Crítica | O Planeta dos Macacos (1968)

estrelas 5,0

ATENÇÃO: O texto a seguir parte da premissa que os leitores já viram O Planeta dos Macacos. Caso não tenham visto, parem agora mesmo e assistam-no pois é uma das obras de ficção científica essenciais do cinema. Depois, voltem aqui para ler os comentários. Para quem já viu, boa leitura!

Em 1968, a première de O Planeta dos Macacos acontecia em Nova York, mudando para sempre o cinema de ficção científica e inaugurando uma longeva franquia que teve quatro continuações no cinema, uma série de TV animada e outra live action, um reboot em 2001 e outro em 2011, sem que nenhum deles tenha conseguido ultrapassar de verdade o original. De gênero sub-aproveitado e considerado “menor”, a ficção científica escapista transformou-se em algo extremamente lucrativo, ampliando os horizontes cinematográficos e abrindo caminho para filmes como Alien, Star Wars e O Exterminador do Futuro.

Charlton Heston estrela essa maravilha da Sétima Arte dirigida por Franklin J. Schaffner, que pode ser considerado como um dos mais importantes da ficção científica, por ter popularizado o gênero e mostrado sua viabilidade econômica. O filme mistura de forma inteligente o sempre intrigante artifício da viagem no tempo com questões sócio-políticas bem contemporâneas (em 1968 especialmente, mas ainda bem presentes nos dias de hoje).

Heston é Taylor, um dos quatro astronautas americanos que partiram para uma viagem à velocidade da luz. Ele é o último a entrar em animação suspensa e, quando acordam, estão em um planeta desolado, com a nave afundando em um lago. Logo descobrem que a única mulher do grupo morreu e os três restantes saem para explorar esse mundo.

Fica claro, nos primeiros 30 minutos de filme, que Taylor é um durão que escolheu participar da viagem para ficar sozinho. Não tinha nada na Terra que o prendesse por lá. Seus parceiros, porém, não são bem assim. Quando chegam em uma área de floresta, encontram humanos mudos roubando milho de uma plantação e, alguns momentos mais tarde, gorilas falantes, galopando cavalos, chegam para caçar os humanos.

Um dos astronautas morre fuzilado e Taylor e seu último colega são capturados junto com vários outros humanos mudos. Taylor foi ferido na garganta e não consegue falar. Ao ser enjaulado para ser estudado pelos chimpanzés Cornelius (Roddy McDowall) e Zira (Kim Hunter), Taylor demonstra inteligência superior e logo desperta atenção. Em uma ótima perseguição, Taylor fala pela primeira vez sua mais famosa frase, para o espanto de toda a cidade símia: “Take your stinking paws off me, you damned dirty ape!

Com isso, ele vai a julgamento e os símios sábios – orangotangos – resolvem fazer uma lobotomia em Taylor, de forma que ele não fale mais. Os tais orangotangos, liderados pelo Dr. Zaius (Maurice Evans), o Ministro da Ciência, mas ao mesmo tempo guardião da religião (qualquer semelhança com o que acontece hoje em dia em alguns países não é mera coincidência…), querem impedir que os humanos se utilizem de seus instintos violentos e destruam os símios.

Com o desenrolar do filme, descobre-se que os humanos desse planeta são todos primitivos e Taylor, em fuga ajudada por Cornelius e Zira, acaba se juntando à estonteante Nova (Linda Harrison). Obviamente, os humanos são caçados pelos gorilas, que fazem as vezes de polícia e de opressores. A comunidade formada pelos símios nada mais é do que uma comunidade que mimetiza a nossa, ainda que em escala bem menor. Eles consideram os humanos como serem primitivos que só prestam para servir e serem estudados, nada mais. Ao fim de sua fuga, Taylor faz uma descoberta estarrecedora, que deve ter sido incrível em 1968, pois ainda é incrível hoje em dia, mesmo já tendo visto esse filme uma boa quantidade de vezes: na verdade, em sua expedição espacial, Taylor não acabou em outro planeta, mas sim na própria Terra, depois de ser catapultado para o ano 3.978. Imediatamente vem à sua cabeça a explicação: os humanos se destruíram e a Terra foi dominada pela segunda espécie mais inteligente. Ele, então, grita de frustração e segue sua fuga. Rolam os créditos.

Como obra de ficção científica, O Planeta dos Macacos é perfeito. O filme apresenta questões intrigantes, viagem no tempo, revelações chocantes e efeitos práticos (as máscaras dos macacos) excelentes. Como crítica social, o filme também funciona perfeitamente. Na mesma linha que filmes de zumbi servem para deixar às escâncaras o consumismo e a maldade humana, O Planeta dos Macacos desvela o preconceito, nossa pretensa superioridade e outros defeitos de nossa sociedade. Na verdade, não esperaria algo diferente de um roteiro do mestre da ficção científica Rod Serling, que adaptou o livro do francês Pierre Boulle (o mesmo autor que, pasmem, escreveu A Ponte do Rio Kwai). É claro que, para isso, Serling não se despe completamente dos estereótipos (o humano incompreendido, o cientista bonzinho, os manipuladores e os opressores), mas que, dentro do conceito e da lógica do filme, acabam ajudando a trama.

A atuação de Heston, cheio de caretas, parecendo um homem das cavernas, cumpre de maneira muito eficiente seu papel de contrastar a selvageria dos humanos e a delicadeza e inteligência dos chimpanzés Cornelius e Zira. Aliás, Roddy McDowall dá um show como Cornelius. As feições marcantes do ator permanecem visíveis atrás da máscara de símio e sua atuação é, mesmo com as limitações naturalmente impostas, simplesmente irretocável demonstrando que uma mera máscara bem colocada em um ator de qualidade pode sim ficar à altura da captura de performance.

Outro ponto que não posso deixar de salientar é a marcante trilha sonora de Jerry Goldsmith que, mais tarde, seria muito bem emulada por outro mestre, Lalo Schifrin, na série de televisão que seguiu o quinto filme. Goldsmith pontua todo o filme com batidas tribais para identificar os humanos (ironia!) e fortes acordes de suspense para a chegada dos símios vilões. E o leit motif usado para apresentar Cornelius e Zira também cumpre sua função de dar um tom aventuresco ao mesmo tempo que científico aos inteligentes chimpanzés.

A ficção científica tem sofridos nos últimos anos com exemplares para lá de fracos (Prometheus, estou falando com você!). Voltar para assistir O Planeta dos Macacos é uma deliciosa fuga para tempos que filmes inteligentes não precisavam de orçamento altíssimo e conceitos complicados. Espero que o futuro próximo reserve ao gênero obras tão cativantes como a que comentei aqui.

Vida longa aos macacos!

*Crítica originalmente publicada em 2011, devidamente atualizada.

O Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, EUA – 1968)
Diretor: Franklin J. Schaffner
Roteiro: Michael Wilson, Rod Serling (baseado em romance de Pierre Boulle)
Elenco: Charlton Heston, Roddy McDowall, Kim Hunter, Maurice Evans, James Whitmore, James Daly, Linda Harrison, Robert Gunner, Lou Wagner, Woodrow Parfrey
Duração: 112 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.