Crítica | O Pão e o Beco

estrelas 5,0

A linguagem cinematográfica, no curta-metragem O Pão e o Beco, é utilizada essencialmente como um meio para comunicar contrastes. Logo de início, temos um garoto pobre que brinca de jogar bola (por bola, leia-se: lata) ao mesmo tempo em que ouvimos uma animada canção dos Beatles em versão instrumental. Está exposta então uma realidade dura, suavizada pela “fome de brincar” do menino — e comentada, ironicamente, pela canção dos Beatles. O diretor Abbas Kiarostami utiliza-se dos recursos cinematográficos que estão à sua disposição para comunicar, sem deixar-se cair na “prisão do diálogo”. A câmera segue o personagem pelas ruas, e não se preocupa em estilizar a pobreza ou fazer comentários complexos através da mise-en-scène. Não. A simples trajetória do personagem é o que nos conduz – e também o que cria significados.

Dito isto, é importante destacar que, enquanto o menino caminha pelas ruas, tudo e todos passam por ele — passam no sentido mais cruel da palavra: passam com indiferença. E o menino, e sua pobreza, e sua ingenuidade, são pisoteados pelos transeuntes. No fim das contas, é o diretor e sua câmera — além de nós, espectadores, é claro — que se preocupa em observar aquele menino de perto. A beleza do filme reside justamente aí: pode parecer que não, mas há alguém que enxerga o pobre personagem. E, quando paramos pra pensar que dentro deste universo do “alguém observando” estamos nós… tudo se revela ainda mais belo e poético.

Temos, além do menino, outros dois personagens de destaque. São eles: o velho que o menino passa a seguir pelas ruas e o cachorro que, logo nos minutos iniciais, assusta a pobre criança. Pois vejam só, o cachorro também não lhe é indiferente. O velho, ah, esse é. Ele nem sequer percebe a presença do menino. Ficam as questões: o quão desumano pode ser o ser humano? E o quão humano pode ser quem não é, nem nunca será, humano? O cachorro só assusta o menino porque se importa com ele. Mas, assim como o menino vê o velho que ele segue fechando a porta de sua casa, com indiferença; o cachorro vê a porta da casa do menino se fechando diante de seus olhos.

Mais uma questão: quando quem sofre com a indiferença mostra-se capaz de ser, também, indiferente, o que sobra da humanidade? Do lado de fora, o outro é sempre desimportante.

Assim, Kiarostami finaliza o filme. A narrativa, aparentemente simples, revela-se complexa e cíclica: o cachorro, do lado de fora, encontra outro menino para assustar. A rua é mais assustadora do que aparenta ser — e não é por causa do cachorro.

* Texto escrito no dia 10/06/2016 durante a Oficina de Crítica do Festival Varilux de Cinema Francês, sob orientação de Jean-Michel Frodon.

O Pão e o Beco (Nan va Koutcheh) — Irã, 1970
Direção: Abbas Kiarostami
Roteiro: Abbas Kiarostami
Duração: 10 min.

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).