Crítica | O Pequeno Príncipe (2015)

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estrelas 4

O Pequeno Príncipe faz parte do imaginário popular de muita gente. É um dos livros mais lidos do mundo, traduzido para todos os idiomas possíveis e volta e meia vemos suas frases postadas em redes sociais de forma motivacional (leia o que achamos desse clássico da literatura aqui). Além disso, quase todos nós já tivemos acesso à obra do francês Antoine Saint-Exupéry, que já foi associada até a concurso de miss. Sendo assim, não seria uma tarefa fácil adaptar as páginas escritas, e ilustradas pelo próprio autor para o cinema. Na década de 70, o diretor Stanley Donen tentou reproduzir a história com atores reais sem muito sucesso (leia a crítica desse filme aqui). Então, qual seria o motivo (além do financeiro, é claro) fazer mais uma adaptação para a telona? Segundo Mark Osborne (diretor do divertido Kung fu Panda) o novo filme quer mostrar para essa nova geração, para as crianças de hoje, a importância dessa obra-prima da literatura infanto-juvenil. Nessa tarefa, devo admitir, Obsorne se sai muito bem.

Neste O Pequeno Príncipe a história original se mistura com uma criada pelos roteiristas Irena Brignull (Os Boxtrolls) e Bob Persichetti (que estreia como roteirista depois de anos trabalhando no departamento de animação da Disney). Nela, uma menina vive rodeada de imposições colocadas por sua mãe, uma mulher que vê na filha uma menina prodígio. Em busca de colocar a menina na melhor escola da cidade, a mãe define metas e faz um plano de vida da garota, com horários rígidos para o estudo e outras atividades que serão essenciais para que ela passe no exame de admissão.

A menina, confusa com as escolhas que a mãe faz para a sua própria vida, acaba embarcando em uma aventura que nada tem a ver com o plano que sua mãe traçou para ela. No meio do caminho, ela se perde para então se encontrar. Quando o vizinho, um velho piloto de avião, invade sua casa com uma das hélices da máquina, a menina curiosa inicia uma amizade pouco convencional, mas já vista em outras animações (sim, estamos falando de Up – Altas Aventuras). O diretor mesmo admitiu em entrevistas que se inspirou na obra da Pixar para O Pequeno Príncipe. As semelhanças não chegam a incomodar, já que tirando a idade dos protagonistas as histórias são bem diferentes.

Tirado como louco por toda a vizinhança, o piloto busca alguém para contar uma aventura que viveu anos atrás quando seu avião caiu no deserto e lá ele conheceu um príncipe, de cabelos muito claros que vivia em um asteroide muito longe da terra. Sua vida era motivada por isso, encontrar uma pessoa para contar suas memórias já a velhice chegara e um dia todos vão embora. A menina, mesmo sem saber, buscava ser criança apenas e fugir das amarras do mundo dos adultos que tomavam sua vida mesmo antes do tempo. Assim ela encontra um amigo e um livro, que mudará sua vida para sempre.

Mark Osborne opta por contar trechos quase que na íntegra da obra de Antoine de Saint-Exupéry. Nesses momentos, o diretor opta pela animação em stop motion que dá ao longa um ar delicado, quase poético em alguns momentos. Todas as famosas frases da obra do francês são citadas. As cenas do príncipe no deserto e explorando o universo de asteroide em asteroide são lindas e feitas com capricho.

Só no final que o filme se perde um pouco. Quando o diretor opta por misturar os dois mundos, a história criada pelos roteiristas e a obra original, o espectador fica um pouco perdido e por pouco todo o trabalho não vai por água abaixo. O filme chega ao Brasil com cópias dubladas e legendadas. Na versão dublada as vozes do piloto e da menina ficam por conta do experiente Marcos Caruso e da jovem atriz Larissa Manoela, a Maria Joaquina de Carrossel, respectivamente. O trabalho de ambos é ótimo e aos poucos você esquece que conhece aquelas vozes de algum lugar. Na versão original, Jeff “The Dude” Bridges  e Mackenzie Fox, a filha de Bella e Edward da Saga Crepúsculo, emprestam suas vozes aos protagonistas.

Mas o afinal o que fica mesmo é o sentimento de que virar adulto é mesmo uma coisa muito chata e pedante. Talvez esse seja a principal mensagem do filme: como nós, que um dia fomos crianças cheias de sonhos e imaginários, nos tornamos adultos tão atarefados, com pouco tempo para fazermos aquilo que realmente é importante, aquilo que é essencial. Talvez nesse sentido o filme irá tocar mais os pais do que os próprios filhos.

Se O Pequeno Príncipe é um livro essencial na sua vida ou você é apenas emotivo como eu leve lenços de papel, é possível que você precise. Também é provável que você saia do cinema com vontade de desenterrar o livro do fundo do baú, e mais, de trazer de volta aquela criança que, muitas vezes deixamos esquecida dentro de nós. O filme vale o ingresso, a pipoca e também o 3D, já que as cenas em stop motion ficam ainda mais lindas de serem contempladas com essa tecnologia.

Ao final, parece que o livro escrito lá em 1943 nunca foi tão atual. “O essencial é invisível aos olhos” é uma frase que cai como uma luva para refletirmos sobre esse mundo tão cheios de selfie, redes sociais, ostentação e individualismo.

Antoine de Saint-Exupéry no Brasil

Existem relatos de que o escritor francês esteve em terras brasileiras. Mais precisamente em Florianópolis, onde hoje fica a Praia do Campeche, que inclusive tem uma rua chamada Pequeno Príncipe. O ano era 1923 e Saint-Exupéry era funcionário dos correios franceses. Como piloto fazia pequenas escalas no Brasil na recém criada rota para a França. Florianópolis era uma das cidades onde funcionavam um dos postos de abastecimento para as aeronaves.

Saint-Exupéry pousou diversas vezes no campo de aviação da capital catarinense, que continua preservado. Ali conheceu Deca, pescador de quem se tornou amigo. Sem conseguir pronunciar o nome do francês, Deca passou a chamá-lo de “Zeperri”. A história rendeu um pequeno memorial sobre o escritor no local que apresenta uma exposição permanente com 24 pôsteres vindos da França, além de outras quatro gravuras contando a história de Exupéry em Florianópolis.
Observação: o filme foi visto em cópia dublada.

O Pequeno Príncipe – “The Little Prince”, EUA/França – 2015
Direção: Mark Osborne
Roteiro:  Irena Brignull e Bob Persichetti, baseado na obra do autor Antoine de Saint-Exupéry
Elenco: Versão legendada –  Mackenzie Foy, Jeff Bridges, Rachel McAdams, James Franco, Marion Cotillard, Benicio Del Toro, Ricky Gervais, Paul Rudd, Albert Brooks e Paul Giamatti. Versão dublada – Larissa Manoela e Marcos Caruso
Duração: 106 min.

GISELE SANTOS . . Gaúcha de nascimento, mas que não curte bairrismos nem chimarrão! Me encantei pelo cinema ainda criança e a paixão só cresceu ao longo dos anos. O top 1 da vida é "Cidadão Kane", mas tenho uma dificuldade enorme de listar os melhores filmes da minha vida. De uns anos para cá, os filmes alternativos têm ganhado espaço neste coração que um dia já foi ocupado apenas por blockbusters pipoquentos.