lixo, e o fato de que o chefe é dono de uma personalidade extremamente imprevisível não facilita a tarefa de conversar com inúmeros países a respeito de inúmeros temas e abordagens em um mesmo texto.

O redator é a representação do próprio roteirista, Antonin Baudry, que é autor da famosa Graphic Novel que deu origem à versão cinematográfica. O título original Quai D’Orsay, se refere a sede do ministério. No Brasil, a fita ganhou uma nova entitulação por conta da fonografia, para facilitar a compreensão.

O chefe de gabinete do ministro, Claude Maupas é interpretado por Niels Arestrup, vencedor do César 2014 como melhor ator coadjuvante. Ele centraliza a figura pragmática e serena, que articula as decisões e resolve os impasses.

Esse filme funciona muito bem como sátira. E consegue mostrar como, a partir de uma série de absurdos e incongruências, pode-se chegar a um resultado racional, o que desagua no discurso feito pelo ministro à época, Dominique de Villepin, na ONU em 2003 contra a guerra no Iraque.

O Palácio Francês (Quai d´Orsay) – França, 2013
Direção: Bertrand Tavemier
Roteiro: Antonin Baldry
Elenco: Thierry Lhermitte, Raphael Personnaz e Niels Arestrup
Duração: 113 min

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.