Crítica | O Palhaço

estrelas 4,5

“Um homem vai ao médico. Diz que está deprimido. Que a vida parece dura e cruel. Que se sente só em um mundo ameaçador. O médico diz: ‘O tratamento é simples. O grande palhaço Pagliacci está na cidade esta noite. Vá ao show, isso deve animá-lo’. O homem se desfaz em lágrimas. E diz: ‘Mas doutor, eu sou Pagliacci.’” A “piada” acima é parte de Watchmen, graphic novel de Alan Moore (e filme de Zack Snyder), e define perfeitamente o excelente filme de Selton Mello.

O Palhaço narra a trajetória de um grupo de circo chamado “Esperança”, e seus diversos shows pelo Brasil. Nesse cenário, acompanhamos a crise de identidade sofrida pelo palhaço Bejamin (Mello), que encontra-se em dúvida sobre sua verdadeira vocação.

É esse tipo de filme que faz ter orgulho do cinema brasileiro. Selton Mello faz um trabalho quádruplo (como diretor, ator, co-roteirista e co-montador) e alcança um resultado excepcional, que passa além do ordinário e aproxima-se do status de obra-prima. Flertando constantemente com o bizarro (o que dizer daquele integrante obcecado por cabras?), Mello retrata o circo com imenso talento (a direção de arte é ótima nesse quesito) e rende uma performance carismática quando está sob a maquiagem do palhaço Pangaré – os movimentos e expressões faciais, todos perfeitos.

Mas enquanto retrata com euforia o trabalho dos artistas no palco, mostra que a realidade nos bastidores é muito menos alegre para seus integrantes. Benjamin não sabe o que é, nem o que quer fazer na vida. Ele possui sua certidão de nascimento (que comprova sua existência), mas é sempre perturbado pelo fato de não ter um registro de identidade (elemento brilhante do roteiro), que o impede de realizar alguns de seus sonhos; como o curioso apego a ventiladores. O sujeito não anda bem por dentro, e Mello representa esse lado de sua personalidade com eficiência precisa, adotando uma voz melancólica e quase silenciosa (que é perceptível até nos espetáculos de Esperança).

Tudo bem subjetivo, apostando corajosamente na força de  imagens e gestos de seus personagens. Um ótimo exemplo é a partida de Benjamin do circo, onde as expressões de tristeza dos integrantes (como Paulo José, que está excelente no papel do pai do protagonista, Valdemar), a música de Plínio Profeta e a apropriada direção de fotografia de Adrian Teijido – cuja iluminação ensolarada predomina durante quase toda a projeção – mesclam-se para gerar uma belíssima cena, sem fazer uso de qualquer diálogo. Uma aula de cinema.

Créditos também ao roteiro assinado por Mello e Marcelo Vindicato, que não só apresenta uma carga dramática pesadíssima e bem construída, como também muito senso de humor. As piadas e gags aparecem nos momentos de dificuldade da trupe (como na divertida jornada em busca de um mecânico), sempre com uma carga irônica (a genial conversa com o “delegado justo) e sem nunca recorrer a piadas “pastelões” ou de mal gosto.

Equilibrando de forma inusitada e bem construída humor e drama, O Palhaço é um excelente filme, que apresenta uma ótima história e uma execução narrativa e visual ainda melhor, alcançando uma conclusão de encher os olhos. Mais um marco para o cinema nacional contemporâneo.

O Palhaço (Brasil, 2011)

Direção: Selton Mello
Roteiro: Selton Mello e Marcelo Vindicato
Elenco: Selton Mello, Paulo José, Larissa Manoela, Giselle Motta, Teuda Bara, Álamo Facó, Cadú Fávero
Duração: 88 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.