Crítica | O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry‏

o pequeno principe

estrelas 5,0

Antoine de Saint-Exupéry teve uma vida relativamente curta e agitada. Ele morreu aos 44 anos, em serviço, enquanto tentava obter dados do avanço das tropas nazistas na região do Rio Ródano, entre a Suíça e França. Os destroços de seu avião foram encontrados a poucos quilômetros da costa de Marselha, em 2004, 60 anos depois do acidente, mas o corpo do piloto, escritor e pintor que estava no comando, jamais foi encontrado.

Apaixonado por mecânica e desde jovem ligado à aviação, Saint-Exupéry passou a maior parte de sua vida adulta pilotando. Aos 21 anos entrou para o 2º Regimento de Aviação de Estrasburgo (França). No ano seguinte já era Subtenente na Reserva Francesa em Rabat (Marrocos). Aos 26 anos passou a voar pela pioneira Aéropostale. Esteve nos Estados Unidos e no Canadá e em diversas missões no Marrocos até juntar-se às Forças Francesas Livres para lutar na II Guerra Mundial.

Não é de se espantar, portanto, que a obra literária de Saint-Exupéry esteja ligada às suas experiências como piloto, seja com temáticas sobre seu ofício, propriamente dito — tema de seu primeiro livro, O Aviador, de 1926 –, seja sobre coisas relacionadas a essa ocupação, tema de seu segundo e terceiro livros, Correio do Sul (1929) e Voo Noturno (1931).

Saint-Exupery

Antes de O Pequeno Príncipe nascer haveriam ainda Terra dos Homens (1939, um livro de memórias) e Piloto de Guerra (1942), até que no ano seguinte viesse à tona a história de um piloto que cai no deserto, passa alguns dias racionando água e comida até consertar o avião e, nesse meio tempo, imagina ter encontrado e feito amizade com uma das criaturinhas mais incríveis da literatura.

Já é de amplo conhecimento popular que a história de O Pequeno Príncipe é “para crianças – só que não”.

Na verdade é uma história universal. Uma criança ou adolescente lerá o livro e possivelmente terá uma visão mais fantasiosa e afetuosa da obra, da amizade entre o piloto e o princepezinho. Certamente vai rir das pessoas grandes e comparar os pais ou professores aos solitários habitantes dos planetas visitados pelo protagonista.

Um adulto que se aventurar por essas páginas, no entanto, tende a atentar menos do tom fantasioso e mais das lições de vida e reflexões sobre a passagem do tempo, a disposição afetiva, a inevitabilidade da morte, o desalento de não ser inocente o bastante para levar a sério da piada da jiboia digerindo um elefante, a angústia de chegar ao núcleo da narrativa, que nos mostra como perdemos tempo com ninharias, como deixamos de dar valor ao que merece e como largamos oportunidades únicas de convívio e laços humanos ao longo da vida.

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Com esse pensamento é que me espanta que muitos adultos ainda defendam O Pequeno Príncipe como um livro “unicamente infantil” ou mesmo (para minha tristeza, na pesquisa para esta crítica, achei referências a isso na internet) um livro de autoajuda. Sério? Autoajuda? O Pequeno Príncipe? É preciso ter um xaxim no lugar do cérebro para tomar este livro como uma obra de autoajuda. Porque O Pequeno Príncipe, apesar de belo e muitas vezes fofo, é um livro muito triste, com uma abordagem tendendo para o existencialismo e com colocações extremamente reflexivas para o que conhecemos de fábula. Ser “eternamente responsável por aquilo que cativas” é uma tremenda responsabilidade que não só traz alegria não. Traz um dever bem difícil de manter. Ou será que o querido leitor nunca decepcionou ou feriu alguém que ama ou por quem é amado?

Não quero tirar a camada inocente, infantil do livro. O próprio Saint-Exupéry fez questão de mantê-la viva ao longo da narrativa, especialmente no deslocamento do protagonista, etéreo, surpreendente e que não precisa de explicações racionais. Nada disso. A visão é que existe um abismo galático entre ter uma visão infantil da obra e tomá-la como autoajuda (neste último caso, seria desclassificar absolutamente todas as chamadas do autor para olhar para si mesmo e para o “eu dos outros” e tentar ver o que está invisível aos olhos, o essencial). Pensar sobre si, julgar-se a si mesmo, como o Rei propõe ao príncipe, não é uma tarefa reconfortante. Tentar não ser como os ignorantes orgulhosos da obra é uma luta frequente, incômoda e bastante dolorosa.

Fugir da vaidade egoísta da rosa; da constante ameaça impulsiva de um “vulcão inativo”; de ver um vício-Baobá crescer e tomar conta de tudo; de viver ao invés de teorizar sobre as coisas, como o Geográfo ou prender-se a um cronograma que nos impeça de descansar, como o acendedor de lampiões, não é algo fácil. E é essa metáfora da vida, da luta constante pela vida que (também!) está em O Pequeno Príncipe. Veja que não existe resposta pronta, “receita de bolo” ou desafios do tipo “siga o modelo e seja feliz”. Por isso eu acho o livro um dos mais interessantes “primeiros passos para autoanálise”. Nada de autoajuda. E aquela história de relê-lo ao longo dos anos e entender ou atentar para coisas diferentes é sim uma grande verdade. Eu, toda vez que o [re]leio fico assim, com pensamentos agridoces sobre o mundo à minha volta.

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A fama e as adaptações do livro para mídias como cinema – destaque para as versões de Stanley Donen e Mark Osborne –, teatro, ópera, TV, balé, quadrinhos e audiodramas é justificada. O Pequeno Príncipe tem a capacidade incrível de tirar de nós um pouquinho de cada fase da vida, relembrar-nos de valores que o cotidiano nos faz esquecer e nos deixar pensativos, tristes mas muito felizes após a separação que temos ao final. Sim, a separação. A última e valiosa lição da obra, esta, entendida por todas as idades. Em algum momento, tudo acaba. E é a lembrança deixada por este algo ou alguém que parte que nos dirá se ele foi do tipo que cativou pessoas ou apenas um cogumelo.

Alternando os pontos de vista, os caminhos das histórias individuais e criando situações para que os personagens se encontrem em três categorias distintas (necessidade emocional, resistência ao novo e amadurecimento), o autor conseguiu criar uma obra que é válida para um grande número de interpretações, todas elas ligadas a um olhar mais profundo e mais simples — por que não? — sobre si mesmo, sobre os outros e sobre o mundo. O Pequeno Príncipe é um dos livros mais fofos, filosóficos, tristes, ternos e alegres (assim mesmo, com paradoxos e tudo) que uma pessoa grande foi capaz de escrever. Um livro que faz jus à sua longevidade e que definitivamente soube cativar as pessoas.

O Pequeno Príncipe (Le Petit Prince) – França, 1943
Autor:
Antoine de Saint-Exupéry
Editora original: Éditions Gallimard
No Brasil: Editora Agir
Tradução: Dom Marcos Barbosa
96 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.