Crítica | O Pássaro das Plumas de Cristal

estrelas 4

O cinema italiano trouxe ao mundo o neorrealismo, revisou o western americano com o western spaghetti, teve sua fase do telefone branco, do cinema político, autoral, e inventou um gênero, trazido dos romances policiais: o giallo — amarelo, em italiano, a cor da capa dos livros de mistério, em especial, de Edgar Wallace.

Nos filmes giallo, temos o suspense embebido no sangue de mortes seriais e violentas, câmeras “onipresentes” que observam tudo de todos os ângulos possíveis (e impossíveis) mas só revelam o necessário; trilha sonora em estridente contraponto ou irônica justaposição à imagem, e atmosfera que beira o terror (na maioria das vezes adentrando a esse território).

Em 1970, o jovem Dario Argento, então com 24 anos de idade, fez a sua estreia em longas-metragens e lançou as regras e a obra definitiva do giallo, praticamente inventando-o, com O Pássaro das Plumas de Cristal, uma adaptação não autorizada do romance The Screaming Mimi, de Frederic Brown.

O roteiro não é um primor de inovação e originalidade, sendo até clichê em algumas escolhas para dar partida às dúvidas que geram o suspense, mas as lições de Mário Bava (cineasta-gênese do terror-giallo na Itália) e Alfred Hitchcock, parecem ter sido bem estudadas por Argento, porque sua direção escrupulosa consegue superar qualquer indício de “mais do mesmo”.

Sam Dalmas é um escritor americano que chegou a Roma em busca de inspiração para escrever, mas não consegue produzir uma linha sequer. Em uma de suas últimas noites na cidade, ele é testemunha ocular de uma tentativa de assassinato em uma galeria de arte. A polícia o investiga exaustivamente e decide deixá-lo partir, mas a intriga do crime persegue o escritor, que opta por ficar em Roma mais algumas semanas a fim de investigar ele mesmo o crime. As reviravoltas e o meticuloso processo de construção dessa história tornaram o filme uma referência do giallo e até mesmo do suspense na história do cinema. Dario Argento faz bom uso das lições hitchcockianas, algo que aperfeiçoaria durante sua carreira, principalmente o olhar para o melhor lugar onde colocar a câmera.

Além desse deslizar fantasmagórico da câmera do cineasta, o apurado uso da cor em contraste e de luvas pretas na personagem vilã, são características recorrentes em seus filmes.

A segunda sequência de O Pássaro das Plumas de Cristal, tem o mesmo efeito sobre o espectador que a cena de abertura de O Bebê de Rosemary (Roman Polanski, 1968), com uma melodia que lembra muito uma canção de ninar. É a primeira distração que o diretor usa no filme. Após uma abertura descritiva que completará o perfil da personagem vilã ao fim da trama, somos ninados pelos cliques de uma câmera fotográfica que captura o andar de uma bela jovem pelas ruas de Roma. Durante toda a projeção, as vítimas ou possíveis vítimas serão apresentadas antes, numa espécie de Crônica de Uma Morte Anunciada que serve como um catalisador de emoções no espectador.

A música de Ennio Morricone (que assinou a trilha sonora de outros quatro filmes de Dario Argento, a saber, O Gato de 9 Caudas4 Moscas no Veludo CinzaA síndrome de Stendhal e O Fantasma da Ópera) é marcante, cria o suspense e a atmosfera de terror necessários para a violência de teor sexual que vemos desenrolar-se. A música parece circular o núcleo da violência que vem à tona após a venda de um quadro naïf, com uma cena de abuso sexual. Mas a trilha sonora não tem apenas o mérito de engrandecer o medo, ela também dá identidade às personagens em algumas sequências, servindo como um guia para o espectador que não sabe por onde seguir e de quem suspeitar pelos assassinatos.

Vittorio Storaro não realiza, aqui, um dos seus melhores trabalhos, mas sua predileção pelo uso de sombras e ambientes escuros reserva momentos de boa atmosfera de terror e angústia. O uso de cores quentes, também muito apreciado pelo caravaggiano diretor de fotografia, surge aqui de dois modos: direto, quando temos, por exemplo, um primeiro plano em um veludo vermelho que cobre a maleta de facas do assassino; e indireto, espalhados pelo cenário, especialmente nos ambientes internos.

Há uma paciência quase incômoda na edição do filme e uma fluidez livre de tempos mortos engrossada pela massa de fotogramas congelados e multiplanos de uma mesma cena que todo o tempo se altera. Como resultado das várias visões para o mesmo acontecimento cênico, nossa impressão sobre o todo também se altera constantemente — processo narrativo hoje muito usado por séries de TV do tipo CSI.

A direção de Argento parece concentrar-se mais em Tony Musante do que nos outros atores, o que explica sua ótima performance como Sam Dalmas, em oposição às medianas aparições do restante do elenco. No que se refere ao filme como produto, é inegável que o diretor tem no gene a marca do cinema (seu pai, Salvatore Argento, era produtor de cinema e financiou esta primeira obra do filho). Para um filme de estreia que se destina a um gênero tão difícil de ser bem articulado, Dario Argento conseguiu mais do que fixar uma nova linguagem, ele conseguiu um produto original e livre de amarras formais muito comuns em alguns estreantes que relutam em experimentar. O final imprevisível do filme e sua enorme ironia (é difícil querer aceitar o que realmente se viu), causam aquele estado de torpor próprio de uma película que teve o mérito de nos fazer acreditar em algo, e depois nos mostrar que críamos no que era falso.

O tropeço do diretor vem com o fim do filme. Se durante todo o tempo, dos assassinatos às explicações e buscas, tudo houvera sido pausadamente trabalhado, as sequências finais se atropelam no ritmo em relação ao todo. Não que sejam ruins, aliás, há uma ótima referência visual à queda da personagem ocorrida em Janela Indiscreta (Hitchcock, 1954), e todo o resto é plasmado a contento. O que incomoda são as enormes mudanças de ritmo, situação que abre espaço para deixas esburacadas do roteiro, até ali, disfarçadas pela boa direção e montagem. Mesmo assim, o brilho da obra não se ofusca e o todo nos faz esquecer a parte frágil, levando-nos à conclusão óbvia: de tão incomum, o filme é realmente genial.

O Pássaro das Plumas de Cristal (L’ucello dalle piume di cristallo, Itália, Alemanha Ocidental, 1970)
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento, Fredric Brown
Elenco: Tony Musante, Suzy Kendall, Mario Adorf, Enrico Maria Salerno, Eva Renzi, Umberto Raho, Renato Romano, Giuseppe Castellano, Omar Bonaro
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.