Crítica | O Peso do Silêncio

estrelas 5,0

Há muito o que escrever sobre O Peso do Silêncio. O documentário é história acontecendo agora, mas de maneira diferente de outros como The Square ou Winter on Fire. É um olhar para trás, mas que não perde de vista o presente e o futuro, ambos enquadrados de maneira simplesmente aterradora. Há muito mesmo o que escrever, mas o embrulho no estômago que qualquer um sentiria após O Peso do Silêncio impede muitas elucubrações, muito raciocínio crítico fora do instinto que só sente repugnância e horror pelos 104 minutos de projeção, horror esse que não é nem uma bilionésimo de um átomo do que aconteceu na Indonésia entre 1965 e 1966 com o golpe de estado de ultra-direita que derrubou Sukarno e colocou Suharto no governo.

E este é o governo que, sem grandes alterações, continua no poder até hoje, em plena segunda década do século XXI, tornando este documentário urgente de sua maneira, pois Joshua Oppenheimer, o corajoso diretor texano que dedicou anos de sua vida a este projeto, aborda o drama humano como um  aviso, como uma demonstração que o horror ainda não acabou e pode voltar com força total. E o aviso não é só para a Indonésia e sim para qualquer país com instabilidades, seja de que lado do espectro político for.

Com seu angustiante e surpreendente O Ato de Matar, de 2012, Oppenheimer trouxe o genocídio pelo ponto de vista dos carrascos, dos assassinos cruéis responsáveis por centenas de mortes em reencenamentos macabros feitos pelos próprios como se fosse a coisa mais comum do mundo. Quem assistiu o documentário irmão de O Peso do Silêncio não o esqueceu e, assim como eu, hesitará ao máximo em embarcar na “segunda parte”.

O Peso do Silêncio olha pelo outro lado, o das vítimas, focando exclusivamente em uma família. Quando a projeção começa, vemos um senhor muito idoso e fragilizado – cego, quase completamente surdo e com dificuldade de se locomover – sendo cuidado por sua também idosa esposa. Seu filho mais velho, Ramli, fora assassinado durante o expurgo dos “comunistas” que aconteceu por todo o país e Oppenheimer, usando o irmão de Ramli, Adi, como a voz e o rosto das entrevistas, conduz uma excruciante jornada pelos confins do inacreditável.

Adi, tentando ao máximo esconder suas emoções, usa sua profissão de optometrista para ter acesso aos assassinos sob o comando de Suharto, hoje também idosos e esquecidos. Só para se ter uma ideia, um dos líderes do chamado esquadrão da morte da região onde Adi vive, apesar de perturbado pelas perguntas, afirma categoricamente que só não ficou louco com os assassinatos perpetrados, pois bebeu o sangue de suas vítimas. E não, ele não fala em sentido figurado. Pare um pouco e reflita. Consegue captar a enormidade de uma afirmação como essa? Pois tenho grande dificuldade de processar ou classificar essa revelação que, aliás, é corroborada por outro carrasco mais ao final da fita, para surpresa e horror de sua filha, bem ao lado, que aparentemente considerava seu pai um herói.

Ao longo do desenrolar da obra, Adi descobre – em filmagens anteriores feitas por Oppenheimer, que são mostradas em VT para ele em momentos encenados, mas que não detraem da experiência – os detalhes de como seu irmão (que jamais conheceu) foi morto. Cada detalhe horrível que nenhum filme de terror teria coragem de mostrar. E, ouvindo da boca dos carrascos – rindo, claramente divertindo-se com o reencenamento – a conclusão a que se chega é quase destruidora, niilista, na linha de que a raça humana não tem jeito mesmo e o melhor é acabar com todo mundo e recomeçar.

Mas a esperança vem justamente pela existência de um documentário (um par, na verdade) como este e da forma sentida, mas elegante que Adi tudo enfrenta, procurando formas de perdoar os assassinos. É incrível ver esse homem, entre momentos carinhosos com os pais e com os filhos, lidar com a escória da humanidade como ele lida.

Em termos formais, o documentário claramente – como poderia ser diferente? – condena o massacre e o governo indonésio ainda no poder. Ele não entra em aspectos políticos fora do ódio polarizante aos “comunistas” insuflado pelo governo e foca realmente nas relações humanas, no conflito literal entre vizinhos, entre familiares até, em um microcosmo de algo em gigantesca escala (calcula-se que mais de um milhão de pessoas tenham sido assassinadas em pouco mais de um ano), mas procurando um saída, uma maneira de ver o lado positivo.

É muito interessante como Oppenheimer usa a profissão de Adi para metaforizar toda a narrativa. Ao focar nos assassinos usando as lentes medidoras de grau, com Adi pacientemente fazendo suas perguntas, é como se olhos fossem abertos, olhos para o passado e também para o presente e futuro, olhos que desnudam a verdade a cada palavra dita. E os olhos cegos do pai de Adi e inevitavelmente entristecidos de sua mãe só acrescentam camadas ao trabalho documental, que ganha contornos surrealistas inesquecíveis.

Estruturalmente, O Peso do Silêncio é infinitamente melhor que O Ato de Matar, com uma narrativa que flui com perfeição do começo ao fim, tragando o espectador para um mundo que desafia definições e que liga o alerta máximo para a raça humana. Oppenheimer não consegue o efeito devastador final de seu outro documentário, mas, em compensação, O Peso do Silêncio não depende de um caso fortuito para realmente funcionar e parece muito mais amarrado e lógico do que seu trabalho anterior. Por essa razão, a mensagem, aqui, consegue ser ainda mais contundente, ainda mais destruidora, ainda mais incômoda.

Sei que disse que não conseguiria escrever muito em razão do quanto este documentário me afetou, mas, mesmo assim, as palavras fluíram e meu testemunho (ou crítica, não sei) ficou maior do que previa. Mas isso pouco interessa. O que realmente importa é que O Peso do Silêncio seja assistindo e divulgado. Ainda que os monstros entrevistados afirmem e reafirmem que “o passado é passado”, saibam que ele não poderia ser mais presente e, infelizmente, muito provavelmente futuro.

O Peso do Silêncio (The Look of Silence, Dinamarca/Indonésia/Finlândia/Noruega/Reino Unido/Israel/França/EUA/Alemanha/Holanda – 2014)
Direção: Joshua Oppenheimer
Com: Adi Rukun, M.Y. Basrun, Amir Hasan,  Inong, Kemat, Joshua Oppenheimer, Amir Siahaan, Ted Yates
Duração: 104 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.