Crítica | O Planeta dos Macacos (2001)

estrelas 3,5

Depois de 1976, com o fim da fracassada série animada baseada na mitologia dos macacos, a Fox mandou todo o material para a geladeira. Só no final da década de 80 é que houve alguma movimentação sobre uma volta ao Planeta dos Macacos com Adam Rifkin no timão. Não deu certo e, logo em seguida, Peter Jackson e Fran Walsh (sim, a dupla que acabaria nos trazendo a trilogia O Senhor Anéis) envolveram-se no projeto. Até Roddy McDowall estava no barco. Mas também não foi para frente. Durante a década de 90, o projeto passou pelas mãos de ninguém menos do que Oliver Stone, Chris Columbus (não ia dar certo, não é?) e até James Cameron.

Somente em 1999 é que a coisa andou de verdade, com um roteiro de William Broyles, Jr. (Apollo 13 e Náufrago) que acabou chamando a atenção de Tim Burton recém-saído da direção de A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. Com isso, a Fox finalmente assinou o cheque e um reboot total de Planeta dos Macacos saiu do papel, com um elenco extraordinário para esse tipo de filme.

A fita, porém, foi destruída pela crítica, mesmo conseguindo bilheteria mundial razoavelmente boa de 360 milhões de dólares, tendo custado 100 milhões. A crucificação do filme pela crítica certamente foi uma das razões pelas quais a Fox decidiu não seguir adiante com a franquia revigorada.

No entanto, sinto-me na obrigação de sair em defesa do filme de Tim Burton. Mas vamos começar pela história.

O filme começa em 2029 e nos conta a história do Capitão Leo Davidson (Mark Wahlberg, suficientemente convincente) que, ao tentar salvar seu chimpanzé Péricles de uma tempestade eletromagnética perto de Saturno, para onde ele fora mandado como cobaia, cai em um planeta habitado por símios inteligentes e humanos bestiais. Leo partira contra as ordens do capitão da estação espacial Oberon e a tempestade acaba catapultando-o pelo menos para o ano 2472. Digo “pelo menos”, pois o relógio de sua nave só é mostrado até esse ano, não ficando claramente determinado que ele só tivesse viajado 400 anos no futuro.

Depois de ser capturado pelos símios em circunstâncias quase idênticas às que Taylor (Charlton Heston) é capturado no filme original de 1968, Leo se une à humana Daena (a bela Estella Warren), a seu pai Karubi (Kris Kristofferson) e a alguns outros em uma fuga. Ele acaba sendo ajudado pelo chimpanzé fêmea Ari (Helena Bonham Carter), ativista dos direitos dos humanos e pelo gorila Krull (Cary-Hiroyuki Tagawa), seu relutante guarda-costas. No meio do caminho, eles se envolvem com o divertido mercador de escravos, o orangotango Limbo (o ótimo Paul Giamatti) e todos fogem do insano chimpanzé General Thade (vivido muito bem por Tim Roth), de seu imponente braço direito Attar (o saudoso Michael Clarke Duncan) e de um exército de símios.

Na fuga, Leo e sua trupe têm que atravessar a Zona Proibida para chegar à misteriosa cidade de Calima. No meio do caminho, os mistérios desse planeta dos macacos vão aos poucos sendo revelados. Há pelo menos três surpresas ao final, bem no estilo dos filmes da franquia e, apesar de nenhum deles ser tão sensacional quanto o final do primeiro filme, são suficientemente competentes para prender a atenção, mesmo o último final (realmente nos últimos segundos da projeção) que, tenho certeza, fez muitos críticos e espectadores torcerem os narizes incrédulos.  Falarei mais sobre esse final na seção “Planeta de Spoilers” mais abaixo.

Tim Burton optou por mostrar os símios em um estágio evolutivo semelhante, mas um pouco superior à dos filmes clássicos. É claro que, com a generosa quantia liberada pela Fox, Burton e sua excelente equipe de direção de arte conseguiram resultados bem mais impressionantes que antes. Para começar, a maquiagem é detalhada, orgânica e muito mais natural e, ao mesmo tempo, muito mais completa que aquelas máscaras de símio que abafavam as vozes e feições dos atores, ainda que, para o final dos anos 60 e meados da década de 70, elas tenham sido extraordinárias.

