Crítica | O Piano

No ano de 1993, Jane Campion entrou para a história como a primeira mulher a vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes com este O Piano (prêmio compartilhado com Adeus, Minha Concubina). A atriz Holly Hunter também venceu, como melhor atriz. Um ano depois, em 1994, Campion tornou-se a segunda mulher a concorrer na entrega do Oscar ao prêmio de direção. O filme venceu em 3 categorias das 8 a que concorria. Campion perdeu o de direção para Steven Spielberg por A Lista de Schindler, mas ganhou como melhor roteiro original. Somente em 2010 uma mulher levaria a estatueta de direção (uma categoria em que até hoje somente 4 mulheres foram indicadas – além de Jane Campion, Lina Wertmuller, Sofia Coppola e a única vencedora, Kathryn Bigelow, dirigindo um filme de guerra).

O mundo do cinema definitivamente é um mundo dominado pelos homens, onde as mulheres ocupam, além dos papéis como atriz, atividades ainda tidas – numa mentalidade machista – como próprias a elas: figurinos, direção de arte e montagem. É raro vermos uma trilha sonora composta por uma mulher, ou um roteiro. Portanto, é compreensível que tendo sido escrito e dirigido por uma mulher, e com uma temática que aborda a essência e o mundo feminino, o filme O Piano desde seu lançamento tenha sido rotulado como uma parábola feminista. Rótulos são sempre depreciativos e limitadores. Acho o filme vai muito além dessa visão feminista que lhe foi atribuído e interpretações à parte uma coisa é inegável: Jane Campion criou um dos melhores filmes da década de ´90.

Ada aceita em casamento um estrangeiro, talvez movida pela segurança que esta união possa trazer para ela e sua filha. Junto com a filha e seus pertences, Ada leva seu piano para o novo lar, mas lá o marido decide vendê-lo. Tem início então uma proposta por parte do comprador. Ela poderá tê-lo de volta, em troca de favores. Uma tecla para cada encontro – que ela inteligentemente limita às teclas pretas. Este simples arranjo vai dar início à sessões de piano carregados de erotismo. O marido descobre os encontros fortuitos. Após um acesso de fúria, ele deixa ela partir com seu amante, por quem agora já desenvolveu um sentimento genuíno. Ao partirem, o piano se revela uma carga inconveniente. Ada manda jogá-lo ao mar, mas numa atitude dramática se deixa levar junto com ele. No fundo do mar, Ada se liberta totalmente, escolhendo viver. O instrumento já cumpriu o seu papel.

A diretora neo-zelandesa já havia demonstrado talento e sensibilidade com o drama Um Anjo em Minha Mesa, mas pegou a todos de surpresa com a habilidade extraordinária de conduzir atores e parte técnica neste clássico moderno. O Piano tem uma fluidez narrativa extraordinária, e consegue transbordar de beleza, elegância e sofisticação visual em cada plano ou sequencia. Imagens de um piano de cauda numa praia deserta, ou o furo na meia de Ada por onde Baines aproveita para acariciar sua perna remontam a clássicos do cinema mudo, como Aurora, de Murnau ou O Atalante, de Jean Vigo . Imagens que falam por si só.

Campion se dá ao luxo também de subverter a ordem da escola clássica no que diz respeito à edição das imagens. Em muitos momentos, um plano de detalhe só se explica quando seguido de um plano geral, criando um certo estranhamento – vemos várias mãos no ar, para segundos depois entendermos que são os nativos carregando a carga e os passageiros que aportaram à praia – de certa forma, nos fazendo sentir a experiência vivida pela personagem nesta terra estrangeira.

Há no cinema estes raros casos (como aconteceu recentemente com o conterrâneo de Campion, Peter Jackson e sua trilogia de O Senhor dos Anéis) em que diretor extremamente inspirado encontra a equipe certa. Os quatros atores principais do filme estão ótimos – incluindo a encantadora primeira participação no cinema de Anna Paquin, Michael Nyman compôs uma espetacular trilha sonora que é tanto inserida como incidental como é executada ao piano pela personagem, e a fotografia explora ao máximo o contraste da floresta e da praia, com muita cor e luz.

Jane Campion nunca mais conseguiu igualar a si mesma na perfeição formal e dramática alcançada por O Piano – com sua aura romântica, erótica e libertária ao mesmo tempo. Mas o talento demonstrado em sua execução e o sucesso comercial obtido (uma produção independente que custou pouco mais de U$ 7 milhões e só nos Estados Unidos rendeu mais de U$ 40 milhões) colaborou imensamente para abrir as portas a novas realizadoras, que passaram a contar com mais simpatia e menos desconfiança por parte dos estúdios quando se lançam a financiar seus projetos.

SIDNEI CASSAL. . . . Formado em Letras (Português/Francês) . Estudante de Direito. Trabalhei com redação e criação publicitária. Participei de Oficina de Cinema, em convênio com a TVE-Porto Alegre, onde os curta-metragens produzidos foram montados e exibidos. Cinéfilo de carteirinha.