Crítica | O Pianista

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estrelas 5,0

“Sofrimento, de certo modo, deixa de ser sofrimento no instante em que se encontra um sentido, como o sentido de um sacrifício.”
Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl.

Wladislaw Szpilman foi um famoso pianista polonês, conhecido tanto por suas apaixonadas interpretações de Fréderic Chopin, como por sua história de profunda dor durante a Segunda Guerra Mundial. A história tornou-se uma belíssima obra cinematográfica (baseada no livro homônimo), dirigida por Roman Polanski em 2002. O Pianista conquistou público e crítica e guarda em seus 148 minutos um emocionante relato da devastação impingida ao povo polonês durante o Holocausto. Abordando um tema extremamente desgastado, mas com uma competência singular, o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes daquele ano já pode ser considerado um dos grandes clássicos do cinema do século XXI, tanto por sua execução muito correta (méritos para o sempre talentoso Polanski) como pela pungência da história em si.

Na introdução, após breves imagens de época de Varsósia, Szpilman (Adrien Brody) surge ao piano, interpretando o noturno póstumo em dó sustenido menor e presenteando o público com o maravilhoso cantabile chopiniano. As bombas caem sobre a cidade, mas o artista permanece resoluto a tocar a obra até o fim. Os pedidos do dono da rádio para que pare de tocar não são atendidos e, somente quando o local é atingido, ele interrompe. A ideia de que a arte é o grande sentido da vida do pianista polonês, a ponto de ele arriscar-se em um bombardeio para cumprir seu papel de artista, já está bastante evidente desde esta primeira cena. A música como bússola a orientar toda a sua vida, mesmo nos momentos mais sombrios, é o que dará o tom de todo o longa-metragem.

Acerca desse noturno, conta-se ainda que foi tocado por Natalia Karp, uma outra pianista polonesa, prisioneira do gueto de Cracóvia durante o mesmo período. O comandante do gueto – Amon Goeth – poupou sua vida nesse dia, emocionado com sua interpretação da peça. Uma cena semelhante aparece também em O Pianista e tratarei dela mais à frente. É interessante também comentar historicamente que os nazistas retiraram a urna que guarda o coração de Chopin de um dos pilares da Igreja de Santa Cruz, em Varsóvia, para que não sofresse danos durante os combates e bombardeios. O respeito à música de Chopin até pelos nazistas e histórias como as de Szpilman e Karp tornam muito pertinente a escolha desse compositor e desse noturno em específico como tema principal do filme.

A formação do gueto de Varsóvia é o pano de fundo da história de Wladislaw Szpilman e sua família. Uma sequência de cenas retratam os horrores desse tempo. Um menino em desespero chama pelo pai, que está em seu colo, morto há muitas horas, dado o livor mortis já marcando sua pele. Judeus são humilhados em praça pública pelos soldados nazistas. Um menino é salvo pelo protagonista ao tentar atravessar a muralha do gueto, sendo espancado até desmaiar. A pior cena, todavia, ocorre em uma noite em que vários judeus são mortos sem qualquer piedade, ficando os corpos jogados indignamente no meio da rua. Vemos os judeus poloneses sendo arrancados de suas casas, de seus empregos e, por fim, de suas próprias famílias.

A solidão de Szpilman após ser apartado de toda a sua família é desoladora. Ele passa boa parte do filme sozinho, vagando dentro dos limites do gueto, fugindo da destruição e do morticínio e tentando uma salvação improvável. A interpretação de Adrien Brody é soberba, construindo um personagem gentil, sensível e que resiste com bravura a todo o seu infortúnio. Ele conta com ajuda de amigos para sobreviver, mas a maior fonte de sua força parece ser mesmo a sua música. Isso fica mais uma vez claro quando ele se senta ao piano, sem poder tocá-lo, e seus dedos executam no ar as notas da Grande Polonaise Brilhante, de Chopin.

Tecnicamente, o filme se sai tão bem quanto na abordagem de seu conteúdo. As locações onde foram filmadas as cenas do gueto foram extraordinariamente bem escolhidas, inclusive se optando por regiões de Varsóvia que preservavam a arquitetura original dos temos da guerra. A fotografia é seca, dura e não tenta, em nenhum momento, criar cores que atenuem o sentido da catástrofe indescritível que se vê. Os efeitos visuais são utilizados na medida certa, sem comprometer o filme ou esconder falta de ideias. A direção cheia de intimismo de Roman Polanski é também muito sóbria e não aposta em espalhafatos ou virtuosismos, que estragariam a gravidade e a força de seu relato. Cabe lembrar que os pais de Polanski foram mandados aos campos de concentração durante o Holocausto e tratar da história de Wladislaw Szpilman é reencontrar-se com uma parte dolorosa de sua própria história.

Duas cenas de O Pianista destacam-se, em minha opinião, pela beleza técnica da direção. Após separar-se de sua família, a qual fora mandada nos trens para Treblinka, o protagonista anda pelas ruas abandonadas do gueto, abarrotadas de objetos espalhados por toda parte. Szpilman caminha aos prantos e Polanski o mantém em um cruel plano frontal, enquanto caminha com a câmera para acompanhar seus passos. A cena traz uma interessante sensação de profundidade, que só faz aumentar a desolação do personagem, emocionalmente tão destroçado quanto as longas e profundas ruas pelas quais caminha.

Outra cena, possivelmente a mais bela de todo o filme, ocorre quando o músico é descoberto em seu esconderijo por um oficial alemão. Ao dizer que é um pianista, o nazista pede que ele toque algo no velho piano que o local abriga. Sua interpretação da tempestuosa Balada Nº1 de Chopin, uma obra com matizes que vão da melancolia à cólera mais densa, comove o oficial e ele resolve ajudá-lo. Szpilman diz tudo o que precisa ser dito por meio de sua música e a figura errante, quase espectral, na qual se transformou, enche-se de uma impressionante vitalidade quando se senta ao piano para transformar dor em música.

O ensaísta e filósofo Walter Benjamin estudava arduamente a poesia de Charles Baudelaire enquanto o nazismo avançava sobre a Europa. Enquanto o totalitarismo batia à sua porta, Benjamin dedicava-se à leitura de As Flores do Mal e fazia isso como um ato de rebeldia contra o nazismo. Penso que a mensagem mais possante de O Pianista, o melhor trabalho de Roman Polanski, é bastante semelhante àquela presente no ato do filósofo alemão. Wladislaw Szpilman faz de sua arte um grande manifesto de resistência à brutalidade da guerra e às inúmeras sevícias praticadas contra os judeus poloneses. Ele não resiste ao horror de seu tempo por meio de armas, mas resiste através das notas de seu instrumento. A história do pianista, que morreria aos 88 anos em Varsóvia, traz a arte sobretudo como um grande e inesquecível manifesto humanitário.

O Pianista (The Pianist) —França/ Reino Unido/ Alemanha/ Polônia, 2002.
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Ronald Harwood
Elenco: Adrien Brody, Thomas Kretschman, Emilia Fox, Adam Bauman, Andrew Tiernan, Andrzej Blumenfeld
Duração: 148 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.