É perfeitamente possível discernir os traços de Roth, Duncan, Giamatti e Bonham Carter por trás da pesada maquiagem de corpo inteiro. A equipe de um dos magos das próteses – Rick Backer – foi acionada e o que vemos é pura mágica, especialmente porque era uma aposta arriscada diante da insistência da Fox em usar efeitos em computação gráfica, o que foi rejeitado por Burton, historicamente adepto dos efeitos práticos sempre que humanamente (ou “simiamente”) possível.

Outra escolha brilhante de Burton foi a de retratar os símios da maneira mais símia possível sem ficar ridículo. Assim, os símios não só andam como tais, mas, também, usam os pés para atividades do dia-a-dia como escrever, pulam ágil e poderosamente por todo lado e tem ataques de fúria muito semelhantes aos que podemos testemunhar em zoológicos.

Tim Roth, como o General Thade, está especialmente sensacional em sua encarnação símia e aqui a escolha de Burton de usar um chimpanzé, não um óbvio gorila como general e principal vilão, foi outra jogada de mestre. O desprezo – e medo – de Thade em relação aos humanos torna-se ainda mais incrível quando vemos isso pelos olhos de um símio tão parecido conosco e um que nos acostumamos a gostar, depois da pentalogia setentista e de anos de Tarzan nas telinhas e telonas.

Burton é conhecido por sempre forçar o “estilo Burton” aos seus filmes, com designs muito interessantes, góticos, mas que, de certa maneira, se repetem. Em O Planeta dos Macacos, porém, Burton conseguiu criar um universo bem próprio que, apesar de ainda ter seu toque, não é descaradamente “burtoniano”.

O roteiro é linear e objetivo, seguindo o padrão de chegada ao planeta, captura dos protagonistas, sua fuga e revelações. Nada particularmente brilhante, mas também nada que deponha contra o filme. É uma pena que Burton tenha sucumbido aos desejos da Fox de incluir uma tentativa de final chocante como o do primeiro filme, que acaba parecendo forçado, feito exclusivamente para abrir o caminho para uma continuação. Outros detalhes no roteiro, como a velocidade com que os eventos se desenrolam e o uso de um deus ex machina exagerado ao final, acabam detraindo do todo, mas não o suficiente para estragar a diversão.

Já ia me esquecendo: vale prestar atenção na ponta que Charlton Heston faz nesse filme como um idoso chimpanzé, pai de Thade. Não é só uma homenagem merecida ao seu papel de Taylor no filme original como, também, um momento importante no filme, além de se relacionar com a vida privada do ator, sempre defensor do uso de armas de fogo.

Planeta dos Spoilers: o que segue é uma tentativa de racionalizar o final, não sendo, obviamente, uma resposta definitiva, até porque ela não existe.  

Muita gente viu, incrédulo, um final aparentemente sem sentido para O Planeta dos Macacos. Leo, que estava em outro planeta, ao alçar voo com o pod de Péricles, entra novamente na tempestade eletromagnética e é catapultado de volta para o passado, mais precisamente para o ano de 2155, e vai direto para a Terra. Quando chega lá, Leo dá de cara com uma Washingon D.C. igualzinha à que existe aqui, mas com Thade no lugar de Abraham Lincoln naquela estátua famosa e cercado de policiais e repórteres símios, com roupas iguais às nossas.

Para entender esse final, temos que tentar compreender o começo do filme e o conceito que ele estabelece, por mais maluco que ele possa ser.

Quando Péricles é engolido pela tempestade espacial, Leo vai atrás. Como Leo vai para o futuro, é razoável supor que Péricles vai também. Calima, como é revelado no outro final surpresa, é a nave Oberon de Leo que fora ao resgate dele, caindo no planeta. Ou seja, do nosso lado, Péricles vai primeiro, Leo depois e a Oberon por último. Do lado de lá, quem chega primeiro é a Oberon, Leo chega em segundo (muito tempo depois, pois, provavelmente a Oberon também partiu em resgate somente muito tempo depois) e Péricles chega por último (mas quase junto de Leo, pois Leo vai atrás do chimpanzé quase que imediatamente), ajudando o outro final surpresa. No universo estabelecido por Burton, quem viaja no tempo primeiro chega por último e vice-versa.

Com essa premissa em mente, e aqui precisaremos um pouco mais da dose usual de suspensão da descrença, quando Leo sai do planeta dos macacos, teremos que aceitar que Thade, que fica preso na cabine de comando da nave, absorve os conhecimentos que lá estão disponíveis (basicamente todos os comandos da nave e milhões de horas de captura de transmissões da televisão da Terra, como fica evidente no filme) e, de alguma maneira, convence Attar ou talvez outro símio a libertá-lo. Ele, então, junta equipes e mais equipes de símios para aprender tudo sobre a Oberon e a Terra e, com isso, os símios dão um salto tecnológico.

Nem é necessário acreditarmos que o salto se dá em poucos anos. Pode ser algo que se passa ao longo de centenas ou milhares de anos facilmente. A figura de Thade, porém, ou de um de seus descendentes, permanece com enorme importância na mitologia símia como é o caso de Caesar ou do Lawgiver nos filmes clássicos. Assim, um belo dia, talvez milhares de anos no futuro, os símios aprendem a dominar o espaço e voam para a Terra. Ah, vale lembrar: o filme não se passa na Terra no futuro, mas sim em outro planeta no futuro já que isso fica claro pela forma dos continentes e pela quantidade de satélites que o planeta tem (sim, sei que milhares de anos no futuro, os continentes da Terra deverão ser diferentes e eventos cataclísmicos poderiam gerar outras luas, mas não consigo gostar dessa teoria).

Como disse, quem sai por último chega primeiro. Assim, os símios alcançam a Terra muitos milênios antes de Leo, talvez na Aurora do Homem e dominam facilmente os poucos homínidas que encontram na Terra e, a partir daí, criam uma civilização que mimetiza a história de nosso planeta como a conhecemos! E essa história da Terra foi aprendida e passada adiante por Thade e seus descendentes a partir dos arquivos da Oberon.

Ufa! Sei que isso exige certo exercício mental e uma saudável dose de aceitação de conceitos impostos pelo filme, mas, para mim, é a única explicação “plausível” (reparem nas aspas!) para esse final. Sei também que existe toda uma discussão de que a viagem de Leo não foi só ao futuro, mas também para outra dimensão, só que essa é uma explicação que me parece fácil demais e sempre desconfio de coisas fáceis. E, para corroborar o que acho, devo dizer que a explicação acima é muito semelhante ao final do livro de Pierre Boulle, que deu origem à macacada cinematográfica, ou seja, não foi algo tirado magicamente da cartola de ninguém.

Fim do Planeta dos Spoilers.

A obra de Tim Burton pode não ser muito apreciada por aí, mas ela tem seu valor estético inegável, além de uma narrativa intrigante, com atuações de se tirar o chapéu do lado símio. Se foi um reboot necessário, não saberia dizer (minha tendência é nunca apreciar reboots), mas foi uma tentativa valorosa.

*Crítica originalmente publicada em 2011 fora do Plano Crítico. Publicada no site em 20 de julho de 2014. Revisada e ampliada para republicação.

O Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, EUA – 2001)
Direção: Tim Burton
Roteiro: William Broyles Jr., Lawrence Konner, Mark Rosenthal (baseado em romance de Pierre Boulle)
Elenco: Mark Wahlberg, Tim Roth, Helena Bonham Carter, Michael Clarke Duncan, Paul Giamatti, Estella Warren, Cary-Hiroyuki Tagawa, David Warner, Kris Kristofferson, Erick Avari, Charlton Heston
Duração: 119 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.